3 de mar de 2018

Celebrar a vida do povo

Em outros artigos sobre a função da Pastoral Litúrgica Paroquial, do ponto de vista da formação e do cultivo da vida espiritual da comunidade, destacava que a celebração litúrgica é uma das poucas ou a única fonte espiritual da maior parte dos paroquianos. Vou continuar neste viés a partir de um conhecido jargão veiculado em cursos, encontros e debates sobre a Liturgia Paroquial: celebrar a vida do povo.

Dois polos no celebrar a vida do povo
            O termo “celebrar a vida do povo” é um tema genérico e, por isso, aberto, do qual destaco dois polos. De um lado, aqueles o entendimento que celebrar a vida do povo é priorizar o que se denomina como “lutas do povo” e transformam a celebração em denuncias e queixas. Do outro lado, aqueles que entendem que celebrar a vida do povo é momento purgativo dos males físicos e emocionais, e transformam a celebração em exorcismos ou em intercessões de curas e milagres.
            Ambos os polos têm espaço nas celebrações litúrgicas, de acordo com a proposta pedagógica do Ano Litúrgico. As normas Litúrgicas, excetuando Domingos e os tempos fortes, permitem, inclusive, a escolha de leituras que favoreçam um polo ou outro. O problema é a manipulação nas escolhas e seu uso para comprovar o que pensa o pregador. Neste sentido, a sabedoria e a experiência da Igreja, em seus dois milênios de história, é exemplar e pode inspirar-se, neste caso, a partir da sabedoria do Eclesiastes: “há um tempo para cada coisa” (Ecl 3,1-8).
O Ano Litúrgico propõe à vida do povo um tempo para esperar (Advento), um tempo para renascer (Natal e Páscoa), um tempo para penitenciar-se e reconciliar-se (Quaresma), um tempo para celebrar a vida plena (Tempo Pascal) um tempo para o discipulado (Tempo Comum). A insistência em tematizar celebrações cria desequilíbrios celebrativos, como por exemplo, 1h de homilia (em estilo de sermão, na maior parte das vezes) e rapidez exagerada em outras partes da celebração, ou, outro exemplo, atos penitenciais infindáveis e cansativos e pouco tempo para a ação de graças e o louvor.
A arte celebrativa consiste em harmonizar os diferentes momentos da celebração, seja no conteúdo, seja no tempo dedicado aos ritos. Não uma celebração que se pareça a um comício e nem uma celebração envolvida em espiritualismo sentimental. Os dois polos, aquele que reflete a fadiga do cotidiano, e aquele que reflete a sede de Deus, precisam estar presentes de modo harmonizado, refletindo a vida do povo.

Dois significados para o celebrar a vida do povo
            Existem dois significados básicos na celebração da vida do povo. O primeiro relaciona-se à vida eterna. O que é vida eterna? É a vida divina oferecida como alimento e como bebida ao povo. Por vida eterna não se entende a vida depois da morte — embora assim também seja — mas a qualidade de vida oferecida por Deus ao discípulo e discípula de Jesus. É o que diz Jesus: “quem crê em mim não morrerá, viverá para sempre” (Jo 11,25). É a vida eterna que celebramos em todas as celebrações Litúrgicas, é a celebração da vida plena, recebida no Batismo, alimentada na Eucaristia e nos demais sacramentos. Quanto mais se celebra a vida plena em nossas celebrações, mais as sementes do Evangelho tomarão conta da vida de cada celebrante e contaminará o cotidiano da vida do povo com a vida plena. Este é um grande desafio de quem preside as Liturgias com o povo e um grande desafio da Pastoral Litúrgica: criar celebrações que celebrem a vida eterna para que a vida do povo seja plena. Ou seja, celebrar a vida do povo não é colocar uma lente de aumento nos problemas sociais ou nos pecados, mas acender a luz do Evangelho na vida do povo, para que a vida do povo seja vivenciada de modo pleno, apesar dos problemas sociais e dos pecados pessoais e sociais.
            O segundo significado de celebrar a vida do povo é levar o cotidiano da comunidade para dentro da Liturgia. Para isso, o padre e a Equipe Litúrgica precisam interceder com a mesma súplica da Oração Eucarística VI – D: “dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e os oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles”.
            A celebração Eucarística celebra a vida do povo quando se tem olhos para ver a realidade do povo com o mesmo olhar de Jesus Cristo. A Igreja, na Oração Eucarística VI – D, menciona o serviço, localizando a Eucaristia no contexto do lava-pés (Jo 13,5-14). Isto favorece a compreensão que celebrar a vida do povo é abrir os olhos para ver a realidade com o mesmo olhar de Jesus, condição necessária para se entrar na dinâmica do serviço com palavras e atitudes em favor da vida plena para o povo.
A celebração Litúrgica jamais deverá incitar raivas, ilusões utópicas ou promessas de curas milagrosas; a celebração é um momento que se sai do barulho e das mazelas do mundo para ajudar o povo a sentir o carinho de Deus e aprender de Jesus a ter um coração semelhante ao dele para lidar com a dureza da vida do povo.

Como celebrar a vida do povo
            O desafio do padre, ao presidir a Liturgia, e o desafio das Equipes de Celebrações, especialmente na Eucaristia, consiste em iluminar a vida do povo, em tocar a vida do povo, em criar esperanças e propor caminhos para a vida do povo a partir da Palavra e, mais precisamente, a partir do Evangelho. Condição indispensável para fazer isso é o conhecimento da vida do povo.
            Uma Pastoral Litúrgica — e igualmente o padre — que não tem o olhar de Jesus para ver as necessidades do povo, que não conhece as necessidades do povo, inevitavelmente vai se preocupar mais em “apresentar a Missa” com canções, ritos e coreografias, por exemplo, que celebrar a vida do povo acendendo nesta vida a luz do Evangelho.

Concluindo
            Para concluir, gostaria de dizer que estou falando de um objetivo da Pastoral Litúrgica: alimentar a vida de cada celebrante e a vida da comunidade, acendendo a luz do Evangelho para se ter olhos para ver com o olhar de Jesus a realidade da vida e a disposição ao serviço. Com isto se entende que a celebração litúrgica é um momento que separa os celebrantes da vida diária para, depois, devolvê-lo para a mesma vida diária, mas com um olhar diferente e com a disposição de se colocar a serviço da vida plena.
            Por isso, não estou excluindo e nem me colocando contra introduzir símbolos, bater palmas, fazer gestos... mas que tudo isso tem uma finalidade específica: trazer a vida do povo para dentro da celebração e sempre propor e repropor, de modo novo, com a criatividade litúrgica, o olhar e as atitudes de Jesus em favor da vida do povo.
Serginho Valle

Fevereiro de 2018
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