9 de out. de 2021

Nem toda música é litúrgica

Nem todas as músicas servem para ser cantadas numa celebração litúrgica. Mesmo que mencionem Deus ou falem de amor ou, até mesmo tenham uma bela mensagem... nem toda música serve para a Liturgia. De modo mais aviltante, algumas celebrações matrimoniais, por exemplo, sem algum critério litúrgico, cantam músicas que são temas de um personagem de novela, ou cantam algum hit que está no sucesso do momento. A Liturgia não se rege pelo sucesso, mas pelo Mistério que celebra.

Não estamos discutindo a qualidade da música, mas a finalidade e a função da música na celebração litúrgica. Em algumas comunidades, infelizmente, encontramos o ministério da música cantando músicas bonitas, mas impróprias para a celebração da Missa. Com intenções ou finalidades que não correspondem ao Mistério celebrado, alguns músicos valorizam mais a música que a celebração. Este é um modo de desafinar, não a música, mas a celebração.

 

Cantar “A” celebração ou “NA” celebração

            Há alguns anos, apareceu uma música que fez sucesso em algumas assembleias litúrgicas: “Anjos de Deus”. Foi uma prova e tanto para o ministério de música das comunidades, pois foi possível verificar quem deles cantava “a” celebração e quem cantava “na” celebração. A distinção encontra-se no “a celebração” e “na celebração”.

Os primeiros, aqueles ministérios de música que “cantam a celebração”, analisaram a letra da canção evangélica “Anjos de Deus” e perceberam algumas contradições com a Teologia Litúrgica da Missa. Perceberam incompatibilidades de anjo que faz barulho e a necessidade de ouvir barulhos angelicais para abrir o coração e oferecer a oração a Deus. Uma canção, da autoria do Pastor Elizeu Gomes que, em 1996, depois de uma grande polêmica por direitos autorais e de gravação, afirmou à revista Veja que a música é do repertório evangélico e não católico.

Os segundos, aqueles ministérios de música que “cantam na celebração”, não viram problema em cantar esta música na Missa, inclusive na hora da comunhão. Não estudaram a canção; importaram-se mais com o agitado e gostoso ritmo da música e adotaram este critério para cantar a canção. Outros, se serviram do critério do sucesso que a canção fazia, embalada por Missas na TV, que “pretensamente” justificava cantar esta canção na celebração da Eucaristia.

Quem conhece a canção “Anjos de Deus”, e gosta de música ritmada, a classifica como uma música bonita e envolvente. Mas este não é o único critério litúrgico para que uma canção possa acompanhar um rito celebrativo, seja da Missa ou dos demais Sacramentos. No caso exemplar da música que estamos mencionando, quem conhece Liturgia entende que as celebrações não se caracterizam pelo barulho de anjos levando nossas preces ao Pai. Quem conduz nossas preces ao Pai é Jesus, nosso único mediador, como sempre concluímos as orações: “por Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo”.

É bom e necessário cantar músicas agradáveis em nossas celebrações, mas isso significa que qualquer música sirva para ser cantada na Liturgia.

Serginho Valle

Agosto de 2021

 

2 de out. de 2021

A música litúrgica em debate

Uma das questões mais debatidas em encontros formativos de Liturgia é a música. Tem de tudo um pouco. Desde comunidades com um excelente ministério de música, até comunidades onde um músico precisa salvar a pátria sozinho, caso contrário ninguém canta nas celebrações. Outra realidade é aquela de comunidades com grupos musicais que dominam e não aceitam sequer sugestões, seja de quem for. Existem comunidades com grupos musicais que pesquisam, fazem cursos e melhoram a olhos vistos aprendendo e se aprimorando na arte da música litúrgica. 

Por fim — para a lista não ficar longa demais — existem grupos de música que tocam nas igrejas como se estivessem num salão de festas, com som alto e com falta de critério na escolha das músicas. De outro lado, e felizmente, existem ministérios de músicos que fazem os celebrantes cantar, usam os instrumentos como acompanhamento e cantam com a arte que a comunicação litúrgica exige.

 

A música cantada pelos celebrantes

E os celebrantes? Também aqui temos de tudo um pouco. Comunidades onde ninguém abre a boca. Um grupo de músicos ou um coral canta por eles e eles limitam-se a escutar. Culpa de quem? Dos celebrantes que não querem cantar ou dos músicos que preferem cantar sozinhos? Depende! Não vou entrar no mérito desse fato.

Mas, tem também comunidades onde os celebrantes cantam e não se importam com ensaios para aprender canções novas. Existem comunidades onde só as mulheres cantam. Em outras, comunidades, o coral de mulheres e homens cantando é afinado a duas ou mais vozes, ou alterando, em modo dialogado: ora cantam as mulheres, ora os homens. Estas últimas, são comunidades que tratam a música litúrgica como arte e como oração. Na retaguarda de tais comunidades está um ministério da música que trabalha com amor e carinho para comunicar-se bem e ajudar a assembleia a rezar cantando.

 Como se canta a Liturgia

Por último, a questão de como se canta a Liturgia. Estou falando de cantar a Liturgia; não apenas cantar na celebração, mas cantar a Liturgia, cantar a celebração.

Em algumas Missas, grupos musicais e até ministérios de música não favorecem cantar a celebração, mesmo que sejam músicas conhecidas. Ou porque cantam alto demais, ou porque são desafinados ou porque introduzem variações que valorizam mais os instrumentos que as vozes.

Em outras missas, alguns corais ainda não compreenderam sua função ministerial na Missa como servidores dos celebrantes para cantar ritos ou acompanhar ritos com as canções. São grupos musicais e ministérios de música que fazem apresentações na Missa e transformam a música litúrgica em concerto sem a mínima chance de a assembleia participar da celebração cantando.

Mas, graças a Deus, temos também comunidades onde as celebrações, nas quais o modo de cantar é artístico e com muito bom gosto. Mais que cantar por cantar, nestas últimas comunidades se reza cantando e se canta louvando a Deus.

             Chamo atenção que distingo entre grupos de músicos e Ministério da Música. O grupo de músicos vai na Missa, toca, canta e vai embora. O Ministério da Música cultiva a Música Litúrgica, sua espiritualidade, sua arte e sua oração. Dedica-se à música litúrgica pelo estudo e pela partilha da arte musical nas celebrações.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

18 de set. de 2021

A espiritualidade na Pastoral Litúrgica Paroquial

 

Definições como “a Liturgia é a fonte de todas as atividades da Igreja” (SC 10) ou “a Liturgia é escola da espiritualidade e da vida cristã” (São Paulo VI), desafiam as atividades e o modo de agir da Pastoral Litúrgica Paroquial. O desafio consiste em tornar as celebrações da comunidade a fonte e a escola da espiritualidade cristã na paróquia. Entenda-se espiritualidade como dinâmica existencial motivada pelo Espírito de Deus e não como práticas espirituais apenas.

O desafio é grande, de modo especial quando se confunde celebração litúrgica com cantorias ou ritos “extra celebrativas” suplicando milagres, com celebrações matrimoniais que são verdadeiros teatros, com mutirões de confissões divulgadores de uma mensagem de desobrigação moral e não compromisso moral; e algumas aberrações que vemos e ouvimos. São desafios e, ao mesmo tempo, evidências que ainda existe um caminho longo a ser feito para que a Liturgia seja fonte e escola da espiritualidade cristã na vida de nossas comunidades.

Mas, como podemos tornar nossas celebrações fonte e escola da espiritualidade cristã? Em algumas comunidades existe todo um caminho a ser aberto e explorado; em outras comunidades, haverá a necessidade de rever o modo de celebrar; pode ser que algumas comunidades necessitem dedicar tempos para estudos, cursos, laboratórios... Cada realidade com suas exigências. Vou sugerir três passos. 

 

1º Passo: equipes de celebrações com espiritualidade

O 1º passo da Pastoral Litúrgica Paroquial, coordenada pela Equipe Litúrgica, é formar equipes de celebrações com pessoas que já tenham experiência no caminho da espiritualidade. Estou dizendo que as equipes de celebrações não deveriam ser formadas por pessoas que aparecem de vez em quando ou que sejam “laçadas” minutos antes de a celebração começar.

Que sentido tem, por exemplo, escolher alguém para proclamar uma leitura se ele vem à Missa por hábito religioso? Outro exemplo. Que espiritualidade poderá passar uma banda de músicos profissionais que nunca vão à igreja para nada, mas são contratados para “abrilhantar a celebração”? Ninguém poderá dar daquilo que não está no coração. Se um leitor não tem a Palavra de Deus no seu coração, se não a vive, se não a medita antes de ler, dificilmente ele a comunicará bem. Poderá ler bem, mas não passará de uma peça de oratória. O mesmo serve para os músicos, se ali vão só para tocar: podem cantar e tocar muito bem, mas não passará de uma apresentação.

O 1º passo consiste em formar equipes de celebrações com pessoas cultivadoras da espiritualidade cristã; que aprenderam a beber sua espiritualidade na fonte da Liturgia e nela se formaram. Difícil encontrar? Então tenho uma segunda pergunta: como sua comunidade está celebrando?

 

2º passo: refletir e preparar a celebração

O 2º passo tem a ver com as celebrações que sejam fonte e escola da espiritualidade cristã na vida dos celebrantes. Para isso, a preparação das celebrações com pessoas — que formam as equipes de celebrações — que caminham nos caminhos da espiritualidade cristã. Preparar uma celebração não é distribuir funções, é ser capaz de oferecer “copos” para que os celebrantes bebam da fonte espiritual da Liturgia antes de a celebração começar.

Dentro desse cenário não existe espaço para a improvisação, para exercício de ministérios tapa buracos que cumprem formalidades celebrativas e em nada ajudam os celebrantes no crescimento espiritual cristão. Vamos nos questionar: como um padre poderá ajudar no crescimento espiritual do seu povo se, minutos antes de iniciar a Missa, na procissão de entrada, pergunta: “qual será o Evangelho de hoje?” Como uma equipe de celebração poderá ajudar no crescimento espiritual do povo, se a mesma é formada minutos antes da Missa?

São sintomas graves e extremos da improvisação, indicativos de pouco cuidado para com a celebração litúrgica da comunidade e de total desinteresse para que as mesmas sejam fonte e escola da espiritualidade cristã na comunidade.

 

3º passo: criar um itinerário espiritual

Fazer com que as celebrações sejam fonte do crescimento da espiritualidade do povo. Aliás, trata-se da fonte mais autêntica, uma vez que se fundamenta no próprio Mistério Pascal de Cristo. Este é um grande desafio para uma Pastoral Litúrgica Paroquial eficiente e produtiva. Por isso, a importância de criar um itinerário espiritual, fazendo com que as celebrações dominicais, de modo especial, sejam como que passos que, pouco a pouco, ajudem os celebrantes a caminhar no projeto do Reino. De modo mistagógico, este é um meio de ajudar os celebrantes a entrar no mistério celebrado, a beber este mistério e a transforma-lo em vida, no seu modo de ser e de agir na sociedade. É uma espiritualidade que evangeliza pelo processo mistagógico, formadora do discipulado.

Esta é a noção de espiritualidade que está subjacente na vida cristã que brota da Liturgia. A espiritualidade litúrgica não fala da grandeza Eucarística em tons sentimentalistas, por exemplo, mas incentiva à grandeza Eucarística pela prática da vida cristã. A beleza da Eucaristia produz frutos, como lemos na parábola da videira (Jo 15,1-8).

A celebração litúrgica é o local, por excelência, no qual o Espírito Santo age na vida concreta de cada celebrante. Cada celebração, de modo especial na dinâmica pedagógica do Ano Litúrgico das Missas Dominicais, o celebrante aprende a agir como Deus, aprende a viver com o mesmo Espírito inspirador da vida de Jesus Cristo (Lc 4,14-21). Neste sentido, a despedida da Missa não deveria ser, “ide em paz’, mas “Vão e façam o que o Espírito inspirou na vida de cada um”.

 

Conclusão

            O desafio da Pastoral Litúrgica Paroquial, na proposta de fomentar a espiritualidade litúrgica, não deveria recair em como fazer celebrações atrativas, embora isso tenha seu mérito, mas em como celebrar a vida cristã favorecendo o ingresso e o crescimento dos celebrantes na espiritualidade do Evangelho.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

11 de set. de 2021

Liturgia: fonte da espiritualidade na paróquia

 

Mesmo sabendo que a Liturgia é fonte e cume de todas as atividades da Igreja (SC 10) e, isto inclui a dimensão da espiritualidade na vida cristã, sempre convivemos com o desafio de fazer com que as celebrações litúrgicas da comunidade sejam a primeira e principal fonte da espiritualidade cristã.

Uma imagem, que é ícone da Liturgia fonte da comunidade paroquial, é a de Jesus sentado à beira do poço de Jacó e, naquele poço — que ficava fora da cidade — celebrou o encontro com a comunidade de Sicar (Jo 4,5-42). Foi daquela fonte, na conversa com a samaritana — uma verdadeira Liturgia da Palavra — que Jesus enviou a samaritana para chamar o povo até próximo do poço (fonte). Ali, com o povo reunido em sua volta, fez a celebração do encontro e apresentou sua proposta de vida; seu Evangelho.

No símbolo do poço, percebemos uma semelhança muito próxima entre o encontro de Jesus com o povo daquela comunidade; uma semelhança com as celebrações em nossas comunidades. Na fonte-Liturgia existe uma água que mata a sede de vida, porque quem nos dá desta água é Jesus, a fonte da água viva (Jo 4,14). Nossas celebrações, portanto, são locais onde nossas comunidades se dirigem para celebrar e beber a água da vida. É na fonte-liturgia que a comunidade faz experiência de encontro com Jesus e ouve, Domingo depois de Domingo, celebração depois de celebração, o projeto de Jesus para a vida pessoal e para o modo de viver numa comunidade evangelizada.

Aqui existe um grande desafio para a Pastoral Litúrgica Paroquial, no âmbito da espiritualidade cristã: fazer com que as celebrações da comunidade não sejam, apenas, demonstrações de criatividade para emocionar ou apreciadas pela beleza artística, mas autêntica fonte da espiritualidade cristã que favoreça a vida dos celebrantes a participar e a empenhar-se pelo projeto do Reino de Deus, assumindo a proposta de vida de Jesus Cristo e caminhando na estrada de Jesus, o seu Evangelho.

Todos que trabalhamos na Pastoral Litúrgica Paroquial temos consciência que este desafio é grande. Um desafio que, para ser enfrentado necessita de pessoas preparadas, não apenas no conhecimento da Liturgia, mas preparadas espiritualmente, quer dizer, pessoas que iluminam suas vidas na espiritualidade do Evangelho bebida na fonte da Liturgia.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

14 de ago. de 2021

Espiritualidade cristã na celebração das exéquias

Refletir e celebrar a morte do cristão é entrar na dinâmica da esperança da Ressurreição do Senhor, que garante ao cristão a ressurreição no último dia (Jo 6,36-40; 14,1-6). Estamos diante de um aspecto da espiritualidade que se fundamenta na fé e na esperança da vida eterna. Mesmo que o cristão fique triste, chore e sinta saudades de alguém que morreu, ele não perde a esperança, jamais. A saudade faz parte da vida cristã; a tristeza da mesma forma, mas nem a morte é capaz de abalar a fé e a esperança cristã. É uma experiência que, vivenciada na fé, fortalece a confiança e a esperança em Deus. A celebração litúrgica das exéquias, dentre as suas finalidades, deverá favorecer espiritualmente o fortalecimento da fé e da esperança.
                Como acontece com toda espiritualidade cristã, à luz da Liturgia, também as exéquias encontram seu fundamento e sua inspiração no Mistério Pascal de Cristo e, de modo especial, na Ressurreição do Senhor. Assim como Deus ressuscitou Jesus Cristo, o primeiro a entrar na casa do Pai, assim também quem morre em Cristo vive pessoalmente sua Páscoa (passagem) no dia de sua morte.
 
Respeito para com o falecido
            Outra dimensão, que encontra sua fonte na teologia e na riqueza espiritual da Liturgia, é o respeito pelos falecidos. O respeito deve-se a alguém querido, ou que fez parte da nossa vida, a quem se presta a última homenagem. A Liturgia celebra este momento com a saudade triste, com as preces e com a solidariedade aos familiares. Por isso, a Liturgia dos funerais é sempre celebrada no mais profundo clima de respeito.
            O respeito cristão está relacionado também a aquela pessoa que, no seu corpo falecido, foi templo do Espírito Santo, como menciona o Ordo Exsequiarum, n. 3. Mesmo sabendo que o corpo volta ao pó, há nele uma sacralidade, de acordo com a Sagrada Escritura (1Cor 6,19-20; Gl 6,17) e, por este motivo, o Rito das Exéquias orienta abençoar, aspergir e incensar o corpo do falecido. Estamos diante de uma manifestação da espiritualidade do corpo, revelador da sacralidade do corpo.

        Celebrar a morte cristã, do ponto de vista da espiritualidade litúrgica, é ajudar as pessoas a entrarem na dinâmica da esperança cristã em vista da vida eterna. Neste sentido, a celebração das exéquias faz memória do destino final, não com as ameaças do medo, mas com a força da esperança. Uma celebração, portanto, sempre emocionante porque de despedida derradeira, com a finalidade clara de favorecer o crescimento na confiança e na esperança, de que desta vida passageira somos destinados a viver eternamente com Deus, na esperança e na paz eterna.

Serginho Valle
Agosto de 2021

 

 

10 de jul. de 2021

Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Tanto o Sacramento da Penitência como o Sacramento da Unção dos Enfermos são celebrados por pessoas debilitadas, enfraquecidas ou pelo pecado ou pela debilidade física. Na dimensão da espiritualidade litúrgica, esses sacramentos caracterizam-se pela misericórdia, paciência e compreensão. Não é sem motivo que nas Introduções dos Rituais desses Sacramentos se insiste que o padre, no papel de confessor ou administrador da Unção dos Enfermos, prepare-se para bem celebrar este momento, no qual terá que fortalecer irmãos debilitados. Descreve a necessidade da preparação espiritual e psicológico para entrar em contato com a fragilidade humana.

          Do ponto de vista da Pastoral Litúrgica, é necessário insistir numa mentalidade madura e equilibrada sobre estes dois sacramentos. Isso poderá acontecer se a Pastoral Litúrgica dispor de equipes de celebrações que ajudem os penitentes na preparação para uma boa confissão, com celebrações ou dinâmicas preparatórias, como meditação, Lectio divina, breve reflexão...  E, no caso da Unção dos Enfermos, quando as Pastorais da Saúde e Litúrgica souberem ajudar as famílias a celebrar a presença do fortalecimento divino na unção e na oração de fé que, como diz São Tiago (Tg 5,14-15).

Reconheço, e creio que você também reconhece comigo, que muito se tem a fazer na pastoral destes dois sacramentos para não aproximá-los de conceitos mágicos, mas em fazer deles aquilo que são: celebrações de fortalecimento para quem se confia totalmente a Deus no momento que a vida o estiver debilitando.

 Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Infelizmente, nem todas as comunidades têm uma Pastoral Litúrgica Paroquial capaz de considerar a importância que merecem os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos.

Reconheço não ser fácil para a Pastoral Litúrgica Paroquial organizar atividades pastorais próprias para o Sacramento da Penitência se este estiver centrado unicamente no padre. Além do mais, alguns costumes e práticas pastorais classificam o Sacramento da Penitência não como momento celebrativo da misericórdia divina, mas momento acusatório: o penitente conta os pecados, o padre escuta, dá a absolvição e tudo está consumado. Não existe, ainda, em muitas comunidades, a dimensão celebrativa e uma espiritualidade capaz de revestir o Sacramento da Penitência como momento reconciliador com Deus e com os outros, no contexto da vida cristã.

O mesmo podemos dizer quanto a atividade da Pastoral Litúrgica Paroquial a respeito do Sacramento da Unção dos Enfermos. Tenho percebido que o mesmo é celebrado quase sempre de modo isolado, quando muito restrito ao âmbito familiar, quando o enfermo está em casa. Nos hospitais, mesmo havendo possibilidade e ter pessoas por perto, o padre como que executa o rito sozinho com o doente. Não estamos falando de validade, de efeito espiritual, nada disso. Mas da dimensão pastoral que pede a presença da comunidade, mesmo que representada pela família ou por pessoas que atuam ministerialmente com os enfermos.

Sim, existe um campo enorme para se desenvolver um trabalho pastoral com os Sacramentos medicinais da Penitência e da Unção dos Enfermos. Um trabalho pastoral que contemple a dimensão da acolhida e da escuta fraterna; trabalho pastoral realizado em forma de multidisciplinariedade, com orientação psicológica, por exemplo, com direção espiritual e catequética para preparar aqueles que precisam voltar para Deus com uma boa confissão. Para preparar o enfermo e a família, que também se fragiliza na doença, para uma boa celebração da Unção dos Enfermos.

            Os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos jamais podem ser desconsiderados ou esquecidos pela Pastoral Litúrgica Paroquial. Sim, trata-se de algo óbvio e evidente que a Pastoral Litúrgica Paroquial se ocupe destes Sacramentos. Na prática, infelizmente, grande parte da Pastoral Litúrgica Paroquial, em muitas comunidades, não existe um trabalho específico com estes dois Sacramentos que conferem a graça do perdão e da conversão, que conferem também a graça da fraternidade, da misericórdia e da consolação.

Serginho Valle

Maio de 2021

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