Liturgia e ecologia
Conversão ecológica: um louvor que nasce da Liturgia
Como a oração litúrgica nos ensina a cuidar da Casa Comum e
celebrar o cântico de toda a criação.
Serginho Valle ·
Setembro 2026 · Liturgia Paroquial ·
Ecologia Integral
Há momentos em que a voz da Igreja precisa ressoar qual eco da criação
que gratuitamente recebemos de Deus como “casa comum” da humanidade. A
consideração da criação como dom divino, como obra de Deus oferecida aos seus
filhos e filhas, desperta a sensibilidade humana para a ação de graças e o
consequente cuidado da criação através do que, hoje, se denomina consciência
ecológica.
Já tive a oportunidade de refletir sobre o mesmo tema, em outro artigo,
há dois anos (em 2024), de onde retomo algumas ideias e citações para a
presente reflexão.
A Igreja é ecológica
A Igreja entende que esse cuidado, manifestado na defesa de rios,
árvores, florestas, geleiras e mares, é um modo de evangelizar, direcionando
nossos olhos para os “lírios do campo e as aves do céu” (Mt 6,28-30) e, mais
efusivamente, para acolher o grande convite do salmista:
“Árvores
e plantas glorifiquem o Senhor” (Sl 148)
Papa Leão XIV, no dia 1º de outubro de 2025, convidou a Igreja a
reconhecer que o cuidado da terra não é um modismo, mas parte da
responsabilidade da fé: cuidar da “Casa Comum” é cooperar com a obra divina da
criação e um gesto fraterno e solidário para com a vida humana e de todos os
seres vivos. O fundamento bíblico remonta às primeiras páginas da Sagrada
Escritura.
A reflexão do Papa Leão XIV, no dia 1º de outubro de 2025, foi realizada
no Centro Mariápolis dos Focolares, em Castel Gandolfo (Itália), ao participar
da conferência “Raising Hope on Climate Change”. Na ocasião, ele disse que o
grito da terra não pode ser reduzido a uma moda passageira, nem a discursos
efêmeros que se perdem com o tempo. A insistência do Papa é que a ecologia,
quando vivida com fé, se torna caminho de conversão, exigindo mudança de
estilos de vida e, para isso, a conversão de mentalidade e de coração (Rm
12,2).
A Igreja, desde a encíclica Laudato Si’ — escrita pelo Papa Francisco
(2015) — e, em âmbito brasileiro, através das Campanhas da Fraternidade
dedicadas à ecologia (8 campanhas ao todo), insiste num fato: cuidar da criação
é viver o Evangelho no concreto da vida. É um modo de estar a serviço da vida
humana, um modo de viver concretamente o Mandamento Novo, adorando a Deus através
da criação e dela cuidando para que a vida não seja ameaçada. Acrescente-se
também que se trata de responder ao desejo divino de que todos participem da
beleza e da abundância da criação. É uma resposta adorante e fraterna traduzida
em solidariedade pelo bem comum e pela dignidade para todos. Ter cuidado
ecológico, a exemplo de São Francisco de Assis, é um modo de crescer
espiritualmente na vida cristã.
A Liturgia como espaço do
cântico cósmico
A Igreja, quando celebra a Liturgia das Horas, ao recitar os salmos, em
vários tempos — especialmente no Dia do Senhor —, faz questão de convidar toda
a criação a unir-se à oração da Igreja para louvar a Deus. É o que cantamos na
celebração das Laudes do Domingo da 1ª semana.
“Louvai-o,
sol e lua, louvai-o, todas as estrelas luzentes… Montes e colinas, árvores
frutíferas e todos os cedros.” (Sl 148)
A Liturgia torna-se um espaço no qual a voz da Igreja empresta sua voz a
todas as obras da criação, em toda a sua beleza, para louvar a Deus. É a Igreja
que, como acontece na Liturgia das Horas, assume a voz do salmista para
proclamar:
“Os
céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.”
(Sl 19,2)
Assim, o celebrante e a assembleia orante da Liturgia das Horas tornam-se
a voz da criação inteira, emprestando suas palavras e sua fé para que o louvor
de todas as criaturas se eleve ao Criador. A maravilhosa obra da criação divina
é fonte inspiradora do louvor ao Criador. Facilmente se percebe que é uma
oração e um louvor ecológicos.
Espiritualidade que se faz
compromisso
Ao considerar a vida e o crescimento espiritual de muitos santos e santas
— entre os quais São Francisco de Assis é o mais conhecido —, percebe-se que
fizeram da natureza, considerando-a de modo ecológico, uma verdadeira escola de
espiritualidade.
Muitos são os santos e santas que se santificaram através da criação:
desde as provas da existência divina através da criação, escritas por São Tomás
de Aquino (as conhecidas “5 vias”), até o uso da criação como fonte medicinal
por Santa Hildegarda de Bingen. Acrescente-se ainda o trabalho na natureza, no
cultivo da jardinagem e na preservação de florestas como modo de ascese em
muitos mosteiros.
O maior poeta da natureza, São Francisco de Assis, como que resume todo o
louvor na conhecida poesia orante:
“Laudato si’, mi
Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa”
“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa
irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa.” — São Francisco de Assis,
Cântico das Criaturas
O Pobre de Assis foi capaz de celebrar uma verdadeira Liturgia ecológica
e santificar-se cuidando da natureza que, sendo criatura de Deus, era tratada
fraternalmente por ele: irmã árvore, irmão lobo, irmão sol, irmã lua…
O cuidado da criação divina, de modo gratuito e não lucrativo, torna-se
uma fonte da espiritualidade cristã que ensina a respeitar a terra, partilhar
os bens produzidos nela, cultivar a justiça e a solidariedade para que os bens
da criação sejam de todos. Pensemos na Eucaristia: ao nos colocar diante do pão
e do vinho que — frutos da terra e do trabalho humano —, nos convida a cuidar
do dom da criação como partilha para que todos possam viver. É a ecologia
dentro da Liturgia.
Um dado que poucos conhecem, principalmente na cultura urbana, são as
Missas de Quatro Têmporas, celebradas para marcar o início das quatro estações
do ano, ligadas ao ciclo agrícola da preparação da terra, ao tempo da
semeadura, à fertilidade das sementes e ao tempo da colheita. A Liturgia das
Missas das Quatro Têmporas tem forte sentido de santificação do tempo e da
criação, integrando a vida humana ao ritmo da natureza. Quer algo mais
ecológico que isso dentro da Liturgia?
Louvar a Deus cuidando da
criação
O cuidado da ecologia sempre foi celebrado pela Liturgia; aliás, é uma
herança judaica. O Antigo Testamento sempre manteve celebrações do tempo da
colheita, da entrega das primícias e do dízimo de tudo o que era criado. Jesus
participava dessas celebrações como ação de graças pela bondade divina
manifestada na natureza, que nos alimenta e possibilita viver.
A Igreja mantém a proposta de que, quando preservamos a natureza, quando
defendemos os pobres atingidos pelas mudanças climáticas, quando renunciamos ao
desperdício para não explorar agressivamente as reservas ambientais… estamos
testemunhando, do ponto de vista cristão, que louvar a Deus e cuidar da criação
são dimensões inseparáveis da vida cristã.
Conclusão
A oração se transforma em gesto, e o gesto se transforma em
espiritualidade que conduz os celebrantes a contemplar a obra da criação e a
serem seus guardiões. Cuidar da criação não é luxo nem ideologia: é fidelidade
a Deus, que nos confiou o jardim da vida.
No altar e fora dele, somos chamados a unir nossa voz à da terra, para
que o louvor de todas as criaturas se eleve como perfume agradável ao Senhor.
Assim, a conversão ecológica se torna nossa Liturgia e nosso compromisso em
favor da dignidade de todos pelo cuidado da casa comum.
Setembro 2026
Serginho Valle

