19 de fev. de 2022

Educar para celebrar de modo orante

A maior das causas na dificuldade de celebrações litúrgicas autênticas e frutuosas está na não educação para celebrar. Não uma má-educação, no sentido de não se respeitar protocolo ou etiquetas celebrativas, mas em ignorar o que é a Liturgia e o que é celebração litúrgica. Isto é um verdadeiro desafio para a Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP): educar os celebrantes na compreensão do que é uma celebração litúrgica. Nessa reflexão, vou focar somente num ponto, que considero básico em vista da educação para celebrar de modo participativo e consciente. Chamo atenção para a educação orante.  A celebração litúrgica, entre outras dinâmicas comunicativas, é uma celebração orante.

 Não é novidade que carecemos de escolas de oração que ensine e eduque os cristãos a rezar como Jesus rezava. A maior parte dos cristãos têm dificuldade para rezar porque não foram ensinados a rezar como Jesus. Uma grande parte de cristãos sequer reza. Outra parte são recitadores de fórmulas e, nas orações comunitárias, como são as celebrações litúrgicas, muitos confundem emoção com oração. Este é um fato que dificulta a participação consciente dos católicos nas celebrações litúrgicas, especialmente na Missa. O que faz um celebrante durante a Missa se não participa de um princípio básico, que é a oração celebrativa?

 Na minha pouca experiência, percebo que a catequese formal feita com crianças, adolescentes e jovens dedica pouco espaço ao aprendizado da oração ou, praticamente, não dedica espaço para o aprendizado da oração. Não se dedica tempo e espaço a educar os catequizandos à oração. Eu desconheço um investimento de pesquisa pedagógica ou psicológica de como introduzir catequizandos das mais diferentes idades na prática da oração.

 Fora da catequese, a situação não é diferente e, talvez, até mesmo piorada. Conheço comunidades que propõe educação e experiências para aprender a rezar através da Pastoral da Espiritualidade. A maior parte das paróquias, infelizmente, sequer ouviu falar que existe uma Pastoral da Espiritualidade. Não posso deixar de mencionar a louvável atividade da Oficina de Oração, cuja experiência tem feito um grande bem a milhares de pessoas em tantas comunidades paroquiais.

 Ouve -se muito, nas celebrações litúrgicas, em pregações, em programas de rádio de TV, que é importante rezar, que precisamos rezar, que a oração é a arma do cristão e tantos outros slogans motivacionais em prol da oração. Mas como rezar? Ou ainda, para ficarmos no básico: o que é rezar para um cristão? Como reza um cristão? Perguntas que não são propostas e nem respondidas nas pregações sobre a oração.

 Alguns pregadores dizem que toda atividade que fazemos é uma oração, por isso basta oferecer a Deus o dia que iremos viver que tudo isso se transformará em oração. Não vou entrar em discussão, mas se fosse assim, Jesus, nosso Mestre na oração, não passaria horas e noites em oração. Sim, no ensinamento de Jesus, a oração é um tempo diferente da atividade cotidiana; um tempo reservado e dedicado unicamente para ficar na companhia de Deus. Vejo isso como uma das principais causas que dificultam a participação consciente e ativa nas celebrações litúrgicas. A dificuldade de propor a celebração litúrgica como um tempo dedicado para ficar na companhia de Deus juntamente com a comunidade.

 

Rezar celebrando e celebrar rezando

A celebração litúrgica é uma forma de oração que reúne diferentes modalidades orantes. Na Missa, por exemplo, existe a oração de súplica, a oração silenciosa, a oração de escuta da Palavra, a oração falada, a oração cantada e a oração visual, aquela dedicada à contemplação.  Quando não se é iniciado na oração cristã, quando se aprendeu a rezar com Jesus e a rezar como Jesus rezava, é difícil rezar celebrando, como também é difícil tornar a celebração um momento orante. Diga-me como celebras que eu te direi o tempo que dedicas à oração. A celebração litúrgica, por ser um momento no qual entramos no espaço divino, é a principal manifestação da vida de oração de quem celebra e de como se celebra. É um tempo, no qual somos educados por Deus enquanto rezamos.

 A celebração da Liturgia das Horas é um exemplo típico de oração celebrada. Por manter a característica orante da Bíblia, com o canto dos salmos e hinos, além de súplicas e responsórios, é totalmente envolvida no silêncio orante, como é próprio da oração de Jesus. Aqui no Brasil, anos atrás, iniciou-se a experiência da Liturgia das Horas em forma de “Ofício das Comunidades”. As comunidades que adotaram o Ofício das Comunidades ou a celebração da Liturgia das Horas — não dentro da Missa, mas como celebração própria — entram num caminho de educação celebrativa orante para celebrar rezando.

 Outro exemplo de Liturgia orante acontece na celebração da Unção dos Enfermos. O ambiente e a condição contextual de celebrar com pessoas em situação de vulnerabilidade, naturalmente, conduz a realizar uma celebração mais calma, mais silenciosa e profundamente orante. Já ouvi de muitos agentes da PLP que trabalham com enfermos o quanto são santificados rezando e celebrando a Palavra e a distribuição da Eucaristia levada aos enfermos e participando da celebração da Unção dos Enfermos. A celebração é um tempo de oração e, quando isso é desconsiderado, realizam-se ritos e deixa-se de celebrar.

 A celebração do Sacramento da Penitência é outro exemplo de celebração orante. É verdade que nem sempre isso acontece e, em grande parte, nem mesmo celebração litúrgica existe; faz-se um rito abreviado e reduzido ao acolhimento, acusação dos pecados, proposta de penitência e absolvição, tudo em forma de bate-papo. Descuida-se assim de celebrar a busca do perdão divino e do perdão fraterno oferecido pela Igreja preparando-se pela meditação, pelo exame de consciência (que é contato da realidade de vida com a proposta do Evangelho) e pela oração.  A praenotanda do Ritual da Penitência orienta que o padre se prepare pela oração para que a escuta do penitente seja um gesto de acolhimento misericordioso realizado no silêncio compreensivo e não pelo julgamento. A cena de Jesus com a pecadora é ícone de uma celebração da Penitência bem-feita, na qual Jesus silencia, escreve no chão, reza e envia com uma nova proposta de vida (Jo 8,1-11). Tudo envolvido no mais profundo respeito, como se caracteriza a celebração litúrgica da Penitência.

 Conclusão

Grande parte dos católicos não é educado para celebrar de modo orante, em situação de contato com a Palavra. Grande parte de nós nos limitamos a realizar ritos e isso não apenas dificulta, mas impede fazer experiência celebrativa orante, favorecedora de encontro com Deus e fonte do crescimento na vida espiritual. Disso, a importância de uma PLP que se proponha a educar para a Liturgia, não se limitando a ensinar significados e fornecendo explicações de ritos, mas aprender a celebrar celebrando, aprender a celebrar rezando.

 Cada vez mais fica evidente que a PLP não pode se contentar, ou se limitar, a preparar celebrações e estar presente nas celebrações. A PLP precisa, urgentemente em algumas paróquias, a entender que seu trabalho na Liturgia vai muito além que fazer listas e preparar celebrações. Isto já se faz; agora é preciso assumir um trabalho capaz de tornar a Liturgia fonte e cume de todas as atividades da Igreja (SC 10).

Serginho Valle 
Fevereiro de 2022.

 

 

 

 

 

29 de jan. de 2022

Educados por Deus e educados para Deus na Liturgia

Com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2022 — Fraternidade e Educação —, o lema da Campanha inspira refletir e considerar a Liturgia como um espaço onde os celebrantes são educados por Deus. Diz o lema: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31,26). A Liturgia é um espaço especial onde Deus fala com sabedoria e ensina com amor. Se a Liturgia é um espaço especial, a celebração é o momento no qual somos envolvidos na sabedoria divina, momento no qual Deus nos educa no seu amor e educa com amor.

 

Educados por Deus

Em todas as celebrações sacramentais somos silenciosamente educados por Deus. Educação no sentido “ex+ducere”, ser pedagogicamente conduzido por um pedagogo, por alguém que toma o educando pela mão e o conduz no caminho da vida. O momento celebrativo não é um tempo de catequese, de ensinamento doutrinal, nem de reflexão exegética das leituras. É momento de experiência de Deus. Experiência que acontece pelo envolvimento com o sagrado, ouvindo a Palavra, cantando louvores, suplicando pelas necessidades, adorando, silenciando diante de Deus. Isso acontece de modo intenso, por exemplo, na celebração do Sacramento da Penitência, quando bem celebrado e não reduzido a acusações de pecados e algum aconselhamento genérico. A celebração da Penitência leva o penitente a reconhecer que Deus o educa para a santidade, educa a deixar o pecado para viver na graça divina. O Evangelho do encontro de Jesus com a mulher surpreendida em adultério (Jo 8,1-11) — que ilustra o cartaz da Campanha da Fraternidade 2022 — é o ícone da celebração da Penitência: acolher com respeito, silenciar para não proferir julgamentos, não atirar pedras, ouvir e enviar orientando a não mais pecar. É o ícone de quem fala com sabedoria e educa com amor.

 

As celebrações da Eucaristia, no quadro do Ano Litúrgico, são momentos nos quais Deus nos educa continuamente. Cada celebração Eucarística retira os celebrantes do barulho do mundo, da tumultuada algazarra das redes sociais, onde todos falam e ninguém escuta, da intromissão publicitária de magicamente ter sucesso na vida... para silenciar nossas vidas e escolher a melhor parte: sentar-se aos pés do Mestre e, antes de partilhar a Mesa Eucarística, ser educado no seu Evangelho. A Eucaristia não é celebração para se atarefar com muitas coisas, como fazia Marta, mas é tempo para ser educado por Jesus, sentando-se próximo do Mestre, escolhendo a melhor parte (Lc 10,38-42).

 

O principal protagonista da Liturgia é o Espírito Santo. É o Espírito que conduz os celebrantes ao encontro com Deus, quem os coloca diante de Deus para serem educados por Deus. Ele é invocado como Espírito de amor e Espírito de sabedoria; “fala com sabedoria, ensina com amor”. A Liturgia como espaço onde a sabedoria e o amor divino envolvem a vida dos celebrantes pela ação do Espírito Santo, suplicado como Espírito da Sabedoria (Ef 1,17). A Liturgia é fonte da sabedoria divina, onde somos educados por Deus.

 

Tudo isso tem uma condição: a docilidade ao Espírito Santo, como cantamos no Sl 94,8: “não fecheis os vossos corações, mas ouvi a voz (do Espírito)”. Um refrão que ouvimos em nossas celebrações quaresmais, convidando-nos a ouvir, a ser obedientes à educação que recebemos de Deus. Do ponto de vista prático, seria bom que os animadores das celebrações, presidente incluso, sejam dóceis e se deixem conduzir pelo Espírito de Deus e não criem distrações e ruídos.

 

Educados para Deus

A Liturgia educa para Deus de modo silencioso. Para compreender melhor como isso acontece, vamos contemplar nosso Mestre em oração: Jesus envolvia-se com o Pai no silêncio da natureza e no silêncio profundo da noite. Envolvido no silenciamento total era educado pelo Pai e fortalecido na fidelidade ao projeto do Pai. A Liturgia é, em certo sentido, o espaço da montanha envolvida pelo silêncio da noite. De acordo com o ensinamento de Jesus, no seu jeito de rezar, a espiritualidade litúrgica não compreende somente palavras, muito menos longas pregações, mas compreende a experiência de quem é educado para Deus, envolvendo-se no silêncio divino.

 

A Liturgia educa para se colocar diante de Deus envolvido pelo silêncio, não priorizando a boca para falar, cantar, pregar... mas priorizando o coração aberto para ouvir e acolher o que o Senhor tem a dizer. Esta deveria ser uma pré-disposição para celebrar: calar-se para ouvir com os ouvidos, ouvir com o coração e ouvir com a mente o que o Senhor tem a dizer. Ninguém é educado para Deus falando, mas ouvindo. São Paulo lembra a Timóteo que toda a Palavra é útil para educar em vista da “obra boa”, o discipulado (2Tm 3,16-17). Celebrações que educam para Deus, em todos os Sacramentos, são aquelas que favorecem o silêncio para ouvir e conduzem ao discipulado. Num mundo barulhento, especialmente o mundo povoado pelos jovens, oferecer celebrações silenciosas é, pastoralmente falando, mais necessário que favorecer a continuidade no barulho que vivem envolvidos.

 

O gesto orante, representado em muitas catacumbas onde se celebrava a Eucaristia, é de alguém que tem as mãos levantadas para o alto, mostrando o coração, em posição de total abertura para ser tomado (possuído) por Deus. Na Liturgia somos educados para Deus envolvendo-nos no silêncio divino. Isto se tornou o grande desafio pastoral de nossos tempos motivado pelo conceito de que participar é agitar. A “participatio actuosa” (participação ativa) está sendo confundida com o muito fazer para ver, para agitar, para emociona, para falar muito e pouco silenciar.

 

Um dos grandes desafios da Pastoral Litúrgica Paroquial é devolver à Liturgia seu espaço educativo de ser a escola da espiritualidade cristã, como dizia São Paulo VI. É o desafio de voltar a ouvir Jesus falando para Marta que a celebração litúrgica não é um atarefar-se de muitas coisas; por isso é preciso aprender ou, talvez reaprender, a sentar-se ao pé do Mestre e escolher a melhor parte: ouvir o que ele diz (Lc 10,41-42).

 

Serginho Valle

Janeiro de 2022

15 de jan. de 2022

Liturgia é educação

Pode ser que por uma desantenção, correndo rapidamente os olhos, você não tenha prestado atenção ao título. Não estou falando de “Liturgia e educação”, mas que “Liturgia é educação”. Chamo atenção para a importância de não criar um paralelo entre Liturgia e educação, mas de considerar a Liturgia como educação; a Liturgia é um espaço educativo e educador. O contexto litúrgico é um contexto próprio do discipulado e, por isso, é educativo e apropriado para educar.

 

A Campanha da Fraternidade 2022 favorece realizar uma reflexão sobre o papel da educação pela Liturgia e da Liturgia como espaço educador. São Paulo VI definiu a Liturgia como a primeira escola da vida cristã. Mais que uma definição, é uma afirmação que merece ser considerada. Vários textos da Patrística entendem a Liturgia como “Locus Theologicus” e “Locus sapiantiae”: espaço teológico e espaço da sabedoria. Não é uma escola e nem sala de aula, evidentemente, mas é um contexto, um clima, um espaço, um local onde se é educado nas coisas de Deus e na coisas da vida.

 

Li o texto base e não lembro alguma referência no sentido de considerar a Liturgia como educação. Claro, não pode falar de tudo. Mesmo assim é uma pena, porque a Liturgia é a principal, e para muitos católicos, o único espaço educativo da fé e, por que não, do estilo de vida a partir da Palavra. É considerando a necessidade da Liturgia na educação da maior parte dos católicos que considero importante abordar o tema da educação no contexto da Liturgia e da Liturgia como educação em si. Volto a insistir que a maior parte dos católicos não tem outra educação religiosa e (talvez) existencial a não ser pela Liturgia.

 

A educação realizada pela Liturgia e com a Liturgia fundamenta-se na espiritualidade litúrgica, que é a espiritualidade da Igreja. Uma educação, dentro dos moldes cristãos, sem espiritualidade é uma educação desprovida de fundamento cristão. Não basta conhecer princípios e doutrinas, é necessário que os mesmos estejam fundamentados na espiritualidade, iluminados pelo Evangelho para que o espírito da educação seja evangelizado e evangelizador. Neste aspecto, como a diz a SC 10, a Liturgia é fonte.

 

Outro elemento importante da educação pela Liturgia e da Liturgia como momento educativo é ter presente que a Liturgia adota o processo mistagógico. É uma dinâmica pedagógica que favorece o crescimento no discipulado de modo gradual, propondo pouco a pouco a estrada de Jesus, o caminho do discipulado. Não é correto entender a mistagogia como método; embora haja semelhanças, é importante valorizar a mistagogia como processo, como passos nos quais o cristão e a cristã são educados processualmente, progressivamente na e pela Liturgia.

 

Além desses dois elementos, que podem ser considerados básicos na educação pela Liturgia, outro elemento importante é o papel da Liturgia na formação e na orientação de valores cristãos. Considere-se, nesse caso, a Liturgia como espaço, no qual são destacadas virtudes e comportamentos próprios do cristão, como por exemplo, a fraternidade, o relacionamento pautado na misericórdia, na justiça, a temperança, a prudência, a paciência... No momento celebrativo, os celebrantes não são educados com uma metodologia escolástica ou acadêmica, mas pela pedagogia mistagógica, que confronta ou ilumina o modo de viver com o que é proclamado na Palavra, cantado numa canção, suplicado numa prece, silenciando diante do Mistério, e assim no decorrer do processo celebrativo de cada Sacramento.

 

Os exemplos que proponho ilustram a educação presente na Liturgia, no momento celebrativo, não somente na Liturgia da Palavra com a homilia, que orienta (educa) como viver a Palavra, mas em toda a celebração. Até mesmo, e principalmente, o silêncio é favorecedor de um contato pessoal com a própria vida do celebrante e isso é altamente educativo. A Liturgia é educação para a vida é para relacionamentos comunitários e sociais. Não educa com uma educação doutrinária ou teológica ou catequética. A educação pela Liturgia é uma educação existencial e, por isso, quem é educado no espaço litúrgico leva para a vida e, educadamente, vive aquilo que celebra.

Serginho Valle

Janeiro 2022

 

27 de nov. de 2021

Música Litúrgica para ouvir e para cantar

 

Existe uma particularidade com a música litúrgica que poucas vezes percebemos em nossas celebrações: a audição da música litúrgica. Sim, existem músicas que são para ser ouvidas como, por exemplo, o salmo responsorial. Em algumas situações, quando canta um coral polifônico, noutro exemplo, a música é escutada; acontece a participação pela audição da música. Em linguagem popular: curtir a música ouvindo.

Algumas distinções

A celebração litúrgica, por ser um ato comunitário, na maior parte das vezes pede que todos participem da música cantando; a assembleia não seja substituída por um grupo que canta sozinho na celebração. Algumas canções são tipicamente comunitárias, como acontece com as músicas rituais: “Senhor, tende piedade de nós, Glória, o refrão do Salmo responsorial, o Santo, Santo, Santo..., etc...” O ministério da música, neste caso, cumpre sua finalidade de ajudar os celebrantes a participar da celebração pelo canto e não cantar para a assembleia, substituindo-a. É o que definimos como “cantar a celebração”.

Algumas canções são presidenciais, quer dizer, o Presidente da celebração canta a canção. Por exemplo: as orações, como a coleta (oração do dia), sobre as oferendas... O diálogo prefacial — “O Senhor esteja convosco; corações ao alto...” — e o próprio Prefácio da Oração Eucarística é do presidente da Missa. O “Por Cristo, com Cristo....” também é do padre, mas o “Amém” conclusivo é uma canção para todos os celebrantes cantarem juntos. Neste caso, são canções para serem ouvidas; a assembleia participa ouvindo e cantando o amém conclusivo.

Outra canção que, tradicionalmente, pertence a um ministro da celebração litúrgica é o Salmo Responsorial. O salmista canta o salmo e a assembleia participa da canção cantando o refrão. Outras intervenções próprias do salmista são as antífonas de entrada, da aclamação ao Evangelho e a antífona da comunhão. Neste caso, como na referência ao padre, os celebrantes não cantam; ouvem e participam dos refrões.

 

Um lembrete sempre válido

Preste atenção neste texto escrito por Ione Buyst: “Um grupo de cantores ou um coral podem dar suporte ao canto da assembleia. Podem ainda executar ou cantar a várias vozes, harmonizando com a voz da assembleia. Podem ainda executar sozinhos alguma peça mais rebuscada (principalmente em dias de festa); por ex., após a homilia, relacionada com a própria homilia e o evangelho, ou após a comunhão, prolongando a meditação contemplativa. Jamais, porém, podem substituir o canto da assembleia.”

 

            Sim, jamais substituir “o canto da assembleia” excetuando o que foi proposto. Em alguns ritos, a assembleia ouve a música e reza pela audição. Na celebração existem músicas para ouvir e para cantar.

Serginho Valle
Novembro 2021

 

13 de nov. de 2021

Música vocal e música instrumental

SC 120

“Tenha-se na Igreja Latina em grande consideração o órgão de tubos, como instrumento tradicional de música, cujo som pode acrescentar às celebrações admirável esplendor e elevar com veemência as mentes a Deus e às coisas divinas.”

 “Outros instrumentos podem ser admitidos ao culto divino, a juízo e com o consentimento da autoridade territorial competente, à norma dos artigos 22 § 2, 37 e 40, contanto que sejam adequados ao uso sacro, ou possam a ele se adaptar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.”

 Até agora falamos de “música”, indistintamente. No entanto, há outra regra a ser lembrada: a música vocal é mais importante na Liturgia do que a música instrumental e deve ocupar o espaço maior. É a voz humana que se alegra e louva a Deus, que chora, geme e implora, que expressa o Mistério de Cristo.

É pela voz humana que cantamos e manifestamos nossas alegrias e nossas angustias diante de Deus. E fazemos isso com a música vocal. Por isso, é importante considerar a necessidade de não escolher canções que expressem o espírito de cada rito acompanhado musicalmente favorecendo a participação ativa e consciente na celebração. Para tanto é preciso aprender a ouvir o texto, deixar as palavras penetrarem no corpo, na mente, na alma para causar alguma reação pessoal.

No contexto da espiritualidade litúrgica iluminada pela música, os autores e estudiosos da música como meio orante, pedem que através da voz do salmista, dos cantores, da assembleia..., ouça-se a voz de Cristo, a voz do Espírito, a voz da humanidade inteira, de ontem e de hoje, com a oração incessante do Espírito que reza com gemidos e súplicas (Rm 8,26-27) no coração dos santos e santas que vivem na Igreja. É a grande comunhão espiritual que incessantemente a Igreja eleva a Deus com suas canções, especialmente cantando os salmos; salmodiando. A música tem esse poder e capacidade de nos colocar em comunhão, por isso, dizem vários documentos, a música litúrgica deve ser santa porque santo é o momento no qual é cantada.

 Uso dos instrumentos musicais

Os instrumentos muitas vezes provocam distração ou impedem cantar com o coração. Por isso, a Liturgia orienta usar os instrumentos musicais como suportes para favorecer a canção. O grande exemplo, neste sentido, é o uso dos instrumentos no canto gregoriano: usado apenas como suporte. Dentro de cada contexto e uso de vários instrumentos, como se faz hoje nas celebrações, é importante aprender a usar os instrumentos a favor da oração e não como distração e impedimento orante.

Do ponto de vista pastoral, considero que não somente nos tempos penitenciais, como a Quaresma, mas também no Advento, não deveríamos abrir mão de cantar certos cantos sem instrumento. Cantar “a cappella” para favorecer o sentimento orante através da voz, sentindo unicamente a voz cantando com nosso corpo.

Compreende-se que o instrumento musical está a serviço da voz, dando suporte, jamais para abafar ou encobrir a voz. Podemos prever peças instrumentais, independente de canto, por exemplo, durante a procissão das oferendas, ou depois da comunhão, ou ainda na saída. No geral, contudo, a função dos instrumentos é de ser suporte.

É necessário dizer que não se deve substituir o músico por uma máquina, uma playlist de músicas litúrgicas tocadas no celular, por exemplo. É o ser humano que louva a Deus com sua voz e com seu instrumento, não a máquina. É pela arte, as vezes precária, outras vezes sofisticada na execução instrumental, que a Igreja louva a Deus com sua canção e sua arte musical litúrgica.

É claro que a Igreja admite instrumentos e até elege o órgão de tubos como o preferido para a Liturgia. O motivo da escolha do órgão de tubos é a solenidade e o recolhimento espiritual que o órgão de tubos promove numa celebração litúrgica. O som e o jeito de tocar o órgão de tubos, tocado com arte e dentro do contexto celebrativo, nunca agredirá os celebrantes, como pode acontecer com uma guitarra, bateria ou um violão barulhentos, principalmente quando tocados sem arte. Assim sendo, é preciso ter presente duas coisas: quando entra a arte, tudo muda; quando se conhece a arte litúrgica musical, tudo é esclarecido.

Outros instrumentos também são permitidos na Liturgia, como sabemos. No Brasil, usamos vários instrumentos na Liturgia. A questão não é o instrumento, mas o modo de usar o instrumento na celebração. Lembramos que “o instrumento musical deve estar a serviço da voz, dando suporte, porém jamais abafa-la ou encobri-la.” Isso vale para todos os instrumentos, órgão de tubos, inclusive.

Em alguns momentos da celebração, pode-se tocar somente música instrumental, como por exemplo: para acompanhar a procissão de entrada, no momento da procissão das ofertas, num momento de reflexão ou oração silenciosa. Nunca, porém, no momento da consagração e como fundo musical das orações presidenciais, principalmente na Oração Eucarística. Quando a Liturgia fala de silêncio é silêncio sem o preenchimento da música.

 Conclusão

A conclusão é feita com o Estudo da CNBB 79, n. 205.

 “A linguagem musical dos instrumentos tem seu lugar e importância na celebração da fé, não somente enquanto acompanha, sustenta e dá realce ao canto, que é sua função principal, mas também por si mesma, ao proporcionar ricos momentos de prazerosa quietude e profunda interiorização ao longo das celebrações, proporcionando-lhes assim maior densidade espiritual. Instrumentos de todo tipo estão sendo convocados a prestar este serviço, contanto que se leve em conta o gênio e as tradições musicais de cada cultura, a especificidade de cada ação litúrgica e a edificação da comunidade orante.”

Serginho Valle 
Setembro de 2021

 

 

23 de out. de 2021

Música sacra, música litúrgica

A música sacra é “parte integrante da solene liturgia”, e para tanto responde a alguns critérios fundamentais: a santidade — “será tanto mais santa, quanto mais estiver unida à ação litúrgica” — (SC 112).

Beleza 
“Não deveria haver na celebração uma música que não fosse uma verdadeira obra de arte” (Pio X).

Universalidade 
Ajudar os celebrantes de todas as culturas a se identificar na celebração através da música.

             Citei três critérios, que considero básicos na compreensão da música e para sua finalidade na Liturgia: santidade, beleza, identidade cultural. Existe um quarto critério que deve ser incluído, ao meu ver: a espiritualidade litúrgica.

            Dizer que a música é parte integrante da celebração litúrgica é considerar que a música faz parte da celebração juntamente com a palavra, com os gestos, com os sinais e símbolos. É dizer que a música não é um “opcional” da celebração e nem uma decoração. É dizer que a Liturgia celebra com palavras, gestos, música, espaços... Perceba que o termo usado é “juntamente com”, o que significa que, não é nem mais e nem menos importante; reforça dizer que a música faz parte e compõe a celebração. A música não é o elemento principal, embora seja, depois da palavra, o modo mais utilizado na comunicação litúrgica e aquela que tem a capacidade de dar um colorido especial e festivo à celebração.

            Considerando a Liturgia, do ponto de vista celebrativo e não ritual, não se pode pensar a celebração litúrgica sem a música, principalmente quando se considera que a música é rito, no que se denomina de música ritual. Tudo isso, faz-nos compreender duas coisas importantes: qualquer música não serve e, é imprópria a ideia de fazer uma folha de cantos que sirva para todas as Missas da comunidade. Por que? Primeiramente, porque cada celebração tem uma característica próprio, enfoque ou contexto diferentes, como dizemos em nossas propostas celebrativas do SAL – Serviço de Animação Litúrgica (www.liturgia.pro.br ). Mas tem um detalhe a mais, que precisamos atender.

            Uma vez que existem leituras diferentes nas celebrações, uma vez que não se faz a mesma homilia e nem as mesmas motivações nas Missas, uma vez que existem propostas simbólicas diferentes para cada Missa... entende-se que a música não pode ser um elemento estranho na celebração; a música é parte integrante daquela celebração como um todo e, como um todo colabora para a que a celebração seja uma unidade: palavras, símbolos, sinais, música e gestos celebrando o mesmo Mistério Pascal de Cristo, sempre iluminado por diferentes contextos.

            Outro dato que gostaria de chamar atenção, como parte integrante da Liturgia, é o fato que algumas músicas têm finalidade didática; ajudam os celebrantes a compreender o que estão celebrando. Exemplo: o canto de entrada “é o exórdio, a abertura solene da celebração; é a preparação dos fiéis” para a missa (...) “Este canto introduz os fiéis no mistério de comunhão com Cristo, desperta-os e os prepara para ouvir a Palavra de Deus e participar dignamente da Eucaristia” (CNBB, estudo 12, p. 12-13).

            Ainda na dimensão didática da música, podemos considerar a escolha da canção que irá acompanhar o rito da partilha, na Comunhão Eucarística dos celebrantes. É uma canção escolhida à luz da Palavra, especialmente com o Evangelho. Se o Evangelho, por exemplo, fala de caridade, a canção escolhida cantará a caridade na vida cristã; se o Evangelho fala de justiça, a canção da comunhão cantará a justiça do Reino. Entende-se que a canção escolhida tem o papel didático de unir o Evangelho à comunhão, comprometendo o celebrante a viver aquilo que ouviu e a vida divina que comunga na Eucaristia.

Aqueles três critérios, mais um, citados no início desse artigo — santidade, beleza, identidade cultural — tornam-se compreensíveis nos pontos referidos. Sendo a Liturgia a “ação sagrada (santa) por excelência na Igreja” (SC 7), entende-se que a música deve refletir poeticamente a santidade da Liturgia. Sendo a comunicação litúrgica composta basicamente pela linguagem artística, a música cantada na celebração deve resplandecer pela beleza da arte musical. Uma vez que a celebração acontece num contexto cultural próprio, a identidade musical deve ser refletida no modo de cantar e executar a música.

Serginho Valle
Setembro de 2021

 

 

 

 

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