A imagem apresenta cenas de destruição entrando na assembleia e a força da paz sendo suplicada pela oração e presente na espiritualidade litúrgica
As assembleias celebrativas que
mais atraem pessoas, lotando igrejas e salões em nossos dias, são compostas por
fiéis em situações de vulnerabilidade: estresse emocional, ansiedade, angústia,
fobias, medos... Problemas de ordem psicológica que, logicamente, afetam a vida
das pessoas.
Os motivos são variados:
desemprego, doenças, luto, perda de dinheiro, separações ou litígios
familiares…
Participar de celebrações
litúrgicas implorando o socorro divino em condição de vulnerabilidade psicológica é
compreensível e recomendado.
É um foco importante, necessário
e justo — mas não pode ser o único. Existem necessidades pessoais e
necessidades sociais atingindo toda a humanidade que também precisam ser levadas
para a celebração litúrgica. Uma dessas necessidades é a justiça e a paz.
Celebrar o dom da paz e da justiça
O mundo está queimando em guerras
e violências que causam sofrimentos em todas as partes da terra.
Isso também precisa entrar nas
celebrações, intercedendo a Deus o dom da justiça e da paz para que cessem as guerras e as violências. A paz e a justiça são dons divinos oferecidos por Deus para
que a humanidade se torne cada vez mais humana. O cultivo da paz e da justiça
humaniza a sociedade e a torna mais segura, mais favorável à vida digna.
A Bíblia apresenta a justiça
inseparável da paz (Is 32,17; Tg 3,18). A paz é o dom divino oferecido a um mundo
conturbado por guerras e violências provocadoras de injustiças absurdas contra
a humanidade. Nada mais justo que esse dom seja suplicado em nossas celebrações,
em favor de irmãos e irmãs vítimas de guerras e de tantas violências. Quanto
mais rejeitado e descuidado for o dom da paz, mais necessidade se tem de implorá-las em nossas celebrações litúrgicas.
Liturgia como promotora da fraternidade
As violências, em suas mais
diferentes manifestações, impedem a sociedade de construir a fraternidade
ensinada por Jesus. Um exemplo são as polaridades políticas e até religiosas
que dividem, distanciam e criam inimigos na comunidade e na sociedade. Promoção de violência por não se pensar como este ou aquele grupo.
A realidade desses movimentos que
impedem a construção da paz e da justiça precisam ser levados para dentro de
celebrações, não só como motivo intercessor, mas também como provocação
para que as celebrações litúrgicas sejam promotoras de reconciliação e
alimentadoras da solidariedade social através da fraternidade cristã.
A Liturgia, especialmente
celebrada em grandes assembleias como a Eucaristia, é fonte promotora da fraternidade
e da reconciliação.
Anunciadores e construtores da paz
Graças à presença de Jesus em
todas as celebrações litúrgicas, como ensina a Sacrosanctum Concilium (SC 7), ele continuamente oferece o dom da
paz (Jo 14,27), motivo pelo qual os celebrantes sempre devem se dispor a
acolher o dom da paz como bem pessoal e como compromisso do testemunho cristão.
O mesmo Jesus que, depois Ressurreição, entra no
Cenáculo e deseja a paz (Jo 20,19) continua presente na Eucaristia e,
igualmente, continua enviando os celebrantes como anunciadores e construtores
da paz: “em cada casa que entrardes,
dizei: paz a esta casa” (Lc 10,5).
Assim, os celebrantes da
Liturgia, especialmente os que participam da Eucaristia, não apenas intercedem
pela paz e realizam o rito da paz, mas são também comprometidos com ela,
enviados como construtores de paz e promotores da justiça, condição para que a
paz seja semeada, cultivada e partilhada na sociedade.
Não somente na Eucaristia. O
Sacramento da Penitência, como celebração pessoal ou nas celebrações
penitências comunitárias, é também fonte de paz, que transforma cada penitente
em profeta da reconciliação e da paz.
A oração de São Francisco de
Assis descreve bem esse significado: o penitente arrependido torna-se
instrumento da paz, levando perdão, união e fé. É o que acontece no “envio” de
todas as celebrações litúrgicas: os celebrantes são enviados com o compromisso
de serem anunciadores e construtores da paz.
São João Paulo II, na Carta
Apostólica Mane Nobiscum Domine (n. 27) diz:
“O
cristão, que participa na Eucaristia, dela aprende a tornar-se promotor de
comunhão, de paz, de solidariedade, em todas as circunstâncias da vida. A
imagem lacerada do nosso mundo, que começou o novo milênio com o espectro do
terrorismo e a tragédia da guerra, desafia ainda mais fortemente os cristãos a
viverem a Eucaristia como uma grande escola de paz, onde se formem homens e
mulheres que, a vários níveis de responsabilidade na vida social, cultural,
política, se fazem tecedores de diálogo e de comunhão.”
O cenário litúrgico atual
Como dizia no início, o cenário
litúrgico de hoje tende a valorizar, às vezes demasiadamente, o lado pessoal
das mazelas humanas. Não há nada de errado nisso, mas corre-se o risco de ficar
somente no lado pessoal que, a bem da verdade, em certo sentido é mais fácil e
cômodo.
A celebração litúrgica não pode
esquecer a dimensão comunitária e, isso significa, no atual contexto social, comprometer
os celebrantes com a construção da paz. Através da pedagogia mistagógica, a
Liturgia é educadora do comportamento cristão na sociedade.
De vez em quando, aparece um
exorcista explicando como o diabo age para destruir vidas pessoais, e alerta
sobre a vigilância contra o mal agressor na vida pessoal. É certo que o mal
pessoal provocado pelo demônio é um fato. Também o mal social, com pensamentos que
contaminam e favorecem divisões na sociedade, são tentações e influências diabólicas.
Podemos nos perguntar: será
difícil reconhecer que guerras, genocídios, brutalidade contra inocentes, fome,
desnutrição, pessoas sem teto e crianças de rua são realmente realidades diabólicas? Será
difícil compreender que tais contextos são situações de sofrimento de milhões
de irmãos e irmãs com os quais, na maior parte das vezes, podemos ajudar
somente com nossas orações?
A Liturgia não é uma praça de
protesto. É um espaço de paz, porque nela acontece o encontro com o Príncipe da
Paz que visita o seu povo, como cantamos na Liturgia Natalina. Por isso,
celebrar a Liturgia esquecendo que o mundo e a humanidade precisam da paz pode
produzir alienação em vez de comprometimento evangelizador e fraterno.
A paz se perde quando a injustiça
social provoca pobreza, fome, doenças e sofrimento. A reconciliação para ser
social precisa olhar a sociedade com os mesmos olhos de Jesus: “dai-nos olhos para ver as necessidades dos
irmãos e irmãs…” a Liturgia proclama na Oração Eucarística para as Diversas
Circunstâncias IV. Que olhos pedimos?
Os mesmo olhar de Jesus para
socorrer os necessitados vítimas de violências e de guerras.
A Liturgia é o espaço onde somos
iluminados com a luz do Evangelho para ver a realidade social com os olhos de
Jesus. É na celebração litúrgica, de todos os Sacramentos, que recebemos o
mesmo olhar de Jesus Cristo como condição para oferecer e cultivar os valores
do Reino de Deus — entre eles, a paz.
O rito da paz, na celebração
Eucarística é um rito de reconciliação. Antes de participar da Mesa
Eucarística, que é mesa de comunhão com Deus, é necessário estar em comunhão
com quem celebra comigo e com quem não está em paz comigo. Um semeador de
discórdia não pode comungar a Eucaristia que sempre, e em todas as
circunstâncias, compromete o comungante tornando-o instrumento da paz.
Serginho Valle
Dezembro 2025
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