10 de jul. de 2021

Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Tanto o Sacramento da Penitência como o Sacramento da Unção dos Enfermos são celebrados por pessoas debilitadas, enfraquecidas ou pelo pecado ou pela debilidade física. Na dimensão da espiritualidade litúrgica, esses sacramentos caracterizam-se pela misericórdia, paciência e compreensão. Não é sem motivo que nas Introduções dos Rituais desses Sacramentos se insiste que o padre, no papel de confessor ou administrador da Unção dos Enfermos, prepare-se para bem celebrar este momento, no qual terá que fortalecer irmãos debilitados. Descreve a necessidade da preparação espiritual e psicológico para entrar em contato com a fragilidade humana.

          Do ponto de vista da Pastoral Litúrgica, é necessário insistir numa mentalidade madura e equilibrada sobre estes dois sacramentos. Isso poderá acontecer se a Pastoral Litúrgica dispor de equipes de celebrações que ajudem os penitentes na preparação para uma boa confissão, com celebrações ou dinâmicas preparatórias, como meditação, Lectio divina, breve reflexão...  E, no caso da Unção dos Enfermos, quando as Pastorais da Saúde e Litúrgica souberem ajudar as famílias a celebrar a presença do fortalecimento divino na unção e na oração de fé que, como diz São Tiago (Tg 5,14-15).

Reconheço, e creio que você também reconhece comigo, que muito se tem a fazer na pastoral destes dois sacramentos para não aproximá-los de conceitos mágicos, mas em fazer deles aquilo que são: celebrações de fortalecimento para quem se confia totalmente a Deus no momento que a vida o estiver debilitando.

 Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Infelizmente, nem todas as comunidades têm uma Pastoral Litúrgica Paroquial capaz de considerar a importância que merecem os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos.

Reconheço não ser fácil para a Pastoral Litúrgica Paroquial organizar atividades pastorais próprias para o Sacramento da Penitência se este estiver centrado unicamente no padre. Além do mais, alguns costumes e práticas pastorais classificam o Sacramento da Penitência não como momento celebrativo da misericórdia divina, mas momento acusatório: o penitente conta os pecados, o padre escuta, dá a absolvição e tudo está consumado. Não existe, ainda, em muitas comunidades, a dimensão celebrativa e uma espiritualidade capaz de revestir o Sacramento da Penitência como momento reconciliador com Deus e com os outros, no contexto da vida cristã.

O mesmo podemos dizer quanto a atividade da Pastoral Litúrgica Paroquial a respeito do Sacramento da Unção dos Enfermos. Tenho percebido que o mesmo é celebrado quase sempre de modo isolado, quando muito restrito ao âmbito familiar, quando o enfermo está em casa. Nos hospitais, mesmo havendo possibilidade e ter pessoas por perto, o padre como que executa o rito sozinho com o doente. Não estamos falando de validade, de efeito espiritual, nada disso. Mas da dimensão pastoral que pede a presença da comunidade, mesmo que representada pela família ou por pessoas que atuam ministerialmente com os enfermos.

Sim, existe um campo enorme para se desenvolver um trabalho pastoral com os Sacramentos medicinais da Penitência e da Unção dos Enfermos. Um trabalho pastoral que contemple a dimensão da acolhida e da escuta fraterna; trabalho pastoral realizado em forma de multidisciplinariedade, com orientação psicológica, por exemplo, com direção espiritual e catequética para preparar aqueles que precisam voltar para Deus com uma boa confissão. Para preparar o enfermo e a família, que também se fragiliza na doença, para uma boa celebração da Unção dos Enfermos.

            Os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos jamais podem ser desconsiderados ou esquecidos pela Pastoral Litúrgica Paroquial. Sim, trata-se de algo óbvio e evidente que a Pastoral Litúrgica Paroquial se ocupe destes Sacramentos. Na prática, infelizmente, grande parte da Pastoral Litúrgica Paroquial, em muitas comunidades, não existe um trabalho específico com estes dois Sacramentos que conferem a graça do perdão e da conversão, que conferem também a graça da fraternidade, da misericórdia e da consolação.

Serginho Valle

Maio de 2021

12 de jun. de 2021

Espiritualidade litúrgica no Sacramento da Unção dos Enfermos

 

A debilidade humana manifesta-se de modo especial no corpo doente. Sabemos, pela experiência da vida, que não teremos a mesma saúde à medida que os anos passam. A doença, ou a fraqueza física para alguns, é uma realidade que um dia tomará conta de nós. Isto nos debilita. Para aquele momento, quando nos dermos conta que o vigor dos anos se foi, ou que alguma doença nos afetou, a Igreja vem em socorro intercedendo a graça divina para que a pessoa recupere a saúde e a força da vida, se for da vontade de Deus.

A espiritualidade da Unção dos Enfermos leva os celebrantes a se unirem mais intimamente com Jesus Cristo sofredor para o bem do povo de Deus, explica São Paulo (Cl 1,24). A debilidade corporal, manifestada na velhice ou na doença, não é nem descartável ou apenas deplorável; para a Igreja é um tempo para fazer do sofrimento uma oferta agradável ao Pai para o bem do mundo, como diz São Paulo VI, na Constituição Apostólica “De Sacramento Unctionis Infirmorum”.

Por meio da celebração do Sacramento da Unção dos Enfermos, o cristão é convidado a participar e a colocar em Deus toda sua fé e esperança, como lemos em vários exemplos evangélicos das curas dos doentes por Jesus. A espiritualidade presente na Liturgia da Unção dos Enfermos é vivida de modo intenso; o padre que preside este sacramento sabe o que isso significa. É a espiritualidade que fortalece a vida do enfermo ou do idoso pelo abandono nas mãos de Deus. É momento para a pessoa reconhecer-se necessitada de tudo e, sem alguma resistência, colocar-se no colo de Deus, pois nele está o consolo, a força e a esperança. Quem preside a Unção dos Enfermos deve ser alguém envolvido pela misericórdia divina, ser um reparador da força no doente, para ajudá-lo a abandonar-se no colo de Deus.

Serginho Valle

Maio de 2021

 

22 de mai. de 2021

Espiritualidade litúrgica no Sacramento da Penitência

A espiritualidade do Sacramento da Penitência diz respeito à reconciliação e à libertação do pecado. É o sacramento da volta, que retoma as relações com Deus e com os irmãos afetadas pelo pecado. É o sacramento que ajuda reencontrar Deus e o irmão ao cair em si e tomar consciência do pecado cometido. É o sacramento “para que os fiéis, tendo caído em pecado após o Batismo, se reconciliem com Deus” (Ritual da Penitência, n. 3).

A dimensão espiritual, como todo o projeto da espiritualidade do sacramento da Penitência, está demonstrada na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). É uma espiritualidade reparadora, da volta para casa, da coragem e humildade de colocar-se aos pés da Igreja, na pessoa do padre, para pedir perdão pelos pecados. É um verdadeiro exercício de ascese, de luta interior, que faz “entrar em si” (Lc 15,17), reconhecer-se longe de Deus e da família/comunidade eclesial e, a partir disso, tomar o firme propósito de voltar: “voltarei para a casa do meu Pai e direi” (Lc 15,18-20).

O primeiro aspecto desta espiritualidade, portanto, é reconhecer-se pecador, aceitar a graça e entrar em si. Para tanto, conta-se com a graça divina e com a ajuda orante e acolhedora dos irmãos (Mt 18,15-20). É grande a riqueza espiritual de quem se sente necessitado do perdão reparador. De quem, harmonizado e maduro na fé, contempla seu estado deplorável e vai em busca da reconciliação com o Pai e com sua comunidade. Esta é a primeira graça do Sacramento da Penitência.

A espiritualidade do sacramento da Penitência tem início na acolhida da graça divina que faz alguém ser capaz de “entrar em si” e continua na humildade, no gesto humilde de confessar sua falta ao Pai, que lhe resgata a vida. É quando acontece o milagre da reparação: o Pai aceita e reveste seu filho com a dignidade de quem pode sentar-se à mesa para a festa da vida onde o alimento da vida plena é farto (Lc 15,22-24).

Interessante perceber o detalhe do “revestimento”. Uma vez perdida ou manchada a veste branca do batismo, ao perdoar quem pecou, o Pai reveste; dá uma veste nova ao filho, calçados para os pés e anel no dedo (Lc 15,22). É a reparação do pecado, a recuperação do irmão que estava morto e foi-lhe devolvida a vida (Lc 15,32). O pecado é a morte da vida e a volta a Deus é a reparação da vida, a recuperação da vida, a graça da ressurreição espiritual. É uma espiritualidade que contempla a reparação de quem estava no pecado, morto para Deus, longe de Deus e voltou a viver na graça.

São alguns acenos da espiritualidade litúrgica da Penitência vivenciada por quem o celebra, penitente e confessor. É a alegria espiritual de poder sentar-se à mesa e não passar o restante da vida comendo a sujeira, a lavagem existencial destinada aos porcos (Lc 15,16). Eis a espiritualidade reparadora de quem se faz ministro da reconciliação tanto no ministério sacerdotal como no ministério de quem se dispõe a preparar seus irmãos e irmãs para bem celebrar e viver esta espiritualidade da volta à vida, de volta à harmonia espiritual de viver na casa do Pai.

Serginho Valle

Maio de 2021

 

8 de mai. de 2021

Reflexão da espiritualidade do Matrimônio e Ordem na Pastoral Litúrgica

Pela minha experiência, tenho constato que um bom número das Equipes de Liturgia, em nossas comunidades paroquiais, dedica pouco tempo para refletir sobre a espiritualidade daquilo que celebram. Isto vale para quase todas as celebrações sacramentais e, de modo mais pontual, isto diz respeito à espiritualidade pressente nas celebrações matrimoniais e de ordenações.

Talvez, entre o Sacramento da Ordem e do Matrimônio, a preparação das ordenações leva vantagem. Como se trata de celebrações menos frequentes, as mesmas são preparadas com reflexões vocacionais, tríduos e até mesmo seminários ou conferências sobre a vida e a espiritualidade decorrentes do Sacramento da Ordem.

Infelizmente, assim não acontece na preparação celebrativa do Sacramento do Matrimônio. Em algumas situações, a celebração litúrgica fica em segundo plano ou é delegada ao que hoje se denomina de “cerimonialistas” que a preparam sem nenhuma referência ou inspiração à espiritualidade matrimonial. Na atividade cerimonialista, a atenção e preocupação concentra-se nos preparativos festivos, nos cuidados com enfeites, músicas e outros detalhes.

Diante de tal quadro, não apenas é muito importante que sua Equipe de Liturgia dedique tempo para refletir sobre a espiritualidade litúrgica presentes nas celebrações do Matrimônio e da Ordem. Como são realizadas mais celebrações matrimoniais que ordenações, é de bom senso dedicar mais tempo na reflexão da espiritualidade matrimonial presente nas orações, prefácios, ritos e símbolos usados na celebração do casamento.

 

Refletir a espiritualidade na comunidade

         Considero que a reflexão da espiritualidade sacerdotal e matrimonial presente na celebração do Matrimônio e da Ordem podem ser um excelente recurso de discernimento vocacional entre os jovens. Por isso, não se restringir a refletir a espiritualidade desses Sacramentos entre os membros da Equipe Litúrgica, mas em diferentes oportunidades de encontros com jovens e adolescentes. Apresentar o que o rito celebra e como o rito compromete existencialmente quem é ordenado e os noivos que se casam.

Outra atividade para aprofundar a espiritualidade presente nas celebrações desses Sacramentos pode ser feito em colaboração com as Pastorais Familiar e Vocacional da comunidade. É sempre bom dedicar um grande espaço à espiritualidade matrimonial e sacerdotal, reforçando o que dizia acima, em encontros realizados com casais, com jovens, e, particularmente com adolescentes da catequese crismal. É importante ajudá-los a reconhecer que a vida cristã, seja matrimonial ou sacerdotal, sempre é alimentada pelo Espírito Santo e que, mesmo em diferentes modos de viver, é sempre caminho de amor, de oblação da vida a Deus e de santidade.

Além disso, é de suma importância que a espiritualidade seja ressaltada no momento celebrativo de cada um desses sacramentos. Neste caso, a necessidade de preparar celebrações belas e alegres, como requer um momento tão especial para aqueles que estão iniciando uma nova etapa em suas vidas. Celebrações marcadas muito mais pela fé e pela oração e, menos pela dimensão teatral e espetacular. A beleza da espiritualidade não é ostensiva; é simples e belamente sóbria.

Serginho Valle

Março de 2021

 

1 de mai. de 2021

Sacramentos medicinais

Assim como o cuidado com a vida corporal necessita, de tempos em tempos, de alguma medicina, de algum remédio, o mesmo acontece com a vida espiritual. Também a vida espiritual sente necessidade de ser socorrida com alguma medicina, com algum remédio de ordem espiritual. Do ponto de vista litúrgico, a Igreja presta socorro medicinal nas e pelas celebrações do Sacramento da Penitência e do Sacramentos da Unção dos Enfermos. Um adendo: os dois sacramentos medicinais cuidam do espirito e do corpo, neste caso mais especificamente, a Unção dos Enfermos. 
        O caminho e a caminhada são dois símbolos muito caros aos cristãos usados para descrever a vida cristã e a pedagogia no discipulado. O discípulo e discípula cristãos caminham na “estrada de Jesus”, como rezamos na Oração Eucarística V. A “estrada de Jesus” é a estrada do Evangelho, é o próprio Evangelho. Um caminho seguro e com a garantia de vida plena e de vida totalmente realizada. 
          Mas, como acontece em todos os caminhos e caminhadas onde colocamos nossas vidas, dada nossa condição humana, os desvios de rota, cansaços e debilidades são, para a maior parte de nós, inevitáveis. Os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos ajudam e favorecem a retomada do caminho e da caminhada de quem se desviou ou daquele que caiu nas malhas do pecado. São dois sacramentos celebrados para fortalecer as fraquezas que a vida humana enfrenta tanto no corpo como no espírito. 
        As debilidades e fraquezas na vida cristã podem ser espirituais, psicológicas, morais e corporais. Quem cai no pecado ou vive no pecado é um enfraquecido do ponto vista espiritual e debilitado no plano psicológico. Quem tem a experiência sacerdotal de celebrar o perdão, no Sacramento da Penitência, sabe que muitos problemas psicológicos estão relacionados ao pecado ou a uma situação pecaminosa. Hoje, não resta dúvida que a ausência ou carência de uma moral iluminada pela luz do Evangelho é causa de desvio de conduta e de transtornos psicológicos e comportamentais. 
         Do ponto de vista da fraqueza corporal (doença), a maior parte das pessoas experimenta — quase que naturalmente, eu diria — a debilidade psicológica. A doença grave ou a ameaça de alguma doença sempre mexe com o emocional e com o psicológico da pessoa. Todos percebemos isso, de modo muito claro, na experiência da pandemia, em 2020 e 2021. A fraqueza corporal, a debilidade física tem relação com a debilidade psicológica. Em socorro destas fraquezas vêm os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos. Disto a importância e a necessidade de serem bem celebrados, especialmente celebrados com calma e em clima de oração. 
        Não é sem motivo, por estes poucos argumentos que propus, que os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos são conhecidos como sacramentos medicinais. São apresentados aos cristãos como reforço na caminhada, como remédio na caminhada existencial, para que a pessoa enfraquecida possa recuperar a boa estrada ou recuperar o vigor da saúde de conviver entre os irmãos e irmãs, “se for da vontade de Deus”, como diz o Ritual da Unção dos Enfermos. 
        Celebrar estes sacramentos, do ponto de vista espiritual, especialmente do ponto de vista da espiritualidade litúrgica, é buscar uma “medicina” da qual Deus é o dispensador em modo pleno e benéfico. Ele concede o remédio do perdão, que perdoa e reconcilia; ele revigora com o remédio da cura ou do consolo fortalecedor do óleo o resgate da vida, lá onde a força corporal fraqueja.

Serginho Valle
Maio de 2021

 

17 de abr. de 2021

Motu proprio Spiritus Domini

 

O Motu Próprio Spiritus Domini, de Papa Francisco, publicado em 10 de janeiro de 2021, sobre a mudança do cânone 230 do Código de Direito Canônico, é uma norma disciplinar litúrgica referente aos ministérios do leitorato e do acolitato.

Não podemos negar que, de certo modo, trata-se de formalidade disciplinar, uma vez que o ministério do leitorato e do acolitado já são exercidos há anos por mulheres em toda a Igreja. No Brasil, esta é uma práxis comum, natural, na Pastoral Litúrgica de nossas comunidades.

O que é alterado, com o motu proprio de Papa Francisco, é o cânone 230, do Código de Direito Canônico. O cânone 230 inicia-se dizendo:

 

 “§1. Os leigos varões que tiverem idade e as qualidades por decreto da Conferência dos Bispos, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico prescrito, para os ministérios de leitor e de acólito.”

 

A mudança, a partir do motu proprio de Papa Francisco, é a exclusão do termo “leigos varões”, exclusão da palavra “varões” (homens). O novo texto passa a ser redigido desse modo:

 

“Os leigos que tiverem a idade e as aptidões determinadas com decreto pela Conferência Episcopal, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico estabelecido, nos ministérios de leitores e de acólitos; no entanto, tal concessão não lhes atribui o direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja.”

 

O texto modificado mantém o critério e a condição da idade. O que significa? Que existe uma idade própria para o leitorato e acolitato? Inúmeras comunidades têm crianças exercendo o ministério do leitorato e, neste caso, elas poderão continuar no exercício desta atividade? Quanto ao acolitato, a idade leva a entender que seja exercido por jovens de caminhada e adultos.

 

Ministérios conferidos pela Igreja

É preciso notar que, no caso do leitorato, não se trata, unicamente de “fazer leituras” nas celebrações litúrgicas. O ministério do leitorato é mais amplo e seu exercício ministerial não se limita unicamente à Liturgia da Palavra. O foco está na importância que a Igreja dá ao leitor, a ponto de criar um ministério instituído. Não se improvisam leitores, escolhendo-os antes da celebração e nem se escolhem leitores “democraticamente”, como se diz, perguntando antes da celebração: alguém quer fazer uma leitura? O leitor é um ministério importante que implica não somente a leitura, mas o modo de viver. Quer dizer, vida coerente com aquilo que lê, com aquilo que proclama na celebração diante da assembleia. Além disso, o leitor instituído tem funções extras celebrativas, na catequese, por exemplo, em celebrações devocionais...

Tais elementos — entre outros — indicam que a escolha de alguém para exercer o ministério de leitor precisa levar em conta a idoneidade moral. O critério do ministério do leitor não está na oratória, isto é básico, mas no exemplo de vida cristã.

Quanto ao acolitato, este não tem nada a ver com coroinha. Hoje, muitos padres e leigos atuantes na Pastoral Litúrgica, inexplicavelmente — especialmente da parte de padres — confundem o ministério de ajudante do altar com o ministério de acólito.

O coroinha não é acólito. Ele exerce seu ministério como servidor do altar. O Acólito, comparando, exerce as atividades que os Ministros da distribuição Eucarística realizam na maior parte das nossas comunidades. O acólito, além de ajudar na celebração Eucarística, tem como função do seu ministério a distribuição da Eucaristia na Missa, como também levar a comunhão Eucarística para doentes e idosos.

 

Sinalização para outros ministérios

Vários teólogos e liturgistas consideram que o motu próprio Spiritus Domini aparece como sinalização de abertura para outros ministérios femininos, como o diaconato permanente, que já está em estudo na Igreja, desde o início do Pontificado de Francisco.

Causa estranheza comentários ao motu próprio relacionados a “igualdade de poder” entre homens e mulheres na Igreja. O motu próprio não está equiparando poderes, mesmo porque isso seria ridículo, em termos de Teologia Ministerial. O foco da paridade entre homens e mulheres encontra-se no Batismo (Gl 3,28). Isto vale tanto para a essência da vida cristã como para as atividades ministeriais, salvo aquelas em ordem disciplinar canônicas, como é o caso das ordenações.

O motu próprio, além das discussões acadêmicas, é uma oportunidade pedagógica para valorizar o leitorato e o acolitato em nossas comunidades. Lembrar, por exemplo, que a Liturgia da Palavra não é um rito de leituras, mas é celebração proclamadora da Palavra de Deus que, em tese, deve ser proclamada por quem a Igreja considera digno de exercer tal atividade pela coerência entre aquilo que vive e a Palavra que proclama. Da mesma forma, o exercício do acolitato orienta para a importância da Eucaristia na vida da comunidade, considerando especialmente a necessidade de distribuí-la entre aqueles que não podem se fazer presente na celebração Eucarística comunitária.  

Serginho Valle

Fevereiro de 2021

 

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