Fidelidade ao Projeto Divino: o caminho pascal da Igreja
Introdução:
o coração do Tempo Pascal
Quando
a Igreja celebra o Tempo Pascal, do ponto de vista mistagógico, está entrando,
passo a passo, em uma verdadeira escola da espiritualidade cristã. A Ressurreição
de Jesus revela algo decisivo: Deus é fiel ao seu projeto de vida para a
humanidade. Jesus viveu essa fidelidade até o fim, entregando sua vida com
radical confiança no Pai para que a humanidade tivesse vida abundante (Jo
10,10).
No
Tríduo Pascal contemplamos dois movimentos que iluminam toda a vida cristã.
Primeiro, a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai, a ponto de entregar a
própria vida na cruz (5ª e 6ª Feira Santa). Depois, a fidelidade do Pai
que não abandona o Filho na morte, ressuscitando-o, na Vigília Pascal e no
Domingo da Páscoa. Esse é o fundamento da fé cristã.
A
partir daí, depois de contemplar a fidelidade de Jesus ao projeto divino,
começa um novo passo da pedagogia pascal: como essa fidelidade de Jesus é
vivida pelos discípulos, pelas discípulas e pela comunidade cristã? É isso que
a Liturgia do Tempo Pascal propõe aos celebrantes nas propostas celebrativas do SAL, conduzindo-os a compreender
que a fidelidade o projeto divino, da parte dos discípulos e discípulas,
consiste em oferecer vida plena a cada pessoa (Jo 10,10)
através do serviço fraterno.
O
discipulado nasce da convivência com Jesus
A
Liturgia do Tempo Pascal mostra que a fidelidade ao projeto divino, na vida do
discípulo e discípula, não nasce de uma teoria religiosa, nem de uma Teologia
ou doutrina, mas de uma experiência concreta com Jesus. A convivência com Jesus
como que contamina o modo de viver do cristão e da cristã tornando-os fiéis ao
projeto divino, a exemplo da fidelidade de Jesus, o que é se torna a condição
para acolher a bem-aventurança do “crer sem ver” (E-
2DTP-A).
No
3DTP-A, Pedro testemunha sua fé a partir da convivência com o Senhor (1L -
3DTP-A). Ele não anuncia ideias, mas aquilo que viu e viveu da
experiência convivial com Jesus. A fidelidade ao projeto de Deus nasce da proximidade
com Cristo, da escuta da Palavra e da vida compartilhada com Ele.
A mesma
dinâmica aparece no caminho de Emaús (E - 3DTP-A). Dois
discípulos decepcionados deixam a comunidade e vão embora. Estão desanimados e
frustrados. Mas é justamente no caminho que Jesus se aproxima, começa a
conviver com eles na distância de 11KM até Emaús, explicando as Escrituras e
fazendo arder o coração deles (E - 3DTP-A). Os discípulos de Emaús
participam de uma convivência com Jesus e ele lhes fala pela Palavra transmitindo
a fidelidade divina para que testemunhem a ressurreição vivendo fielmente o
projeto divino presente no Evangelho.
Esse
episódio revela algo muito atual: muitas pessoas também se afastam da
comunidade por causa de frustrações ou decepções. É o favorecimento do encontro
com Cristo Ressuscitado, na Palavra e na Eucaristia, que reacende a fé e faz
renascer a fidelidade ao projeto divino. Os discípulos retornam de Emaús à comunidade
e se tornam testemunhas da ressurreição. Nisso está a importância e a
necessidade de celebrações preparadas em modo evangelizado e evangelizador.
Palavra,
caminho e libertação
Nos
Domingos seguintes aos dois primeiros Domingos da Páscoa, que continuam ecoando
o anúncio da ressurreição de Jesus, a Liturgia aprofunda o processo mistagógico nas propostas celebrativas do SAL conduzindo os celebrantes no seguimento de Jesus apresentando-o como Bom Pastor
(4DTP-A). A fidelidade ao projeto divino passa pela escuta da Palavra e
pelo seguimento de Jesus Bom Pastor.
Na
condição de Bom Pastor, Jesus se apresenta como aquele que conduz a vida humana
com segurança, oferecendo liberdade, segurança e alimento (E -
4DTP-A). Ele é o Pastor que liberta das gaiolas que aprisionam a
existência. Retira da condição do medo para a vida abundante.
O
salmista canta essa experiência com imagens muito fortes: Deus conduz por
caminhos seguros, protege nos momentos de ameaça e prepara uma mesa abundante
para seus seguidores (SR - 4DTP-A). É a promessa de que a vida humana não foi
criada para o matadouro da injustiça, mas para a plenitude do amor. Indicativo
claro que o discipulado não é um estilo de vida pesado, mas um caminho de
libertação interior.
A
fidelidade que se transforma em doação
Nos
Domingos que antecedem as Solenidades da Ascensão e de Pentecostes, a Liturgia apresenta
outro aspecto essencial da fidelidade ao projeto divino na vida dos discípulos
e discípulas de Jesus ressuscitado: a doação da vida.
Durante
a Última Ceia, Jesus revela que a fidelidade ao Pai conduz à comunhão profunda
com a vida divina pela doação da vida (E - 5DTP-A). O
estilo de vida no discipulado ouve a voz de Jesus para viver como Ele viveu:
doando a vida. A Igreja, comunidade formada por discípulos e discípulas de
Jesus é a comunidade viva de quem está comprometido na finalidade ao projeto
divino pela doação da vida.
Essa
fidelidade se manifesta especialmente no Mandamento Novo: amar como Jesus amou (E - 6DTP-A). Amar
não na compreensão de sentimento, mas de atitude própria de quem, a exemplo do
Mestre, vive na fidelidade ao projeto divino pela doação da própria vida. Na
prática, e do ponto de vista eclesial, é a proposta de transformar a sociedade promovendo
relacionamentos fraternos através da missão evangelizadora da Igreja.
A Igreja
vive sua missão evangelizadora conduzida pelo Espírito “Defensor” prometido e
enviado por Jesus (E – 6DTP-A). É pela presença do Espírito Santo na Igreja que ela se mantém na
fidelidade ao projeto divino transformando o medo em coragem missionária da
Igreja que é enviada em missão.
Igreja
enviada em missão
O
caminho pascal conduz naturalmente à missão. Na celebração da Ascensão de
Jesus, a comunidade celebrante compreende que a obra iniciada por Cristo
continua através da Igreja. Dizendo de outro modo: depois da Ascensão, a missão
da Igreja é a mesma missão evangelizadora de Jesus.
A
Liturgia da Ascensão apresenta três dimensões na vida do discipulado: a
adoração, a presença e a missão. Primeiro, a comunidade se prostra diante de
Cristo reconhecendo-o como Senhor (E - Ascensão).
Depois, recorda a promessa de que Ele continua presente, com diferentes modos
de presença, no meio de seu povo. Por fim, escuta o envio missionário a toda a
terra.
A
fidelidade ao projeto divino, portanto, não está limitado a uma decisão da
espiritualidade pessoal. É compromisso com a evangelização e com a construção
de toda a comunidade eclesial e, de modo mais próximo de cada cristão e cristã
da Igreja que vive o Evangelho no terreno da paróquia.
Conclusão:
Pentecostes, a fidelidade que renova a Igreja
Todo
esse caminho encontra seu ponto culminante em Pentecostes. A Igreja reconhece
que a Ressurreição de Jesus continua produzindo vida pela ação do Espírito
Santo.
O
Espírito é a presença viva de Deus que anima a Igreja, desperta a oração,
inspira o louvor e sustenta a sua missão evangelizadora com todas as línguas da
terra (1L - Pentecostes).
Pentecostes
recorda que a Igreja não nasce de um projeto humano, mas do sopro de Deus. É o
Espírito que reúne os discípulos e discípulas, fortalece a comunhão entre eles
e os envia, como comunidade evangelizada para anunciar o Evangelho ao mundo. Ou
seja, a evangelização, na condução do Espírito Santo, não é tarefa
personalizada, mas participação na missão da Igreja.
É em tal
perspectiva teológica que a pedagogia mistagógica do Tempo Pascal, nas propostas celebrativas do SAL conduz os
cristãos e as cristãs a uma decisão profunda: viver na fidelidade ao projeto
divino a exemplo de Jesus através da doação da vida. Um projeto que oferece
vida plena, constrói fraternidade e renova continuamente a Igreja em sua missão
evangelizadora.
E é
exatamente isso que o Espírito continua fazendo hoje: renovar a face da terra e
tornar sempre nova a missão da Igreja para que a renovação de toda a terra
torne toda a humanidade cada vez mais humana.
Serginho
Valle
Março 2026

0 Comentários:
Postar um comentário
Participe. Deixe seu comentário aqui.