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27 de abr. de 2026

Da celebração ao testemunho da vida cristã


 


Existe um caminho que a Liturgia vai desenhando, de forma silenciosa, no coração de quem a celebra de modo orante. Não é caminho teórico, nem apenas devocional. É um itinerário espiritual que começa no encontro com Deus e continua, inevitavelmente, no TESTEMUNHO da vida cristã. A Igreja denomina esse caminho como mistagógico. É uma pedagogia, um processo de iniciar e conduzir o celebrante da Liturgia, passo a passo, no Mistério celebrado e a com ele se comprometer através do TESTEMUNHO de vida. Comumente, este processo é descrito como transformar em vida aquilo que liturgicamente é celebrado. Isso é possível, como venho insistindo, com celebrações evangelizadas e evangelizadoras.

 

Ao longo das celebrações do mês de junho de 2026 — da Solenidade de Corpus Christi à Solenidade de São Pedro e São Paulo — a Igreja conduz mistagogicamente os celebrantes a compreender que a fé não pode permanecer na celebração. Ela precisa ganhar forma na existência cotidiana do celebrante para se transformar em TESTEMUNHO da vida cristã. Para destacar este aspecto, a pedagogia mistagógica das propostas celebrativas do SAL, de junho de 2026, ilumina-se com a luz do TESTEMUNHO cristão. A Liturgia é fonte da vida cristã testemunhal.

 

 

Eucaristia e amor: fontes do testemunho da vida cristã

Na celebração de Corpus Christi, a Palavra propõe a Eucaristia como ponto de chegada do caminho cristão que caminhamos na estrada de Jesus (discipulado) e como ponto de partida (2L – Corpus Christi). A Eucaristia é fonte da vida cristã. Quem se alimenta do Corpo de Cristo “recebe” Jesus — faz comunhão com ele — e se compromete a entrar num processo de configuração para pensar, sentir e agir com o mesmo Coração de Jesus na partilha da vida. Na Eucaristia, o pão repartido ensina a viver “repartidos”, repartindo vida, pela doação do serviço fraterno. E, assim, o TESTEMUNHO começa a nascer: partilhando na vida os valores do Evangelho: fraternidade, paz, alegria, acolhimento e proximidade...

 

A experiência da configuração ao Coração de Jesus é contemplada na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, com a Liturgia conduzindo ao centro daquilo que Deus é: “Deus é amor” (2L - SCJ). Não o amor compreendido como sentimento ou emoção, mas o amor como “energia” que impulsiona, que se movimenta em modo transformador, que toma iniciativa em favor da vida digna. É o amor que arde e transforma por dentro. Parafraseando Santo Agostinho: “o coração é o lugar onde Deus fala ao homem e o homem responde a Deus.” O cristão e a cristã testemunham o Evangelho na vida cristã à medida que modelam seus corações no Coração de Jesus. Quem é amado aprende a amar e testemunha alegremente a vida cristã. O TESTEMUNHO da vida cristã não é fruto de uma teoria ou de alguma doutrina; é consequência da experiência do amor divino na vida pessoal.

 

 

O caminho do discipulado iluminado pela misericórdia

Ao retomar o Tempo Comum, a Liturgia mistagogicamente conduz os celebrantes a assumir o compromisso testemunhal do Evangelho pelo chamado vocacional. No chamado de Mateus (E - 10DTC-A), encontra-se o chamado de todos os batizados e batizadas: chamados e chamadas para o seguimento de Jesus no discipulado. Mateus, com sua resposta demonstra que o seguimento de Jesus exige reorganização e ressignificação da própria existência pelo deslocamento de um modo de viver para outro estilo de vida. O discipulado é caminho, é convivência, é processo existencial iluminado pelo Evangelho. Essa dinâmica propõe um novo estilo de vida.

 

O 10DTC-A apresenta também um critério imprescindível do TESTEMUNHO da vida cristã: a misericórdia: “Quero misericórdia e não sacrifício” (1L - 10DTC-A). Aqui, a Liturgia nos coloca diante de um ponto decisivo. O TESTEMUNHO cristão não se mede por práticas externas, pelo volume quantitativo de práticas devotas, mas pela capacidade de viver a misericórdia nas relações pessoais e sociais. É no cotidiano que a fé se torna visível, se transforma em TESTEMUNHO vivo de quem é discípulo e discípula de Jesus. Em continuidade, a Liturgia aprofunda ainda mais: a misericórdia acolhida se transforma em missão. Jesus olha a multidão e se compadece, seu coração se enche de misericórdia (E - 11DTC-A). Não lança um olhar distante, é próximo e comprometido; é o olhar misericordioso que provoca a missão do TESTEMUNHO da vida cristã.

 

É da compaixão misericordiosa que nasce o envio: “Ide” (E - 12DTC-A). Ir para onde e de que modo? Ir para o meio da sociedade para viver testemunhando o Evangelho. O discípulo e a discípula, pelo TESTEMUNHO, prolongam a ação de Cristo na sociedade, iluminando suas vidas na misericórdia proposta no Evangelho. Evangelizar é tornar visível (em atitudes de misericórdia) o amor que se experimenta no seguimento de Jesus. É aqui que o TESTEMUNHO ganha densidade: deixa de ser palavra e se torna presença social e, mais que isso, presença transformadora na sociedade.

 

 

Testemunho diante das provações e rejeições sociais

Mas o caminho não para aí. A Liturgia se torna realista ao colocar diante dos celebrantes a necessidade da firmeza da fé para testemunhar o Evangelho no momento da prova. O testemunho será confrontado e rejeitado muitas vezes. Haverá rejeição, incompreensão, resistência (E - 12DTC-A). É justamente nesse ponto que a fé se purifica e é fortalecida no TESTEMUNHO do Evangelho, através da fé coerente que se manifesta pela perseverança, coragem, confiança e decisões concretas. Permanecer firme no testemunho, mesmo sem compreender certas provações; confiar, mesmo em meio a receios e ansiedades; seguir, mesmo indo contra a corrente: é quando o TESTEMUNHO amadurece e se torna ainda mais necessário.

 

Todos os atributos de resistência presentes no 12DTC-A continuam sendo propostos na Solenidade de São Pedro e São Paulo, apresentados não como heróis inalcançáveis, mas como exemplares cristãos que fizeram o caminho testemunhal com firmeza e como prova de profundo amor por Jesus e pelo seu Evangelho. Encontraram Jesus Cristo, deixaram-se transformar, enfrentaram provações e permaneceram firmes. Pedro, sustentado na fragilidade, torna-se pedra, fundamento da fé para confirmar a fé de toda a Igreja (E - Pedro e Paulo). Paulo, como testemunho perseverante no bom combate da fé (2L - Pedro e Paulo). Ambos revelam que o TESTEMUNHO cristão não é perfeição, mas fidelidade em todas as circunstâncias existenciais. Não é ausência de quedas, mas permanência no caminho, mesmo quando as quedas acontecem.

 

 

Concluindo...

As propostas celebrativas de junho de 2026 convergem para uma finalidade da pedagogia mistagógica: a Liturgia forma o coração do discípulo e da discípula para TESTEMUNHAR a vida cristã em qualquer situação existencial. São celebrações que dizem que um coração configurado no Coração divino não consegue viver de qualquer maneira. Ele se torna sensível, misericordioso, firme, disponível e fortalecido diante das provações. Ele se torna TESTEMUNHA da vida cristã.

 

Talvez possamos colocar uma pergunta honesta: a participação na Liturgia está moldando minha vida a ponto de me fazer testemunhar o Evangelho e a fé com meu modo de viver? O modo como celebramos na comunidade promove o TESTEMUNHO cristão em toda a cidade?

Serginho Valle

Abril de 2026


23 de mar. de 2026

Fidelidade ao Projeto Divino: o caminho pascal da Igreja




Introdução: o coração do Tempo Pascal

Quando a Igreja celebra o Tempo Pascal, do ponto de vista mistagógico, está entrando, passo a passo, em uma verdadeira escola da espiritualidade cristã. A Ressurreição de Jesus revela algo decisivo: Deus é fiel ao seu projeto de vida para a humanidade. Jesus viveu essa fidelidade até o fim, entregando sua vida com radical confiança no Pai para que a humanidade tivesse vida abundante (Jo 10,10).

 

No Tríduo Pascal contemplamos dois movimentos que iluminam toda a vida cristã. Primeiro, a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai, a ponto de entregar a própria vida na cruz (5ª e 6ª Feira Santa). Depois, a fidelidade do Pai que não abandona o Filho na morte, ressuscitando-o, na Vigília Pascal e no Domingo da Páscoa. Esse é o fundamento da fé cristã.

 

A partir daí, depois de contemplar a fidelidade de Jesus ao projeto divino, começa um novo passo da pedagogia pascal: como essa fidelidade de Jesus é vivida pelos discípulos, pelas discípulas e pela comunidade cristã? É isso que a Liturgia do Tempo Pascal propõe aos celebrantes nas propostas celebrativas do SAL, conduzindo-os a compreender que a fidelidade o projeto divino, da parte dos discípulos e discípulas, consiste em oferecer vida plena a cada pessoa (Jo 10,10) através do serviço fraterno. 

 

O discipulado nasce da convivência com Jesus

A Liturgia do Tempo Pascal mostra que a fidelidade ao projeto divino, na vida do discípulo e discípula, não nasce de uma teoria religiosa, nem de uma Teologia ou doutrina, mas de uma experiência concreta com Jesus. A convivência com Jesus como que contamina o modo de viver do cristão e da cristã tornando-os fiéis ao projeto divino, a exemplo da fidelidade de Jesus, o que é se torna a condição para acolher a bem-aventurança do “crer sem ver” (E- 2DTP-A).

 

No 3DTP-A, Pedro testemunha sua fé a partir da convivência com o Senhor (1L - 3DTP-A). Ele não anuncia ideias, mas aquilo que viu e viveu da experiência convivial com Jesus. A fidelidade ao projeto de Deus nasce da proximidade com Cristo, da escuta da Palavra e da vida compartilhada com Ele. 

 

A mesma dinâmica aparece no caminho de Emaús (E - 3DTP-A). Dois discípulos decepcionados deixam a comunidade e vão embora. Estão desanimados e frustrados. Mas é justamente no caminho que Jesus se aproxima, começa a conviver com eles na distância de 11KM até Emaús, explicando as Escrituras e fazendo arder o coração deles (E - 3DTP-A). Os discípulos de Emaús participam de uma convivência com Jesus e ele lhes fala pela Palavra transmitindo a fidelidade divina para que testemunhem a ressurreição vivendo fielmente o projeto divino presente no Evangelho. 

 

Esse episódio revela algo muito atual: muitas pessoas também se afastam da comunidade por causa de frustrações ou decepções. É o favorecimento do encontro com Cristo Ressuscitado, na Palavra e na Eucaristia, que reacende a fé e faz renascer a fidelidade ao projeto divino. Os discípulos retornam de Emaús à comunidade e se tornam testemunhas da ressurreição. Nisso está a importância e a necessidade de celebrações preparadas em modo evangelizado e evangelizador. 

 

Palavra, caminho e libertação

Nos Domingos seguintes aos dois primeiros Domingos da Páscoa, que continuam ecoando o anúncio da ressurreição de Jesus, a Liturgia aprofunda o processo mistagógico nas propostas celebrativas do SAL conduzindo os celebrantes no seguimento de Jesus apresentando-o como Bom Pastor (4DTP-A). A fidelidade ao projeto divino passa pela escuta da Palavra e pelo seguimento de Jesus Bom Pastor.

 

Na condição de Bom Pastor, Jesus se apresenta como aquele que conduz a vida humana com segurança, oferecendo liberdade, segurança e alimento (E - 4DTP-A). Ele é o Pastor que liberta das gaiolas que aprisionam a existência. Retira da condição do medo para a vida abundante.

 

O salmista canta essa experiência com imagens muito fortes: Deus conduz por caminhos seguros, protege nos momentos de ameaça e prepara uma mesa abundante para seus seguidores (SR - 4DTP-A). É a promessa de que a vida humana não foi criada para o matadouro da injustiça, mas para a plenitude do amor. Indicativo claro que o discipulado não é um estilo de vida pesado, mas um caminho de libertação interior.

 

A fidelidade que se transforma em doação

Nos Domingos que antecedem as Solenidades da Ascensão e de Pentecostes, a Liturgia apresenta outro aspecto essencial da fidelidade ao projeto divino na vida dos discípulos e discípulas de Jesus ressuscitado: a doação da vida.

 

Durante a Última Ceia, Jesus revela que a fidelidade ao Pai conduz à comunhão profunda com a vida divina pela doação da vida (E - 5DTP-A). O estilo de vida no discipulado ouve a voz de Jesus para viver como Ele viveu: doando a vida. A Igreja, comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus é a comunidade viva de quem está comprometido na finalidade ao projeto divino pela doação da vida.

 

Essa fidelidade se manifesta especialmente no Mandamento Novo: amar como Jesus amou (E - 6DTP-A). Amar não na compreensão de sentimento, mas de atitude própria de quem, a exemplo do Mestre, vive na fidelidade ao projeto divino pela doação da própria vida. Na prática, e do ponto de vista eclesial, é a proposta de transformar a sociedade promovendo relacionamentos fraternos através da missão evangelizadora da Igreja.

 

A Igreja vive sua missão evangelizadora conduzida pelo Espírito “Defensor” prometido e enviado por Jesus (E – 6DTP-A). É pela presença do Espírito Santo na Igreja que ela se mantém na fidelidade ao projeto divino transformando o medo em coragem missionária da Igreja que é enviada em missão.

 

Igreja enviada em missão

O caminho pascal conduz naturalmente à missão. Na celebração da Ascensão de Jesus, a comunidade celebrante compreende que a obra iniciada por Cristo continua através da Igreja. Dizendo de outro modo: depois da Ascensão, a missão da Igreja é a mesma missão evangelizadora de Jesus. 

 

A Liturgia da Ascensão apresenta três dimensões na vida do discipulado: a adoração, a presença e a missão. Primeiro, a comunidade se prostra diante de Cristo reconhecendo-o como Senhor (E - Ascensão). Depois, recorda a promessa de que Ele continua presente, com diferentes modos de presença, no meio de seu povo. Por fim, escuta o envio missionário a toda a terra.

 

A fidelidade ao projeto divino, portanto, não está limitado a uma decisão da espiritualidade pessoal. É compromisso com a evangelização e com a construção de toda a comunidade eclesial e, de modo mais próximo de cada cristão e cristã da Igreja que vive o Evangelho no terreno da paróquia. 

 

Conclusão: Pentecostes, a fidelidade que renova a Igreja

Todo esse caminho encontra seu ponto culminante em Pentecostes. A Igreja reconhece que a Ressurreição de Jesus continua produzindo vida pela ação do Espírito Santo.

 

O Espírito é a presença viva de Deus que anima a Igreja, desperta a oração, inspira o louvor e sustenta a sua missão evangelizadora com todas as línguas da terra (1L - Pentecostes).

 

Pentecostes recorda que a Igreja não nasce de um projeto humano, mas do sopro de Deus. É o Espírito que reúne os discípulos e discípulas, fortalece a comunhão entre eles e os envia, como comunidade evangelizada para anunciar o Evangelho ao mundo. Ou seja, a evangelização, na condução do Espírito Santo, não é tarefa personalizada, mas participação na missão da Igreja. 

 

É em tal perspectiva teológica que a pedagogia mistagógica do Tempo Pascal, nas propostas celebrativas do SAL conduz os cristãos e as cristãs a uma decisão profunda: viver na fidelidade ao projeto divino a exemplo de Jesus através da doação da vida. Um projeto que oferece vida plena, constrói fraternidade e renova continuamente a Igreja em sua missão evangelizadora. 

 

E é exatamente isso que o Espírito continua fazendo hoje: renovar a face da terra e tornar sempre nova a missão da Igreja para que a renovação de toda a terra torne toda a humanidade cada vez mais humana.

Serginho Valle 
Março 2026


27 de fev. de 2026

A FIDELIDADE de Jesus explica o Tríduo Pascal


 


A pedagogia mistagógica do Tríduo Pascal nas propostas celebrativas do SAL à luz da FIDELIDADE ao projeto divino da vida plena.

 A pedagogia mistagógica presente nas celebrações do Tríduo Pascal é iluminada, neste ano de 2026, pela virtude da FIDELIDADE. No contexto celebrativo da Páscoa, a fidelidade é um tema de fácil compreensão considerando que Jesus vive seus últimos dias em total fidelidade ao projeto do Pai, oferecendo sua vida como alimento (Quinta-feira Santa) e, de modo ainda mais radical, oferecendo todo seu ser (Sexta-feira Santa) em FIDELIDADE ao projeto do Pai. A ressurreição, por sua vez, é uma resposta da FIDELIDADE paterna à obediência do Filho diante do projeto divino de fazer com todos os homens e mulheres participem da vida eterna (vida plena) (Vigília Pascal e Domingo da Páscoa).

Colocar a mão no arado e não olhar para trás 

Todos reconhecemos a FIDELIDADE divina com seu povo. Deus é apresentado como “fiel em todas as suas promessas” (cf. Sal 145,13; 1 Cor 1,9 — “Deus é fiel”). Deus permanece fiel mesmo quando o povo caminha em caminhos de infidelidade pela desobediência. A experiência de Israel mostra que Deus cumpre sua promessa, se mantém fiel ao projeto selado em aliança com o povo, mesmo diante de infidelidades (cf. Ex 34,6-7). A primeira luz a ser acesa para se compreender a pedagogia mistagógica do SAL, para o Tríduo Pascal deste ano de 2026, consiste em compreender o comportamento Jesus Cristo no decorrer do Tríduo Pascal, à luz da fidelidade ao projeto divino para com o povo em favor da vida plena. Como Jesus se comporta diante das ameaças ao projeto divino?

As decisões de Jesus, contemplados nas celebrações do Tríduo Pascal, são o retrato de um dos seus ensinamento: “ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). A “aptidão” para participar do projeto divino — o Reino de Deus — consiste na fidelidade de assumir o “arado” (projeto divino) e se manter firme, olhando em frente, independentemente dos desafios e provocações do terreno. Jesus permanece fiel até a morte na Cruz, cumprindo até ao fim a vontade do Pai (Fl 2,8). Se mantém firme; não olha para trás. A pedagogia mistagógica nas propostas celebrativas do SAL considera o ensinamento de Jesus sobre o assumir o arado, assumir o projeto divino de semear a vida plena (Jo 10,10) sem olhar para trás.

Celebrar a fidelidade de Jesus e comprometer-se 

A vida de Jesus foi vivida na fidelidade ao projeto divino, afirmando que se alimenta da fidelidade, vivendo na obediência à vontade divina (Jo 4,34). Na vida de Jesus, ser fiel ao projeto divino é a resposta amorosa que ele dá ao Pai diante da promessa do Pai em favor da redenção da vida humana. Na Teologia católica, a fidelidade expressa o amor divino derramado misericordiosamente em favor da humanidade, para que cada homem e cada mulher possam ser divinizados, tenham vida plena (vida eterna).

As celebrações do Tríduo Pascal, na pedagogia mistagógica das propostas celebrativas do SAL, neste ano de 2026, conduz os celebrantes a tomar contato com a finalidade de Jesus Cristo ao projeto divino, para se dispor a viver na mesma fidelidade ao projeto divino em suas vidas pessoais. A participação nas celebrações do Tríduo Pascal, no contexto mistagógico da fidelidade de Jesus torna-se, na vida de cada celebrante, um incentivo ao compromisso de fidelidade ao projeto divino que, não deixa de ser um chamado constante (2Ts 3,3; cf. 1Cor 1,9). Celebrar o Tríduo Pascal iluminando-o com a luz da fidelidade tem a finalidade fortalecer em cada celebrante a fidelidade pessoal ao mesmo projeto divino, na sua qualidade de discípulo e discípula de Jesus.

Autores que refletem a espiritualidade e a mística cristã são unânimes em dizer que a fidelidade é a virtude que permeia toda a vida do discípulo e da discípula de Jesus, considerando a entrega total de sua vida e a perseverança até o fim, a exemplo do Mestre, que pôs sua mão no arado e não olhou para trás.

A fidelidade ao projeto divino, do mesmo modo que a viveu Jesus, entregando sua vida, afasta o cristão e a cristã de tratar a religião de modo utilitarista, para assumi-la em modo de vivência e motivo para viver, especialmente caracterizado pela doação fraterna da vida em favor da vida de irmãos e irmãs. Assim aconteceu com Jesus e assim acontece quando se vive a vida cristã de modo autêntico, isto é, no discipulado.

O que caracteriza a fidelidade na vida cristã 

Existem vários temas que ajudam a compreender a fidelidade cristã. O primeiro deles é pelo acolhimento do Reino de Deus que, na pratica, é o projeto divino para a humanidade. O projeto divino do Reino de Deus é onde se encontram os valores, as orientações, as virtudes, os caminhos para a divinização que se traduz com a proposta do “sede perfeitos como o Pai e perfeito” (Mt 5,48), presente na conclusão do Sermão da Montanha, no qual Jesus propõe o programa do discipulado e sua finalidade: a divinização, a vida divina (vida eterna) na vida pessoal de cada discípulo e discípula.

A fidelidade cristã começa no acolhimento do Reino de Deus como orientação fundamental do viver humano (Mt 6,33) e irá se manifestar como atuação em forma de compromisso com a justiça, a paz, a caridade… Estes são valores que podem ser contemplados no modo como Jesus viveu sua vida, culminando na sua passagem pela Paixão, Morte e Ressurreição. Viveu em completa fidelidade e em profunda caridade para com a humanidade, propondo que isso seja continuado pelo serviço fraterno, no gesto do lava-pés (Quinta-feira Santa). 

Na vida cristã, a fidelidade ao Reino é central no caminho do discipulado em vista da configuração ao Mestre, vivendo em total disponibilidade de serviço fraterno. O discipulado é o modo natural, digamos assim, de viver a fidelidade ao projeto divino na vida cristã. Neste caso, não somente colocando em prática as orientações do Mestre, mas configurando-se a ele, que em tudo se fez obediente até a morte e morte de Cruz (Sexta-feira Santa). No discipulado, fidelidade diz respeito à perseverança em seguir Jesus para com ele configurar-se com todas as exigências derivantes do seguimento. A fidelidade, por exemplo, implica renúncia ao que afasta de Cristo e adesão constante à sua vontade; são as exigências da vocação cristã e a cooperação com a graça, obedecendo com coração sincero, como fez Jesus, em fazer em tudo a vontade de Deus.

Uma terceira característica é a relação entre fidelidade e missionariedade. A fidelidade cristã está intrinsecamente ligada à missão: a fidelidade que permanece em Cristo é também fidelidade ao mandato missionário (Mt 28,19-20). O discípulo fiel não guarda a fé para si, mas a anuncia, testemunha e partilha com alegria, perseverando na esperança e no serviço aos pobres e marginalizados. O episódio de Emaús, proclamado no Evangelho da Missa vespertina do Domingo da Pascoa, representa bem essa dimensão missionaria derivante da fidelidade ao projeto divino presente no Evangelho. Isso demonstra que a fidelidade cristã ao projeto divino não é apenas vertical (relação com Deus), mas também horizontal (relações humanas) e consiste no testemunho de viver com integridade, justiça, lealdade e caridade… tudo isso em espirito de serviço fraterno, colocando em pratica o Mandamento Novo (Quinta-feira santa). 

A pastoral e a fidelidade ao projeto divino 

A fidelidade ao projeto divino resulta também em atividades pastorais que tem como centro de suas atividades o projeto divino para favorecer, em todas as atividades pastorais, o encontro pessoal com Jesus Cristo, que é o fundamento de toda missão (Mc 1,17). Nestes sentido, as práticas pastorais não primam pela eficácia de gráficos em planilhas que anotam a quantidade de participações, mas pela fidelidade ao projeto divino em favor da vida humana e da vida de toda a criação, e isso não pode ser quantificado.

A fidelidade ao projeto divino, que resulta em atividades pastorais, se manifesta concretamente em forma compromisso de vida em favor de quem vive na comunidade, que se traduz em perseverança, coerência entre fé e atitudes concretas no serviço gratuitamente bondoso em promover, fraternalmente, qualidade de vida digna a todos, dando prioridade a quem se encontra em condições indignas. Neste aspecto, o lava-pés é o ensinamento mais visível para entender a pastoral como serviço em favor da vida. E isto é resultado de quem vive a fidelidade ao projeto divino.

Serginho Valle  
Fevereiro 2026

 

15 de mar. de 2025

Quaresma e Campanha da Fraternidade


A Quaresma é um período importante para os cristãos, um tempo de reflexão, conversão e renovação espiritual. Uma das propostas da Igreja, nesse contexto, é a Campanha da Fraternidade, que busca ressaltar a responsabilidade social do cristão. Tal proposta, contudo, nem sempre é bem acolhida pela dificuldade de relacionar a religião com questões sociais.

Para muitos, a religião é algo a ser vivido dentro da Igreja, sem impacto direto nas questões sociais e cotidianas. É uma visão em desacordo com a Doutrina Social da Igreja que, como ensinava Papa Bento XVI em sua mensagem de Quaresma de 2006, a Quaresma é um tempo para alinhar o nosso olhar com o olhar de Jesus Cristo; olhar para o mundo com compaixão e promover um desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade com os valores do Evangelho. A proposta da Igreja, com a Campanha da Fraternidade, consiste em ajudar católicos e católicas e, em caso de Campanhas de Fraternidade ecumênica, ajudar os cristãos e cristãs a ter o mesmo olhar compassivo de Jesus diante do povo que é agredido por alguma questão social.

As celebrações litúrgicas, especialmente a Eucaristia e o Sacramento da Penitência, nos ajudam a adotar esse olhar de Jesus sobre as necessidades sociais, como suplica a Oração Eucarística para Diversas Circunstâncias IV, na versão da 2ª edição do Missal Romano: "Dai-nos olhos para ver as necessidades de nossos irmãos e irmãs." Esses olhos não são os olhos de interesse ou de indiferença; refere-se ao olhar como Jesus olhava para a multidão – com misericórdia, e não com julgamentos.

A tradução proposta pela 3ª edição do Missal Romano, intercede para que os olhos sejam abertos a fim de “perceber as necessidades dos irmãos e irmãs (...)” e conclui a súplica intercedendo a graça de a Igreja ser “testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz” que, entende-se, em vista de uma sociedade solidariamente fraterna. Neste sentido, a Liturgia, em sua dimensão evangelizadora, propõe aos celebrantes ler os sinais dos tempos com os mesmos critérios e valores do Evangelho para a convivência social, como diz a Oração Eucarística para Diversas Circunstâncias III, onde se suplica: “Fazei que todos os fiéis da Igreja, discernindo os sinais dos tempos à luz da fé, empenhem-se coerentemente no serviço do Evangelho.”

Com tais pressupostos, compreende-se que a Campanha da Fraternidade não é uma campanha política ou ideológica. Ela tem inspiração religiosa, cristã, que se inspira diretamente no olhar de Jesus. É um convite para que cada cristão seja mais sensível e compassivo às necessidades de seus irmãos e irmãs, especialmente aqueles que enfrentam consequências das injustiças sociais. Por isso, a Campanha da Fraternidade é uma oportunidade para viver a fé de maneira mais concreta, acolhendo os desafios sociais e promovendo o amor que Jesus nos ensinou.

A Igreja dentro da sociedade

A Igreja, ao se inserir na sociedade, corre o risco de ser influenciada por ideologias políticas, que, muitas vezes, se apresentam de forma sutil, capazes tentar e desviar a finalidade do projeto evangelizador da Igreja. As ideologias, quando entram em uma comunidade eclesial, agridem e dividem e, como todas as ideologias, sem condições de oferecer soluções e, na maior parte das vezes, usando a miséria e a desigualdade social para manipular. A Campanha da Fraternidade, no contexto da dimensão evangelizadora da Liturgia, tem a função de ajudar os celebrantes a perceber o pecado de ideologias que manipulam e impedem e, às vezes, até matam a dignidade da vida humana em muitos setores da sociedade.

 

A Igreja, como instituição, jamais pode se envolver com partidos políticos, uma vez que se guia pela Doutrina Social da Igreja, que tem como base o Evangelho e busca defender a dignidade humana em todas as esferas da vida social. A Campanha da Fraternidade, que ocorre durante a Quaresma, pretende ser uma oportunidade de iluminar a realidade social à luz do Evangelho, sem se deixar instrumentalizar politicamente. A Igreja não é uma bolha que vive na sociedade como se não pertencesse à sociedade, ao contrário, vive na sociedade como fermento (Mt 13,33), como sal da terra e como luz do mundo (Mt 5,13).

 

A espiritualidade da Quaresma

A Quaresma é um tempo de conversão que não se limita à transformação pessoal, mas propõe também a conversão eclesial e social. A Igreja renova sua consciência da necessidade de conversão. Também a sociedade é necessitada de conversão para que a semente do Evangelho seja semeada em terra boa e não em terrenos impropriados (Mt 13,38ss). Neste sentido, a Campanha da Fraternidade, não julga a sociedade, mas convida a Igreja, convida os celebrantes, a ser cultivador do terreno social onde lançar a semente boa do Evangelho para que produza frutos. Esta é uma dimensão importante da espiritualidade da Quaresma em vista da conversão pessoal, eclesial e social.

 

A Igreja, ao se engajar com as questões sociais, adota o olhar de Jesus sobre a realidade do mundo, especialmente sobre os mais pobres e marginalizados sociais. A espiritualidade da Quaresma, representada pelo deserto e pelo silêncio, convida os cristãos a refletirem sobre a vida e a realidade social, buscando, com os olhos de Cristo, uma verdadeira mudança que também afete a sociedade, como pede Papa Francisco tratando da Nova Evangelização. Por isso, a Quaresma não é um tempo somente para pequenas penitências pessoais, é um momento favorável de renovação social, no qual os cristãos se empenham em ações de caridade e solidariedade. Este é um dos propósitos da Campanha da Fraternidade.

 

Práticas quaresmais e conversão social

A Quaresma também é um tempo de práticas espirituais que visam a conversão não só pessoal, mas também social, como proposto acima. As práticas de oração, penitência e caridade não devem ser limitadas a gestos e atitudes unicamente de esforço pessoal, como acontece com a privação de algum hábito (deixar de beber álcool, não assistir filmes, não comer doce...) mas devem ser dirigidas para a transformação da sociedade. Fazer um esforço para o bem comum proposto pela Campanha da Fraternidade. Neste ano de 2025, por exemplo, o esforço do cuidado da “casa comum” através da ecologia integral.

 

A espiritualidade quaresmal da Liturgia não pode ser isolada do contexto social, mas propõe a luz do Evangelho sobre as injustiças e as desigualdades sociais, como no caso da depredação ecológica, tema da Campanha da Fraternidade de 2025. O compromisso com a caridade social deve ser concreto, com ações que promovam a justiça e a dignidade humana, e não se reduzir a ideologias ou políticas partidárias.

 

Conclusão:

Com a finalidade de aprofundar este tema, gravei uma catequese litúrgica publicada no meu canal de Youtube — Lectio Liturgica —, que você acesse pelo endereço https://youtu.be/jl8B3BUvkAM  

 

É uma catequese litúrgica, na qual desenvolvo o tema de modo mais aprofundado com a metodologia catequética para refletir e compreender como a Igreja entende a necessidade e os motivos para realizar a Campanha da Fraternidade no tempo da Quaresma.

 

A verdadeira conversão que a Quaresma pede é aquela que transforma a vida pessoal, a vida eclesial e a comunidade social em um compromisso com a justiça, a solidariedade e a dignidade humana à luz do Evangelho.

Serginho Valle 
Março de 2025

22 de jun. de 2024

João Batista: da fogueira à Liturgia


A Igreja dedica atenção especial àquele que foi definido por Jesus como "o maior entre os nascidos de mulher" (Mt 11,11), apresentando-o como modelo de fidelidade ao projeto divino. A figura de João Batista, desde seu nascimento, tem causado admiração e medo.

 Hoje, a figura de João Batista inspira festejos populares com as festas juninas, nem sempre motivadoras ao modelo de vida cristã inspirado na vida de São João Batista. O que acontece, em certo aspecto, é um retorno ao sentido paganizado das fogueiras no início do verão europeu antes que a Igreja cristianizasse o significado das fogueiras.

 As fogueiras de São João
A fogueira é uma tradição de longos séculos, especialmente na Idade Média, como sinal inequívoco de que o verão europeu tinha começado. O acendimento da fogueira é um acontecimento antigo que, na Idade Média, ganhou grande popularidade. O acendimento de fogueiras, de origem pagã, é uma das comemorações que foi cristianizada pela Igreja. Recebeu um significado cristão. A Igreja inspirou-se no costume do povo Bíblico de acender uma fogueira para anunciar o nascimento de uma criança, como teria sido a circunstância do nascimento de João Batista.

 É assim que nasce a fogueira de São João, da Suécia à Itália, da Espanha à Grécia, e em muitas regiões de quase todo o Continente Europeu. Com a cristianização do significado dado à fogueira, espalhou-se o costume, entre camponeses e citadinos, acender grandes fogueiras nas colinas ou nas praças, para festejar São João Batista. Ao redor da fogueira dançava-se, cantava-se e partilhava-se comidas típicas da época.

 Hoje, parece que assistimos um movimento contrário na compreensão das festividades juninas. O costume de acender a fogueira continua, as celebrações festivas também continuam, mas o comércio e o turismo transformaram o sentido original dado pela Igreja: em vez da partilha gratuita, que deveria caracterizar festividades cristãs, a comercialização de uma tradição cristã para lucrar.

 Admiração e Medo 
Deixando a fogueira na praça e entrando na igreja para celebrar a Liturgia da Solenidade de São João Batista, dois sentimentos aparecem na proclamação do Evangelho da Missa do Dia: admiração e medo. A "admiração" aparece na reação dos parentes e vizinhos de Zacarias e Isabel. A gravidez de Isabel, idosa e estéril, é fisiologicamente inexplicável; suscita surpresa, espanto, admiração. A escolha do nome João, rompendo com a tradição familiar de onomásticos, e a recuperação da voz de Zacarias, adicionam camadas de maravilhamento ao evento; novamente a admiração. Todo o nascimento de João está envolto em admiração. Uma Liturgia, portanto, para despertar nos celebrantes encanto, surpresa e admiração.

 O segundo sentimento, "medo", aparece na reação dos vizinhos de Zacarias e Isabel. É o medo em forma de “temeridade” que expressa respeito e reverência diante do inexplicável, diante da presença divina que ultrapassa o entendimento humano. É o “temor” diante do divino — temor divino — que não promove distanciamento, mas aproximação, silêncio e adoração.  

 O espírito da Liturgia celebrado na Solenidade de São João Batista é uma celebração que conduz os celebrantes ao louvor, ao silenciamento adorante diante da admiração e do temor divino ao reconhecer que “a mão do Senhor estava com ele” (Evangelho do Dia).

 João foi preparado por Deus

Existe outro detalhe interessante: o significado do nome “João”. O nome João não era comum na família de Zacarias e Isabel, por isso causou surpresa entre parentes e vizinhos. João significa "Deus é cheio de graça" ou, numa outra forma de compreender, o nome João significa: "ele é agraciado por Deus". O nome revela quem é João Batista: alguém que tem a graça divina em sua vida. Zacarias e Isabel sabiam que seu filho, nascido na velhice do casal, tinha uma bênção, era um agraciado especial por Deus.

 A tradição bíblica dedica grande importância ao nome da pessoa. Na Bíblia, o nome revela a personalidade e, em muitas situações, revela missão de uma pessoa vocacionada por Deus. No caso, o segundo nome: “Batista”.  Tem o significado de “batizador”. Por isso, o nome João Batista significa “João Batizador”, João, aquele batiza. Nisto consiste um aspecto da missão de João: ser precursor do Messias batizando um batismo de penitência.

 Os dois nomes, João e Batista demonstram que ele foi escolhido por Deus, foi vocacionado, para uma missão. No contexto litúrgico, a missão de João Batista desde o seio materno, é proclamado no salmo responsorial: “fostes vós que me formastes e no seio de minha mãe tecestes.”

João Batista conhecia sua missão: dedicar sua vida como precursor de Jesus Cristo, o Messias prometido. Sua humildade e clareza de missão são evidenciadas quando se declara não digno de desatar as correias das sandálias do Messias (Jo 1,27). Celebrar o nascimento de João Batista, neste terceiro aspecto, é reconhecer sua fidelidade ao projeto divino e seu papel como aliado desse projeto.

Conclusão 

Liturgia ou fogueira? As duas celebrações podem conviver, especialmente quanto as festividades populares são capazes de fraternizar a comunidade através da partilha da mesa. Uma bela e alegre celebração da Solenidade de São João Batista pode ser concluída com uma bela fogueira para congregar e fortalecer a amizade entre os membros da comunidade.

Serginho Valle

Junho 2024

 

16 de jan. de 2021

Datas móveis no Ano Litúrgico


 

Quando começamos a nos interessar e estudar Liturgia, uma das primeiras interrogações é sobre algumas datas litúrgicas, especialmente aquelas datas variáveis, como da Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi, Sagrado Coração de Jesus. Tem também as datas de grandes solenidades e festas, como Natal e as celebrações de Nossa Senhora que são invariáveis; são datas fixas.

É evidente que a Igreja, no contexto do Ano Litúrgico, tem um critério para determinar o calendário das suas celebrações mais solenes e mais importantes, como é o caso da data da Páscoa, que é a celebração fonte de todas as celebrações litúrgicas cristãs.

A celebração do centro da vida cristã é a Páscoa que, por ser a celebração mais importante da Igreja e dos cristãos, é celebrada em três dias, o chamado Tríduo Pascal. São três dias com celebrações diferentes, mas celebrando o mesmo acontecimento: a Páscoa de Jesus Cristo; sua páscoa, sua passagem pela morte e sua Ressurreição.

Deste modo, na quinta-feira Santa, a Igreja celebra a Páscoa ritual, na sexta-feira Santa, celebra a Páscoa dolorosa e, no sábado Santo, a Páscoa gloriosa, em forma de vigília, que se conclui com a Missa do Domingo da Páscoa.

Uma característica para perceber que se trata da mesma Páscoa, em uma única celebração, é que as celebrações da Quinta-feira Santa e da Sexta-feira Santa não são concluídas com uma bênção e nem com o envio. A conclusão é feita com uma oração sobre o povo.

 

Data móvel da Páscoa

Mas, voltemos ao que interessa: a data móvel da Páscoa. A determinação da data da Páscoa não segue o calendário solar, como temos no ano civil, com início em 1º de janeiro e fim em 31 de dezembro. Segue sim o calendário lunar, que era o calendário usado pelos judeus. O livro do Êxodo (Ex 12) conta que os judeus saíram do Egito — fizeram a sua Páscoa — em uma noite de lua cheia, no primeiro mês da estação da Primavera; o mês se chama Nissan. A Páscoa dos judeus teria ocorrido em 14 de Nissan. O texto de Ex 12 explica como proceder para celebrar de modo memorial a Páscoa.

Ora, a Páscoa de Jesus, sua Paixão, Morte e Ressurreição aconteceu nos dias das celebrações pascais dos judeus. Isso originou aquilo que ficou conhecido na História da Liturgia como “Controvérsia Pascal”, que teve origem na segunda metade do século II. Este é um tema que sugiro para sua pesquisa pessoal.

O mês do calendário solar, grosso modo, tem 30 dias, ao passo que o calendário lunar tem 28 dias. Como diz o nome, é um calendário que marca as datas pelas fases da lua. Esta é uma herança que a Liturgia cristã herdou da Liturgia hebraica. Ou seja, ainda hoje, a data da Páscoa é estabelecida a partir do calendário lunar, mas com um detalhe: a Páscoa cristã sempre será celebrada no Domingo seguinte à primeira lua cheia da Primavera. Não da Primavera aqui no Brasil, mas na primavera da Europa.

Segundo as datas das narrativas evangélicas da Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus morreu no início da Primavera, na primeira lua cheia do ano, quando era celebrada a Páscoa dos judeus. Esta tradição da data da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é mantida até hoje. Como a lua cheia nunca cai no mesmo dia, as datas pascais nunca são celebradas numa data específica do ano. Por isso, a Páscoa obedece a uma data móvel.

A regra que estabeleceu a data da Páscoa cristã foi determinada pelo Concílio de Nicéia, no ano de 325. Desde então ficou estabelecido que a Páscoa cristã será celebrada no Domingo seguinte à primeira lua cheia da Primavera.

 

Datas móveis de outras celebrações

Em decorrência disso, as festas que estão ligadas à celebração da Páscoa, como Corpus Christi, que sempre é celebrada na segunda quinta-feira depois da Solenidade de Pentecostes — ou na primeira quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade — nunca tem data fixa. O mesmo acontece com a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na semana seguinte à Corpus Christi.

Serginho Valle

Janeiro de 2021

 

 

14 de nov. de 2020

Celebração do Mistério Pascal de Cristo no tempo


 

Celebrar os mistérios de Cristo, do ponto de vista teológico litúrgico, não é apenas “lembrar” o que Jesus fez por nós e, menos ainda, acompanhar a biografia de Jesus, iniciando no Natal, quando nasceu, terminando na sua volta ao Pai, na Ascensão. Ano Litúrgico não é isso. Não se trata, tampouco, de repetir em ritos o que Jesus realizou uma vez para sempre. O Ano Litúrgico, através das celebrações, torna atual e insere os celebrantes na mesma eficácia salvífica do gesto histórico realizado por Jesus Cristo. Assim, por exemplo, aquele momento histórico da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, que favoreceu a reconciliação com Deus tem, no momento celebrativo, a mesma eficácia, a mesma ação e dinâmica salvífica através da celebração litúrgica. 
        Um belo fundamento encontra-se na Constituição Sacrosanctum Concilium (SC 7) descrevendo a visão da Igreja sobre a Liturgia: “Disto se segue que toda a celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de seu corpo, que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.” A compreensão do acontecimento memorial no Ano Litúrgico, está ainda mais aprimorada na SC 102: “Relembrando destarte os Mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos méritos de seu Senhor, de tal sorte que, de alguma forma, os torna presentes em todo o tempo, para que os fiéis entrem em contato com eles e sejam repletos da salvação.” 
        Compreende-se assim que a espiritualidade litúrgica se alimenta diretamente do Mistério Pascal de Cristo, isto é, do projeto divino realizado por Jesus Cristo no mundo e atualizado na celebração litúrgica, em qualquer momento da História. Diferentemente de espiritualidades baseadas em devoções, por exemplo, a espiritualidade litúrgica alimenta-se diretamente na e da Salvação divina realizada por Jesus Cristo e faz com que os celebrantes participem e comunguem desta realidade salvífica com sua eficácia.

Serginho Valle
Novembro de 2020

 

7 de nov. de 2020

Dois modos de compreender o Ano Litúrgico


 

Um modo muito simples, mas bem revelador para compreender o Ano Litúrgico da Igreja é a frase título de um livro do liturgista italiano Aldo Bergamini: “Cristo, festa da Igreja”. O autor escreve que celebrar o Mistério Pascal de Jesus Cristo, no tempo, é “trazer” Jesus Cristo, com sua salvação, aos nossos dias. A atualização da atividade salvífica de Jesus Cristo, no hoje da história, fundamenta-se na Teologia do memorial.

Em sua Teologia do Ano Litúrgico, Bergamini diz que o Ano Litúrgico é Sacramento e, por isso, é memorial de Jesus Cristo agindo no nosso hoje. Considera-se assim que o Ano Litúrgico não é um calendário de celebrações, é a grande e única celebração de Jesus Cristo nas diferentes celebrações que a Igreja realiza no tempo. Jesus Cristo está presente nas ações litúrgicas da Igreja e continua agindo com a mesma eficácia salutar daquele tempo histórico, quando estava neste mundo, pela ação do Espírito Santo que ele mesmo enviou, como tinha prometido (Jo 14,16-17).

Outro liturgista italiano, Salvatore Marsili, teólogo beneditino, um dos principais protagonistas da reforma litúrgica do Vaticano II, nos anos 60, define o Ano Litúrgico como a ação salvífica de Jesus Cristo na história atual. Na prática, não difere em nada da definição de Aldo Bergamini, que foi aluno de Marsili. Num de seus artigos, na “Rivista Liturgica”, Marsili diz que o Ano Litúrgico é Jesus Cristo agindo no tempo e formando os cristãos para o momento histórico que se está vivendo. O enfoque de Marsili ilumina a ação salvífica de Jesus Cristo no tempo e destaca a atividade de Jesus Mestre. Destaca a dimensão pedagógica do Ano Litúrgico.

Se você ler os livros dos dois autores, não perceberá diferença na Teologia de Marsili e Bergamini. Mesmo assim, é interessante perceber a nuance que caracteriza o Ano Litúrgico como celebração do Mistério Pascal de Jesus Cristo e como pedagogia que introduz os celebrantes no Mistério Pascal de Jesus Cristo.

São enfoques confluentes quanto a ação de Cristo no Ano Litúrgico: a presença salvífica do Mistério Pascal em nosso hoje e sua dinâmica transformadora da história, em cada época e cultura. Na primeira definição, Bergamini ressalta o valor litúrgico-celebrativo do Ano Litúrgico acentuando a teologia do memorial. Marsili, por sua vez, destaca o Ano Litúrgico na dimensão salvífica e pedagógica, como tempo de formação do discipulado de Cristo. Ambas são visões importantes para compreender a formação espiritual na vida cristã a partir do Ano Litúrgico.

Serginho Valle

Novembro de 2020

 

30 de mar. de 2019

O serviço divino na Semana Santa


A auto apresentação de Jesus como aquele que veio para servir e não para ser servido (Mt 20,28) encontra seu momento alto e sua plena realização na sua Páscoa ritual (5f Santa), na sua Páscoa dolorosa (6f Santa) e na sua Páscoa gloriosa (Sábado Santo e Domingo da Páscoa). Uma reflexão sobre o serviço divino, exercido por Jesus Cristo, nas principais celebrações da Semana Santa.



Jesus, o servo obediente de Deus
            O tema do serviço é totalmente pertinente na reflexão da Semana Santa. Está presente na Palavra do Domingo de Ramos, apresentando Jesus como servo obediente que, pela obediência ao projeto do Pai, fez da sua vida terrena um serviço em favor da vida humana. É o próprio Jesus que se apresenta como alguém que veio para servir e não para ser servido (Mt 20,28). Tal disposição de servir está simbolizada na sua entrada em Jerusalém, no Domingo de Ramos, montado num jumentinho, animal servidor, cooperador nos trabalhos diários das pessoas, no tempo de Jesus e, ainda hoje, em muitas partes do mundo.
            A cena de Jesus entrando em Jerusalém montado num animal de serviço simboliza sua atividade servidora e indica o serviço como alternativa ao poder social. Não o poder da dominação, que cria classes entre servidores e servidos, mas o poder pelo serviço, que cria relacionamentos de ajuda mútua pela fraternidade.
            Noutro momento da Semana Santa, o serviço divino realizado por Jesus está simbolizado no rito do lava-pés. Na Quinta-feira Santa, Jesus ritualiza a vida cristã no gesto de lavar os pés de seus discípulos, com a recomendação para fazer o mesmo que fizera (Jo 13,15). Neste mesmo contexto, outro gesto coloca em evidência a amplitude deste serviço como doação da vida: o gesto da “fractio panis”; um gesto doméstico que Jesus transformou em sacramento da doação da sua vida divina para todos os tempos e em todas as partes da terra.
A “fractio panis” favorece a compreensão da Eucaristia em relação ao pão como fruto do trabalho humano e como necessário para alimentar a vida humana. Símbolo do que é essencial para a existência humana. A fração do pão representa a partilha da vida, a partilha do trabalho humano, não com o fim egoísta do enriquecimento, mas como promoção da vida partilhada entre todos. O gesto diário de repartir o pão, fruto do trabalho humano, em nossas mesas, é usado por Jesus como doação da vida divina no altar, local onde se oferece a Deus um sacrifício santo e agradável, mesa onde é repartido o Pão da vida e o Cálice da Salvação.
Aquilo que Jesus realiza ritualmente, na Última Ceia, é vivenciado no seu corpo em sua Paixão e Morte. É a entrega plena da sua vida, presente no seu corpo, como oferenda (sacrifício) ao Pai. Na Paixão de Jesus, o amor divino torna-se serviço na doação da vida divina em vista da plenitude da vida humana. A Palavra da Sexta-feira Santa, no contexto do serviço, ilumina-se no servo sofredor; alguém que se faz servidor da humanidade acolhendo a vontade divina, e por causa disso, passa, faz sua passagem (faz sua Páscoa) pelo sofrimento humano. Gesto compreendido como serviço obediente ao Pai, simbolizado no “servo sofredor” de Isaias (Is 52,13—53,12).
A obediência é um aspecto natural de quem se faz servo. Todo servo fiel é servo obediente, alguém que acolhe a vontade do seu Senhor. Assim viveu Jesus. E assim podemos mensurar a grandeza e a profundidade da obediência de Jesus ao projeto do Pai. Tamanha foi sua obediência, tamanha sua fidelidade que aceitou passar (fazer sua Páscoa) pela morte de Cruz, considerada morte ignominiosa.

A reação divina
            Todo este conteúdo, teologicamente compreensível, causa dificuldades do ponto de vista humano. O conhecido questionamento — por que Deus, que é bondoso e misericordioso, permitiu que seu Filho morresse? — enfraquece-se na Teologia do Servo Sofredor; na Teologia do Serviço. Os servos de Deus, na Bíblia (e fora da Bíblia), sempre se confrontaram com o sofrimento humano e, muitos deles, com a morte, com o martírio. A causa está em Deus ou na dificuldade humana de acolher o projeto divino? Ou de se incomodar com o projeto de divino, a ponto de causar sofrimento aos servos de Deus?
            Outro questionamento: a reação divina. Como Deus reage diante da morte do seu Filho ao expressar seu sentimento de abandonado pelo próprio Pai (Mt 27,46)? A resposta está na Vigília Pascal e no Domingo da Páscoa: a reação divina é a Ressurreição; a destruição da morte.
A Páscoa de Jesus é a passagem pela morte; passagem como indicativo de não permanência. Deus não deixou Jesus na morte; ele desce e passa pela "mansão dos mortos", mas lá não permanece; passa pela mansão dos mortos e lá derrota a força da morte com a sua Ressurreição. O início da Vigília Pascal ritualiza esta passagem da escuridão da noite para a iluminação da luz da Ressurreição simbolizada no fogo novo. A Páscoa de Jesus é a luz divina para o mundo.
Serginho Valle
Março de 2019


16 de mai. de 2018

Lava-pés


Um pouco encurvado, um avental amarrado na cintura, mãos que derramam água para limpar os pés dos outros. Não existe sentimento que fique insensível durante a proclamação do lava-pés, na Missa da Quinta-feira Santa, recordando o gesto de Jesus ao lavar os pés de seus discípulos.
O lava-pés era uma cortesia típica das famílias hebraicas, transformado por Jesus em gesto de amor e humildade absolutos. Para melhor compreender o significado, Papa Francisco modificou recentemente o Missal Romano, definindo que, de agora em diante, pode-se escolher todos os membros do povo de Deus para participar do rito do lava-pés; a proposta tem a ver com a inclusão mulheres que, devido a um antigo e descontextualizado conceito, só permitia a participação masculina neste rito. Um costume que, na prática, ao menos aqui no Brasil, era desconsiderado, e com razão.
A finalidade, explica a Congregação do Culto Divino, é evitar que o lava-pés se transforme em teatro, mas evidencie a medida desmedida do amor cristão.
A proposta do rito do lava-pés, não consiste tanto em simplesmente repetir o gesto de Jesus, lavando os pés, mas enfatizar ritualmente o significado deste gesto: gesto de quem se coloca a serviço do próximo. É o gesto concreto do Mandamento novo, proclamado na Missa in Coena Domini, o gesto que explica em que consiste “amar o próximo como Jesus amou” (...). Consiste em se colocar a serviço da vida do outro para que viva de modo digno.

Notas históricas
Por muitos séculos, o lava-pés não se realizava durante a Missa da Quinta-feira Santa, mas fora da celebração, com o bispo que lavava os pés de 12 padres. O rito entrou na Missa com o Papa Pio XII. Até 1955, portanto, era um rito prevalentemente clerical, reservado ao clero, não realizado diante da assembléia do Povo de Deus. A partir de 1955 adquire visibilidade e a possibilidade de ser realizado durante a Missa.
Com a mudança feita por Papa Francisco, não será mais necessário que todos sejam homens, nem que os 12 sejam escolhidos antecipadamente para este rito. A orientação diz respeito a um grupo de fiéis, homens e mulheres, jovens e idosos, sadios e enfermos, padres, consagrados, leigos. Ou seja, a variedade e a unidade do Povo de Deus.
Serginho Valle

Maio de 2018

12 de mai. de 2018

Imaculada Conceição


Solenidade litúrgica que celebra Maria, Mãe de Jesus, concebida em pecado, no dia 8 de dezembro. Em vista do Mistério Pascal de Jesus Cristo, por graça especial de Deus, Maria participa do privilégio único de ter sido concebida sem pecado original. Disto a denominação de Imaculada (sem mácula, sem mancha) Conceição (concepção).  
            Era necessário, sem dúvida, que o Filho de Deus merecesse uma mãe imaculada, quer dizer, sem nenhum pecado desde sua concepção. Por isso, Maria recebeu a plenitude da graça (Lc 1,28), para que pudesse ser a Mãe de Deus. No contexto do projeto divino, é para nós e para nossa Salvação, que Maria nasceu Imaculada desde a sua concepção, segundo o dogma definido por Pio IX, em 1854.
            Maria foi especialmente escolhida por Deus para exercer a vocação maternal e a vocação da maternidade, para que o Filho de Deus nascesse plenamente humano. Para exercer tal função, Deus a quis toda pura, sem mancha; toda imaculada (Ef 5,27). É isso que a Igreja expressa na Liturgia desta solenidade, nos textos eucológicos.


Coleta da Missa da Imaculada

                              Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho, pela Imaculada
                             Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos 
                             méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós purificados de toda culpa por sua  
                             maternal intercessão. PNSCJ. Amém!

            Como em outras coletas, ditas “novas”, a coleta da Imaculada Conceição retoma quase que textualmente a essência da definição dogmática de Pio IX (1854): foi preservada de toda mancha do pecado, em vista dos méritos de Cristo. Uma coleta, portanto, que pode ser definida como “dogmática”.
            A coleta proclama Maria como morada digna da vida divina, na pessoa de Jesus Cristo, preservada de todo pecado. Maria, portanto, é imaculada, sem mácula, sem mancha, sem pecado. A coleta ressalta que a Imaculada Conceição de Maria atinge também toda a humanidade pelos méritos de Cristo, quer dizer, por aquilo que Jesus realiza em favor de todos os homens e mulheres, purificando-nos de toda a culpa pela maternal intercessão da Virgem Imaculada.
            No contexto teológico do Dogma da Imaculada Conceição, sua fundamentação bíblica encontra-se no Mistério da Encarnação (Lc 1,26-38, Mt 1,21; Rm 1,4). Graças ao “sim” de Maria, Deus que falara de tantos modos, nestes últimos tempos falou através do seu Filho Jesus, para que tivéssemos nele a vida plena (Gl 4,4-5; Jo 10,10). Graças aos méritos divinos concedidos a Maria, tornando-a digna habitação do seu Filho, pode-se participar da graça divina como filhos e filhas adotivos de Deus (Ef 1,3-12; 1Pd 1,3), destinados a viver livres de toda culpa, justificados em Cristo para poder participar da vida divina (Ef 1,7; Cl 1,14; Hb 9,22).

Prefácio da Imaculada Conceição (embolismo)

A fim de preparar para o vosso Filho mãe que fosse digna 
dele preservastes a Virgem Maria da mancha do pecado original, 
enriquecendo-a com a plenitude da vossa graça. Nela, nos destes 
as primícias da Igreja, esposa de Cristo, sem ruga e sem mancha, 
resplandecente de beleza.Puríssima, na verdade, devia ser 
a Virgem que nos daria o Salvador, o Cordeiro sem mancha, 
que tira os nossos pecados. Escolhida, entre todas as mulheres, 
modelo de santidade e advogada nossa, ela intervém 
constantemente em favor de vosso povo.

O Prefácio da Solenidade da Imaculada Conceição, que tem como tema: “Maria e a Igreja”. Um Prefácio inspirado, no que se refere à Igreja, no texto paulino de Ef 5,27, na teologia mariana presente na Sacrossanctum Concilium (SC 103) e no contexto teológico da Lumen Gentium (LG 65).
O texto prefacial faz referência à Maria como a primeira filha da Igreja, o novo Povo de Deus, que participa plenamente da glória celeste, por ser preservada da mancha original. Maria é primeira, aquela que, no dizer de Paulo, é apresentada toda bela e sem mancha, sem ruga; toda santa e sem defeito aos olhos de Deus (Ef 5,27). Ela é a filha do povo que encanta o olhar do rei, a ponto de lhe conceder tudo que pedir; uma filha que se torna intercessora diante do rei divino (1ª leitura – Est 5,1-2;72-3).
O segundo aspecto do Prefácio, fundamentado na Teologia Mariana pós-conciliar, faz referência à celebração do Mistério Pascal de Cristo na vida de Maria, Mãe de Deus, contemplando-a e proclamando-a como o primeiro e o mais excelso fruto da redenção realizada por Jesus Cristo (SC 103). Por isso, ela é a primeira cristã e o modelo de discípula a ser imitada por todos os cristãos (LG 65).

Espiritualidade da Solenidade da Imaculada Conceição
            A celebração Litúrgica da Solenidade da Imaculada Conceição, do ponto de vista da espiritualidade Litúrgica, encontra-se plenamente envolvida no Mistério Pascal de Jesus Cristo. Maria recebe de Deus a graça de ser preservada do pecado em vista do Mistério Pascal de Jesus Cristo, em vista do processo redentor escolhido por Deus. É o que se reza na coleta inicial e o que se proclama no embolismo prefacial. Um feito que produz na vida espiritual a admiração, o louvor, a ação de graças pela obra divina realizada na vida de um ser humana, Maria, a Mãe de Jesus.
            Sendo humana, entende-se que os méritos divinos que atingem o ser humano na pessoa de Maria, igualmente atinge a vida de quem celebra este Mistério. Toda humanidade, e cada celebrante, uma vez purificados de suas manchas desde o Batismo, são chamados à purificação pessoal para acolher em suas vidas a vida divina, cujo corpo é morada do Espírito Santo (1Cor 3,16). É uma espiritualidade propositora do caminho da purificação da humanidade, da Igreja e de cada ser humano em vista da santificação. No seio de Maria, Deus veio habitar a vida humana e, onde Deus habita, ali habita a sua santidade. Disso, a espiritualidade de purificar-se, distanciar-se do pecado para se tornar santo e santa, acolhendo a vida divina na vida humana purificada; sem pecado.
            Interessante notar, igualmente, que a Solenidade da Imaculada Conceição é celebrada no Tempo do Advento. Em tal circunstância, respira os ares espirituais da esperança. Esperança de haver pessoas dispondo-se à purificação pessoal para acolher Jesus, que nasce no Natal. O Advento, no dizer de Paulo VI, é o tempo litúrgico mariano por excelência e, por isso, a espiritualidade desta solenidade favorece igualmente a compreensão do Advento como tempo mariano, isto é, tempo para esperar o Senhor com amor de mãe gestante: feliz e radiante da alegria humana.
Serginho Valle
Maio de 2018