15 de jan. de 2022

Liturgia é educação

Pode ser que por uma desantenção, correndo rapidamente os olhos, você não tenha prestado atenção ao título. Não estou falando de “Liturgia e educação”, mas que “Liturgia é educação”. Chamo atenção para a importância de não criar um paralelo entre Liturgia e educação, mas de considerar a Liturgia como educação; a Liturgia é um espaço educativo e educador. O contexto litúrgico é um contexto próprio do discipulado e, por isso, é educativo e apropriado para educar.

 

A Campanha da Fraternidade 2022 favorece realizar uma reflexão sobre o papel da educação pela Liturgia e da Liturgia como espaço educador. São Paulo VI definiu a Liturgia como a primeira escola da vida cristã. Mais que uma definição, é uma afirmação que merece ser considerada. Vários textos da Patrística entendem a Liturgia como “Locus Theologicus” e “Locus sapiantiae”: espaço teológico e espaço da sabedoria. Não é uma escola e nem sala de aula, evidentemente, mas é um contexto, um clima, um espaço, um local onde se é educado nas coisas de Deus e na coisas da vida.

 

Li o texto base e não lembro alguma referência no sentido de considerar a Liturgia como educação. Claro, não pode falar de tudo. Mesmo assim é uma pena, porque a Liturgia é a principal, e para muitos católicos, o único espaço educativo da fé e, por que não, do estilo de vida a partir da Palavra. É considerando a necessidade da Liturgia na educação da maior parte dos católicos que considero importante abordar o tema da educação no contexto da Liturgia e da Liturgia como educação em si. Volto a insistir que a maior parte dos católicos não tem outra educação religiosa e (talvez) existencial a não ser pela Liturgia.

 

A educação realizada pela Liturgia e com a Liturgia fundamenta-se na espiritualidade litúrgica, que é a espiritualidade da Igreja. Uma educação, dentro dos moldes cristãos, sem espiritualidade é uma educação desprovida de fundamento cristão. Não basta conhecer princípios e doutrinas, é necessário que os mesmos estejam fundamentados na espiritualidade, iluminados pelo Evangelho para que o espírito da educação seja evangelizado e evangelizador. Neste aspecto, como a diz a SC 10, a Liturgia é fonte.

 

Outro elemento importante da educação pela Liturgia e da Liturgia como momento educativo é ter presente que a Liturgia adota o processo mistagógico. É uma dinâmica pedagógica que favorece o crescimento no discipulado de modo gradual, propondo pouco a pouco a estrada de Jesus, o caminho do discipulado. Não é correto entender a mistagogia como método; embora haja semelhanças, é importante valorizar a mistagogia como processo, como passos nos quais o cristão e a cristã são educados processualmente, progressivamente na e pela Liturgia.

 

Além desses dois elementos, que podem ser considerados básicos na educação pela Liturgia, outro elemento importante é o papel da Liturgia na formação e na orientação de valores cristãos. Considere-se, nesse caso, a Liturgia como espaço, no qual são destacadas virtudes e comportamentos próprios do cristão, como por exemplo, a fraternidade, o relacionamento pautado na misericórdia, na justiça, a temperança, a prudência, a paciência... No momento celebrativo, os celebrantes não são educados com uma metodologia escolástica ou acadêmica, mas pela pedagogia mistagógica, que confronta ou ilumina o modo de viver com o que é proclamado na Palavra, cantado numa canção, suplicado numa prece, silenciando diante do Mistério, e assim no decorrer do processo celebrativo de cada Sacramento.

 

Os exemplos que proponho ilustram a educação presente na Liturgia, no momento celebrativo, não somente na Liturgia da Palavra com a homilia, que orienta (educa) como viver a Palavra, mas em toda a celebração. Até mesmo, e principalmente, o silêncio é favorecedor de um contato pessoal com a própria vida do celebrante e isso é altamente educativo. A Liturgia é educação para a vida é para relacionamentos comunitários e sociais. Não educa com uma educação doutrinária ou teológica ou catequética. A educação pela Liturgia é uma educação existencial e, por isso, quem é educado no espaço litúrgico leva para a vida e, educadamente, vive aquilo que celebra.

Serginho Valle

Janeiro 2022

 

27 de nov. de 2021

Música Litúrgica para ouvir e para cantar

 

Existe uma particularidade com a música litúrgica que poucas vezes percebemos em nossas celebrações: a audição da música litúrgica. Sim, existem músicas que são para ser ouvidas como, por exemplo, o salmo responsorial. Em algumas situações, quando canta um coral polifônico, noutro exemplo, a música é escutada; acontece a participação pela audição da música. Em linguagem popular: curtir a música ouvindo.

Algumas distinções

A celebração litúrgica, por ser um ato comunitário, na maior parte das vezes pede que todos participem da música cantando; a assembleia não seja substituída por um grupo que canta sozinho na celebração. Algumas canções são tipicamente comunitárias, como acontece com as músicas rituais: “Senhor, tende piedade de nós, Glória, o refrão do Salmo responsorial, o Santo, Santo, Santo..., etc...” O ministério da música, neste caso, cumpre sua finalidade de ajudar os celebrantes a participar da celebração pelo canto e não cantar para a assembleia, substituindo-a. É o que definimos como “cantar a celebração”.

Algumas canções são presidenciais, quer dizer, o Presidente da celebração canta a canção. Por exemplo: as orações, como a coleta (oração do dia), sobre as oferendas... O diálogo prefacial — “O Senhor esteja convosco; corações ao alto...” — e o próprio Prefácio da Oração Eucarística é do presidente da Missa. O “Por Cristo, com Cristo....” também é do padre, mas o “Amém” conclusivo é uma canção para todos os celebrantes cantarem juntos. Neste caso, são canções para serem ouvidas; a assembleia participa ouvindo e cantando o amém conclusivo.

Outra canção que, tradicionalmente, pertence a um ministro da celebração litúrgica é o Salmo Responsorial. O salmista canta o salmo e a assembleia participa da canção cantando o refrão. Outras intervenções próprias do salmista são as antífonas de entrada, da aclamação ao Evangelho e a antífona da comunhão. Neste caso, como na referência ao padre, os celebrantes não cantam; ouvem e participam dos refrões.

 

Um lembrete sempre válido

Preste atenção neste texto escrito por Ione Buyst: “Um grupo de cantores ou um coral podem dar suporte ao canto da assembleia. Podem ainda executar ou cantar a várias vozes, harmonizando com a voz da assembleia. Podem ainda executar sozinhos alguma peça mais rebuscada (principalmente em dias de festa); por ex., após a homilia, relacionada com a própria homilia e o evangelho, ou após a comunhão, prolongando a meditação contemplativa. Jamais, porém, podem substituir o canto da assembleia.”

 

            Sim, jamais substituir “o canto da assembleia” excetuando o que foi proposto. Em alguns ritos, a assembleia ouve a música e reza pela audição. Na celebração existem músicas para ouvir e para cantar.

Serginho Valle
Novembro 2021

 

13 de nov. de 2021

Música vocal e música instrumental

SC 120

“Tenha-se na Igreja Latina em grande consideração o órgão de tubos, como instrumento tradicional de música, cujo som pode acrescentar às celebrações admirável esplendor e elevar com veemência as mentes a Deus e às coisas divinas.”

 “Outros instrumentos podem ser admitidos ao culto divino, a juízo e com o consentimento da autoridade territorial competente, à norma dos artigos 22 § 2, 37 e 40, contanto que sejam adequados ao uso sacro, ou possam a ele se adaptar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.”

 Até agora falamos de “música”, indistintamente. No entanto, há outra regra a ser lembrada: a música vocal é mais importante na Liturgia do que a música instrumental e deve ocupar o espaço maior. É a voz humana que se alegra e louva a Deus, que chora, geme e implora, que expressa o Mistério de Cristo.

É pela voz humana que cantamos e manifestamos nossas alegrias e nossas angustias diante de Deus. E fazemos isso com a música vocal. Por isso, é importante considerar a necessidade de não escolher canções que expressem o espírito de cada rito acompanhado musicalmente favorecendo a participação ativa e consciente na celebração. Para tanto é preciso aprender a ouvir o texto, deixar as palavras penetrarem no corpo, na mente, na alma para causar alguma reação pessoal.

No contexto da espiritualidade litúrgica iluminada pela música, os autores e estudiosos da música como meio orante, pedem que através da voz do salmista, dos cantores, da assembleia..., ouça-se a voz de Cristo, a voz do Espírito, a voz da humanidade inteira, de ontem e de hoje, com a oração incessante do Espírito que reza com gemidos e súplicas (Rm 8,26-27) no coração dos santos e santas que vivem na Igreja. É a grande comunhão espiritual que incessantemente a Igreja eleva a Deus com suas canções, especialmente cantando os salmos; salmodiando. A música tem esse poder e capacidade de nos colocar em comunhão, por isso, dizem vários documentos, a música litúrgica deve ser santa porque santo é o momento no qual é cantada.

 Uso dos instrumentos musicais

Os instrumentos muitas vezes provocam distração ou impedem cantar com o coração. Por isso, a Liturgia orienta usar os instrumentos musicais como suportes para favorecer a canção. O grande exemplo, neste sentido, é o uso dos instrumentos no canto gregoriano: usado apenas como suporte. Dentro de cada contexto e uso de vários instrumentos, como se faz hoje nas celebrações, é importante aprender a usar os instrumentos a favor da oração e não como distração e impedimento orante.

Do ponto de vista pastoral, considero que não somente nos tempos penitenciais, como a Quaresma, mas também no Advento, não deveríamos abrir mão de cantar certos cantos sem instrumento. Cantar “a cappella” para favorecer o sentimento orante através da voz, sentindo unicamente a voz cantando com nosso corpo.

Compreende-se que o instrumento musical está a serviço da voz, dando suporte, jamais para abafar ou encobrir a voz. Podemos prever peças instrumentais, independente de canto, por exemplo, durante a procissão das oferendas, ou depois da comunhão, ou ainda na saída. No geral, contudo, a função dos instrumentos é de ser suporte.

É necessário dizer que não se deve substituir o músico por uma máquina, uma playlist de músicas litúrgicas tocadas no celular, por exemplo. É o ser humano que louva a Deus com sua voz e com seu instrumento, não a máquina. É pela arte, as vezes precária, outras vezes sofisticada na execução instrumental, que a Igreja louva a Deus com sua canção e sua arte musical litúrgica.

É claro que a Igreja admite instrumentos e até elege o órgão de tubos como o preferido para a Liturgia. O motivo da escolha do órgão de tubos é a solenidade e o recolhimento espiritual que o órgão de tubos promove numa celebração litúrgica. O som e o jeito de tocar o órgão de tubos, tocado com arte e dentro do contexto celebrativo, nunca agredirá os celebrantes, como pode acontecer com uma guitarra, bateria ou um violão barulhentos, principalmente quando tocados sem arte. Assim sendo, é preciso ter presente duas coisas: quando entra a arte, tudo muda; quando se conhece a arte litúrgica musical, tudo é esclarecido.

Outros instrumentos também são permitidos na Liturgia, como sabemos. No Brasil, usamos vários instrumentos na Liturgia. A questão não é o instrumento, mas o modo de usar o instrumento na celebração. Lembramos que “o instrumento musical deve estar a serviço da voz, dando suporte, porém jamais abafa-la ou encobri-la.” Isso vale para todos os instrumentos, órgão de tubos, inclusive.

Em alguns momentos da celebração, pode-se tocar somente música instrumental, como por exemplo: para acompanhar a procissão de entrada, no momento da procissão das ofertas, num momento de reflexão ou oração silenciosa. Nunca, porém, no momento da consagração e como fundo musical das orações presidenciais, principalmente na Oração Eucarística. Quando a Liturgia fala de silêncio é silêncio sem o preenchimento da música.

 Conclusão

A conclusão é feita com o Estudo da CNBB 79, n. 205.

 “A linguagem musical dos instrumentos tem seu lugar e importância na celebração da fé, não somente enquanto acompanha, sustenta e dá realce ao canto, que é sua função principal, mas também por si mesma, ao proporcionar ricos momentos de prazerosa quietude e profunda interiorização ao longo das celebrações, proporcionando-lhes assim maior densidade espiritual. Instrumentos de todo tipo estão sendo convocados a prestar este serviço, contanto que se leve em conta o gênio e as tradições musicais de cada cultura, a especificidade de cada ação litúrgica e a edificação da comunidade orante.”

Serginho Valle 
Setembro de 2021

 

 

23 de out. de 2021

Música sacra, música litúrgica

A música sacra é “parte integrante da solene liturgia”, e para tanto responde a alguns critérios fundamentais: a santidade — “será tanto mais santa, quanto mais estiver unida à ação litúrgica” — (SC 112).

Beleza 
“Não deveria haver na celebração uma música que não fosse uma verdadeira obra de arte” (Pio X).

Universalidade 
Ajudar os celebrantes de todas as culturas a se identificar na celebração através da música.

             Citei três critérios, que considero básicos na compreensão da música e para sua finalidade na Liturgia: santidade, beleza, identidade cultural. Existe um quarto critério que deve ser incluído, ao meu ver: a espiritualidade litúrgica.

            Dizer que a música é parte integrante da celebração litúrgica é considerar que a música faz parte da celebração juntamente com a palavra, com os gestos, com os sinais e símbolos. É dizer que a música não é um “opcional” da celebração e nem uma decoração. É dizer que a Liturgia celebra com palavras, gestos, música, espaços... Perceba que o termo usado é “juntamente com”, o que significa que, não é nem mais e nem menos importante; reforça dizer que a música faz parte e compõe a celebração. A música não é o elemento principal, embora seja, depois da palavra, o modo mais utilizado na comunicação litúrgica e aquela que tem a capacidade de dar um colorido especial e festivo à celebração.

            Considerando a Liturgia, do ponto de vista celebrativo e não ritual, não se pode pensar a celebração litúrgica sem a música, principalmente quando se considera que a música é rito, no que se denomina de música ritual. Tudo isso, faz-nos compreender duas coisas importantes: qualquer música não serve e, é imprópria a ideia de fazer uma folha de cantos que sirva para todas as Missas da comunidade. Por que? Primeiramente, porque cada celebração tem uma característica próprio, enfoque ou contexto diferentes, como dizemos em nossas propostas celebrativas do SAL – Serviço de Animação Litúrgica (www.liturgia.pro.br ). Mas tem um detalhe a mais, que precisamos atender.

            Uma vez que existem leituras diferentes nas celebrações, uma vez que não se faz a mesma homilia e nem as mesmas motivações nas Missas, uma vez que existem propostas simbólicas diferentes para cada Missa... entende-se que a música não pode ser um elemento estranho na celebração; a música é parte integrante daquela celebração como um todo e, como um todo colabora para a que a celebração seja uma unidade: palavras, símbolos, sinais, música e gestos celebrando o mesmo Mistério Pascal de Cristo, sempre iluminado por diferentes contextos.

            Outro dato que gostaria de chamar atenção, como parte integrante da Liturgia, é o fato que algumas músicas têm finalidade didática; ajudam os celebrantes a compreender o que estão celebrando. Exemplo: o canto de entrada “é o exórdio, a abertura solene da celebração; é a preparação dos fiéis” para a missa (...) “Este canto introduz os fiéis no mistério de comunhão com Cristo, desperta-os e os prepara para ouvir a Palavra de Deus e participar dignamente da Eucaristia” (CNBB, estudo 12, p. 12-13).

            Ainda na dimensão didática da música, podemos considerar a escolha da canção que irá acompanhar o rito da partilha, na Comunhão Eucarística dos celebrantes. É uma canção escolhida à luz da Palavra, especialmente com o Evangelho. Se o Evangelho, por exemplo, fala de caridade, a canção escolhida cantará a caridade na vida cristã; se o Evangelho fala de justiça, a canção da comunhão cantará a justiça do Reino. Entende-se que a canção escolhida tem o papel didático de unir o Evangelho à comunhão, comprometendo o celebrante a viver aquilo que ouviu e a vida divina que comunga na Eucaristia.

Aqueles três critérios, mais um, citados no início desse artigo — santidade, beleza, identidade cultural — tornam-se compreensíveis nos pontos referidos. Sendo a Liturgia a “ação sagrada (santa) por excelência na Igreja” (SC 7), entende-se que a música deve refletir poeticamente a santidade da Liturgia. Sendo a comunicação litúrgica composta basicamente pela linguagem artística, a música cantada na celebração deve resplandecer pela beleza da arte musical. Uma vez que a celebração acontece num contexto cultural próprio, a identidade musical deve ser refletida no modo de cantar e executar a música.

Serginho Valle
Setembro de 2021

 

 

 

 

9 de out. de 2021

Nem toda música é litúrgica

Nem todas as músicas servem para ser cantadas numa celebração litúrgica. Mesmo que mencionem Deus ou falem de amor ou, até mesmo tenham uma bela mensagem... nem toda música serve para a Liturgia. De modo mais aviltante, algumas celebrações matrimoniais, por exemplo, sem algum critério litúrgico, cantam músicas que são temas de um personagem de novela, ou cantam algum hit que está no sucesso do momento. A Liturgia não se rege pelo sucesso, mas pelo Mistério que celebra.

Não estamos discutindo a qualidade da música, mas a finalidade e a função da música na celebração litúrgica. Em algumas comunidades, infelizmente, encontramos o ministério da música cantando músicas bonitas, mas impróprias para a celebração da Missa. Com intenções ou finalidades que não correspondem ao Mistério celebrado, alguns músicos valorizam mais a música que a celebração. Este é um modo de desafinar, não a música, mas a celebração.

 

Cantar “A” celebração ou “NA” celebração

            Há alguns anos, apareceu uma música que fez sucesso em algumas assembleias litúrgicas: “Anjos de Deus”. Foi uma prova e tanto para o ministério de música das comunidades, pois foi possível verificar quem deles cantava “a” celebração e quem cantava “na” celebração. A distinção encontra-se no “a celebração” e “na celebração”.

Os primeiros, aqueles ministérios de música que “cantam a celebração”, analisaram a letra da canção evangélica “Anjos de Deus” e perceberam algumas contradições com a Teologia Litúrgica da Missa. Perceberam incompatibilidades de anjo que faz barulho e a necessidade de ouvir barulhos angelicais para abrir o coração e oferecer a oração a Deus. Uma canção, da autoria do Pastor Elizeu Gomes que, em 1996, depois de uma grande polêmica por direitos autorais e de gravação, afirmou à revista Veja que a música é do repertório evangélico e não católico.

Os segundos, aqueles ministérios de música que “cantam na celebração”, não viram problema em cantar esta música na Missa, inclusive na hora da comunhão. Não estudaram a canção; importaram-se mais com o agitado e gostoso ritmo da música e adotaram este critério para cantar a canção. Outros, se serviram do critério do sucesso que a canção fazia, embalada por Missas na TV, que “pretensamente” justificava cantar esta canção na celebração da Eucaristia.

Quem conhece a canção “Anjos de Deus”, e gosta de música ritmada, a classifica como uma música bonita e envolvente. Mas este não é o único critério litúrgico para que uma canção possa acompanhar um rito celebrativo, seja da Missa ou dos demais Sacramentos. No caso exemplar da música que estamos mencionando, quem conhece Liturgia entende que as celebrações não se caracterizam pelo barulho de anjos levando nossas preces ao Pai. Quem conduz nossas preces ao Pai é Jesus, nosso único mediador, como sempre concluímos as orações: “por Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo”.

É bom e necessário cantar músicas agradáveis em nossas celebrações, mas isso significa que qualquer música sirva para ser cantada na Liturgia.

Serginho Valle

Agosto de 2021

 

2 de out. de 2021

A música litúrgica em debate

Uma das questões mais debatidas em encontros formativos de Liturgia é a música. Tem de tudo um pouco. Desde comunidades com um excelente ministério de música, até comunidades onde um músico precisa salvar a pátria sozinho, caso contrário ninguém canta nas celebrações. Outra realidade é aquela de comunidades com grupos musicais que dominam e não aceitam sequer sugestões, seja de quem for. Existem comunidades com grupos musicais que pesquisam, fazem cursos e melhoram a olhos vistos aprendendo e se aprimorando na arte da música litúrgica. 

Por fim — para a lista não ficar longa demais — existem grupos de música que tocam nas igrejas como se estivessem num salão de festas, com som alto e com falta de critério na escolha das músicas. De outro lado, e felizmente, existem ministérios de músicos que fazem os celebrantes cantar, usam os instrumentos como acompanhamento e cantam com a arte que a comunicação litúrgica exige.

 

A música cantada pelos celebrantes

E os celebrantes? Também aqui temos de tudo um pouco. Comunidades onde ninguém abre a boca. Um grupo de músicos ou um coral canta por eles e eles limitam-se a escutar. Culpa de quem? Dos celebrantes que não querem cantar ou dos músicos que preferem cantar sozinhos? Depende! Não vou entrar no mérito desse fato.

Mas, tem também comunidades onde os celebrantes cantam e não se importam com ensaios para aprender canções novas. Existem comunidades onde só as mulheres cantam. Em outras, comunidades, o coral de mulheres e homens cantando é afinado a duas ou mais vozes, ou alterando, em modo dialogado: ora cantam as mulheres, ora os homens. Estas últimas, são comunidades que tratam a música litúrgica como arte e como oração. Na retaguarda de tais comunidades está um ministério da música que trabalha com amor e carinho para comunicar-se bem e ajudar a assembleia a rezar cantando.

 Como se canta a Liturgia

Por último, a questão de como se canta a Liturgia. Estou falando de cantar a Liturgia; não apenas cantar na celebração, mas cantar a Liturgia, cantar a celebração.

Em algumas Missas, grupos musicais e até ministérios de música não favorecem cantar a celebração, mesmo que sejam músicas conhecidas. Ou porque cantam alto demais, ou porque são desafinados ou porque introduzem variações que valorizam mais os instrumentos que as vozes.

Em outras missas, alguns corais ainda não compreenderam sua função ministerial na Missa como servidores dos celebrantes para cantar ritos ou acompanhar ritos com as canções. São grupos musicais e ministérios de música que fazem apresentações na Missa e transformam a música litúrgica em concerto sem a mínima chance de a assembleia participar da celebração cantando.

Mas, graças a Deus, temos também comunidades onde as celebrações, nas quais o modo de cantar é artístico e com muito bom gosto. Mais que cantar por cantar, nestas últimas comunidades se reza cantando e se canta louvando a Deus.

             Chamo atenção que distingo entre grupos de músicos e Ministério da Música. O grupo de músicos vai na Missa, toca, canta e vai embora. O Ministério da Música cultiva a Música Litúrgica, sua espiritualidade, sua arte e sua oração. Dedica-se à música litúrgica pelo estudo e pela partilha da arte musical nas celebrações.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

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