A formação e a espiritualidade litúrgicas são os pilares da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP)

A paz do Senhor!

A finalidade deste espaço é oferecer material de formação litúrgica para quem atua em ministérios litúrgicos na comunidade paroquial. Seja muito bem-vindo e bem-vinda. Se quiser e puder deixar sua contribuição, agradeço muito. (Serginho Valle)
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27 de nov. de 2021

Música Litúrgica para ouvir e para cantar


 

Existe uma particularidade com a música litúrgica que poucas vezes percebemos em nossas celebrações: a audição da música litúrgica. Sim, existem músicas que são para ser ouvidas como, por exemplo, o salmo responsorial. Em algumas situações, quando canta um coral polifônico, noutro exemplo, a música é escutada; acontece a participação pela audição da música. Em linguagem popular: curtir a música ouvindo.

Algumas distinções

A celebração litúrgica, por ser um ato comunitário, na maior parte das vezes pede que todos participem da música cantando; a assembleia não seja substituída por um grupo que canta sozinho na celebração. Algumas canções são tipicamente comunitárias, como acontece com as músicas rituais: “Senhor, tende piedade de nós, Glória, o refrão do Salmo responsorial, o Santo, Santo, Santo..., etc...” O ministério da música, neste caso, cumpre sua finalidade de ajudar os celebrantes a participar da celebração pelo canto e não cantar para a assembleia, substituindo-a. É o que definimos como “cantar a celebração”.

Algumas canções são presidenciais, quer dizer, o Presidente da celebração canta a canção. Por exemplo: as orações, como a coleta (oração do dia), sobre as oferendas... O diálogo prefacial — “O Senhor esteja convosco; corações ao alto...” — e o próprio Prefácio da Oração Eucarística é do presidente da Missa. O “Por Cristo, com Cristo....” também é do padre, mas o “Amém” conclusivo é uma canção para todos os celebrantes cantarem juntos. Neste caso, são canções para serem ouvidas; a assembleia participa ouvindo e cantando o amém conclusivo.

Outra canção que, tradicionalmente, pertence a um ministro da celebração litúrgica é o Salmo Responsorial. O salmista canta o salmo e a assembleia participa da canção cantando o refrão. Outras intervenções próprias do salmista são as antífonas de entrada, da aclamação ao Evangelho e a antífona da comunhão. Neste caso, como na referência ao padre, os celebrantes não cantam; ouvem e participam dos refrões.

 

Um lembrete sempre válido

Preste atenção neste texto escrito por Ione Buyst: “Um grupo de cantores ou um coral podem dar suporte ao canto da assembleia. Podem ainda executar ou cantar a várias vozes, harmonizando com a voz da assembleia. Podem ainda executar sozinhos alguma peça mais rebuscada (principalmente em dias de festa); por ex., após a homilia, relacionada com a própria homilia e o evangelho, ou após a comunhão, prolongando a meditação contemplativa. Jamais, porém, podem substituir o canto da assembleia.”

 

            Sim, jamais substituir “o canto da assembleia” excetuando o que foi proposto. Em alguns ritos, a assembleia ouve a música e reza pela audição. Na celebração existem músicas para ouvir e para cantar.

Serginho Valle
Novembro 2021

 

23 de out. de 2021

Música sacra, música litúrgica


A música sacra é “parte integrante da solene liturgia”, e para tanto responde a alguns critérios fundamentais: a santidade — “será tanto mais santa, quanto mais estiver unida à ação litúrgica” — (SC 112).

Beleza 
“Não deveria haver na celebração uma música que não fosse uma verdadeira obra de arte” (Pio X).

Universalidade 
Ajudar os celebrantes de todas as culturas a se identificar na celebração através da música.

             Citei três critérios, que considero básicos na compreensão da música e para sua finalidade na Liturgia: santidade, beleza, identidade cultural. Existe um quarto critério que deve ser incluído, ao meu ver: a espiritualidade litúrgica.

            Dizer que a música é parte integrante da celebração litúrgica é considerar que a música faz parte da celebração juntamente com a palavra, com os gestos, com os sinais e símbolos. É dizer que a música não é um “opcional” da celebração e nem uma decoração. É dizer que a Liturgia celebra com palavras, gestos, música, espaços... Perceba que o termo usado é “juntamente com”, o que significa que, não é nem mais e nem menos importante; reforça dizer que a música faz parte e compõe a celebração. A música não é o elemento principal, embora seja, depois da palavra, o modo mais utilizado na comunicação litúrgica e aquela que tem a capacidade de dar um colorido especial e festivo à celebração.

            Considerando a Liturgia, do ponto de vista celebrativo e não ritual, não se pode pensar a celebração litúrgica sem a música, principalmente quando se considera que a música é rito, no que se denomina de música ritual. Tudo isso, faz-nos compreender duas coisas importantes: qualquer música não serve e, é imprópria a ideia de fazer uma folha de cantos que sirva para todas as Missas da comunidade. Por que? Primeiramente, porque cada celebração tem uma característica próprio, enfoque ou contexto diferentes, como dizemos em nossas propostas celebrativas do SAL – Serviço de Animação Litúrgica (www.liturgia.pro.br ). Mas tem um detalhe a mais, que precisamos atender.

            Uma vez que existem leituras diferentes nas celebrações, uma vez que não se faz a mesma homilia e nem as mesmas motivações nas Missas, uma vez que existem propostas simbólicas diferentes para cada Missa... entende-se que a música não pode ser um elemento estranho na celebração; a música é parte integrante daquela celebração como um todo e, como um todo colabora para a que a celebração seja uma unidade: palavras, símbolos, sinais, música e gestos celebrando o mesmo Mistério Pascal de Cristo, sempre iluminado por diferentes contextos.

            Outro dato que gostaria de chamar atenção, como parte integrante da Liturgia, é o fato que algumas músicas têm finalidade didática; ajudam os celebrantes a compreender o que estão celebrando. Exemplo: o canto de entrada “é o exórdio, a abertura solene da celebração; é a preparação dos fiéis” para a missa (...) “Este canto introduz os fiéis no mistério de comunhão com Cristo, desperta-os e os prepara para ouvir a Palavra de Deus e participar dignamente da Eucaristia” (CNBB, estudo 12, p. 12-13).

            Ainda na dimensão didática da música, podemos considerar a escolha da canção que irá acompanhar o rito da partilha, na Comunhão Eucarística dos celebrantes. É uma canção escolhida à luz da Palavra, especialmente com o Evangelho. Se o Evangelho, por exemplo, fala de caridade, a canção escolhida cantará a caridade na vida cristã; se o Evangelho fala de justiça, a canção da comunhão cantará a justiça do Reino. Entende-se que a canção escolhida tem o papel didático de unir o Evangelho à comunhão, comprometendo o celebrante a viver aquilo que ouviu e a vida divina que comunga na Eucaristia.

Aqueles três critérios, mais um, citados no início desse artigo — santidade, beleza, identidade cultural — tornam-se compreensíveis nos pontos referidos. Sendo a Liturgia a “ação sagrada (santa) por excelência na Igreja” (SC 7), entende-se que a música deve refletir poeticamente a santidade da Liturgia. Sendo a comunicação litúrgica composta basicamente pela linguagem artística, a música cantada na celebração deve resplandecer pela beleza da arte musical. Uma vez que a celebração acontece num contexto cultural próprio, a identidade musical deve ser refletida no modo de cantar e executar a música.

Serginho Valle
Setembro de 2021

 

 

 

 

9 de out. de 2021

Nem toda música é litúrgica


Nem todas as músicas servem para ser cantadas numa celebração litúrgica. Mesmo que mencionem Deus ou falem de amor ou, até mesmo tenham uma bela mensagem... nem toda música serve para a Liturgia. De modo mais aviltante, algumas celebrações matrimoniais, por exemplo, sem algum critério litúrgico, cantam músicas que são temas de um personagem de novela, ou cantam algum hit que está no sucesso do momento. A Liturgia não se rege pelo sucesso, mas pelo Mistério que celebra.

Não estamos discutindo a qualidade da música, mas a finalidade e a função da música na celebração litúrgica. Em algumas comunidades, infelizmente, encontramos o ministério da música cantando músicas bonitas, mas impróprias para a celebração da Missa. Com intenções ou finalidades que não correspondem ao Mistério celebrado, alguns músicos valorizam mais a música que a celebração. Este é um modo de desafinar, não a música, mas a celebração.

 

Cantar “A” celebração ou “NA” celebração

            Há alguns anos, apareceu uma música que fez sucesso em algumas assembleias litúrgicas: “Anjos de Deus”. Foi uma prova e tanto para o ministério de música das comunidades, pois foi possível verificar quem deles cantava “a” celebração e quem cantava “na” celebração. A distinção encontra-se no “a celebração” e “na celebração”.

Os primeiros, aqueles ministérios de música que “cantam a celebração”, analisaram a letra da canção evangélica “Anjos de Deus” e perceberam algumas contradições com a Teologia Litúrgica da Missa. Perceberam incompatibilidades de anjo que faz barulho e a necessidade de ouvir barulhos angelicais para abrir o coração e oferecer a oração a Deus. Uma canção, da autoria do Pastor Elizeu Gomes que, em 1996, depois de uma grande polêmica por direitos autorais e de gravação, afirmou à revista Veja que a música é do repertório evangélico e não católico.

Os segundos, aqueles ministérios de música que “cantam na celebração”, não viram problema em cantar esta música na Missa, inclusive na hora da comunhão. Não estudaram a canção; importaram-se mais com o agitado e gostoso ritmo da música e adotaram este critério para cantar a canção. Outros, se serviram do critério do sucesso que a canção fazia, embalada por Missas na TV, que “pretensamente” justificava cantar esta canção na celebração da Eucaristia.

Quem conhece a canção “Anjos de Deus”, e gosta de música ritmada, a classifica como uma música bonita e envolvente. Mas este não é o único critério litúrgico para que uma canção possa acompanhar um rito celebrativo, seja da Missa ou dos demais Sacramentos. No caso exemplar da música que estamos mencionando, quem conhece Liturgia entende que as celebrações não se caracterizam pelo barulho de anjos levando nossas preces ao Pai. Quem conduz nossas preces ao Pai é Jesus, nosso único mediador, como sempre concluímos as orações: “por Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo”.

É bom e necessário cantar músicas agradáveis em nossas celebrações, mas isso significa que qualquer música sirva para ser cantada na Liturgia.

Serginho Valle

Agosto de 2021

 

2 de out. de 2021

A música litúrgica em debate


Uma das questões mais debatidas em encontros formativos de Liturgia é a música. Tem de tudo um pouco. Desde comunidades com um excelente ministério de música, até comunidades onde um músico precisa salvar a pátria sozinho, caso contrário ninguém canta nas celebrações. Outra realidade é aquela de comunidades com grupos musicais que dominam e não aceitam sequer sugestões, seja de quem for. Existem comunidades com grupos musicais que pesquisam, fazem cursos e melhoram a olhos vistos aprendendo e se aprimorando na arte da música litúrgica. 

Por fim — para a lista não ficar longa demais — existem grupos de música que tocam nas igrejas como se estivessem num salão de festas, com som alto e com falta de critério na escolha das músicas. De outro lado, e felizmente, existem ministérios de músicos que fazem os celebrantes cantar, usam os instrumentos como acompanhamento e cantam com a arte que a comunicação litúrgica exige.

 

A música cantada pelos celebrantes

E os celebrantes? Também aqui temos de tudo um pouco. Comunidades onde ninguém abre a boca. Um grupo de músicos ou um coral canta por eles e eles limitam-se a escutar. Culpa de quem? Dos celebrantes que não querem cantar ou dos músicos que preferem cantar sozinhos? Depende! Não vou entrar no mérito desse fato.

Mas, tem também comunidades onde os celebrantes cantam e não se importam com ensaios para aprender canções novas. Existem comunidades onde só as mulheres cantam. Em outras, comunidades, o coral de mulheres e homens cantando é afinado a duas ou mais vozes, ou alterando, em modo dialogado: ora cantam as mulheres, ora os homens. Estas últimas, são comunidades que tratam a música litúrgica como arte e como oração. Na retaguarda de tais comunidades está um ministério da música que trabalha com amor e carinho para comunicar-se bem e ajudar a assembleia a rezar cantando.

 Como se canta a Liturgia

Por último, a questão de como se canta a Liturgia. Estou falando de cantar a Liturgia; não apenas cantar na celebração, mas cantar a Liturgia, cantar a celebração.

Em algumas Missas, grupos musicais e até ministérios de música não favorecem cantar a celebração, mesmo que sejam músicas conhecidas. Ou porque cantam alto demais, ou porque são desafinados ou porque introduzem variações que valorizam mais os instrumentos que as vozes.

Em outras missas, alguns corais ainda não compreenderam sua função ministerial na Missa como servidores dos celebrantes para cantar ritos ou acompanhar ritos com as canções. São grupos musicais e ministérios de música que fazem apresentações na Missa e transformam a música litúrgica em concerto sem a mínima chance de a assembleia participar da celebração cantando.

Mas, graças a Deus, temos também comunidades onde as celebrações, nas quais o modo de cantar é artístico e com muito bom gosto. Mais que cantar por cantar, nestas últimas comunidades se reza cantando e se canta louvando a Deus.

             Chamo atenção que distingo entre grupos de músicos e Ministério da Música. O grupo de músicos vai na Missa, toca, canta e vai embora. O Ministério da Música cultiva a Música Litúrgica, sua espiritualidade, sua arte e sua oração. Dedica-se à música litúrgica pelo estudo e pela partilha da arte musical nas celebrações.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

25 de jan. de 2020

Dimensão orante do canto de comunhão



Dentre os critérios propostos para escolher o canto de comunhão, um deles é a dimensão orante. A escolha do canto de comunhão pode estar relacionada com a Liturgia da Palavra, pode inspirar-se em algum compromisso existencial, derivado do Evangelho, um compromisso eclesial, como é o caso da Campanha da Fraternidade, ou outro critério condizente. Peço permissão para chamar sua atenção para o critério orante na escolha de um canto de comunhão.
            É preciso esclarecer que não se trata de um canto de adoração Eucarística. Aquelas são canções destinadas a momentos adoradores ao Santíssimo Sacramento. A dimensão orante, que me refiro, tem a ver com acompanhar a procissão da comunhão rezando com a canção. Isto acontece de modo especial pelo canto de um salmo. Um exemplo muito fácil para compreender o que digo: se o Evangelho relata a atividade do Bom Pastor, uma excelente escolha para cantar durante a procissão da comunhão seria o Sl 22, seja na versão Bíblica, seja nas versões poetizadas que conhecemos em nossas comunidades.
A dimensão orante, ou a inspiração orante, para escolher a canção que acompanha o rito processional da comunhão deveria e poderia estar mais presente, especialmente naquelas celebrações que a Liturgia da Palavra favorece a opção por uma canção orante. Uma boa inspiração, neste sentido, encontra-se no salmo responsorial, que sendo orante, pode facilitar a escolha. Não se trata, evidentemente, de repetir o salmo responsorial, mas de inspirar-se nele para escolher uma canção orante. Se, por exemplo, o salmo responsorial for o Sl 25, a canção “A ti meu Deus, elevo meu coração”, é uma excelente proposta.
Isso torna-se mais fácil quando o ministério da música conhece as canções, não somente pela letra, mas pela inspiração Bíblica. Infelizmente, este é um exercício que poucos músicos fazem: o exercício de meditar a poesia da canção, de rezar a canção inspirando-se em textos Bíblicos. Se isso acontecesse de modo sistemático, não assistiríamos a triste cena do ministério da música, minutos antes da Missa, escolhendo afobados o que cantar na celebração, muitas vezes com escolhas desconectadas do contexto celebrativo. O critério é cantar rezando e para isso é preciso conhecer a dimensão orante das canções.

Canto de comunhão é canto comunitário
Fomos acostumados, ou ensinados, a entrar na fila da comunhão, comungar, voltar ao nosso lugar e ficar em silêncio, para rezar silenciosamente. Para quem gosta de colocar interrogações do tipo certo-errado, aviso que não está errado fazer isso. Tal procedimento é fruto de uma espiritualidade individualista que perdura na celebração litúrgica, a qual se caracteriza como oração comunitária. É a dificuldade de perceber que se trata de comungar comunitariamente a vida divina, no Pão e no Vinho consagrados, e — caminhando juntos até a Mesa da Eucaristia — comungar a vida de quem celebra, unidos na mesma prece, na mesma mesa, na mesma canção. O rito da comunhão Eucarística não prima pela individualidade, mas pela comunhão, pela fraternidade comunitária. Uma das finalidades do canto de comunhão é expressar a comunhão fraterna.
O momento da oração individual depois da comunhão não está descartado na Liturgia Eucarística. O silêncio acontece depois da comunhão, iniciado quanto os ministros do ministério da música (músicos) param de exercer seu ministério para comungar. É o silêncio pós-comunhão, contemplado nas Instruções Gerais do Missal Romano (IGMR 43; 88). Infelizmente, muitas comunidades adotaram o costume de dar comunhão aos músicos antes dos celebrantes. Invertem assim o momento do silêncio. Aliás, a Liturgia prevê silêncio antes de comungar deste a oração secreta, feita somente pelo padre, em silêncio. Algumas comunidades introduziram esta oração para o povo, impedindo o silêncio preparatório dos celebrantes.
O serviço ministerial da música prevê que os músicos comunguem depois que todos celebrantes comungaram, já que durante o rito da partilha Eucarística, estão servindo pelo exercício do seu ministério musical, tocando e cantando.
Repito, o rito da comunhão Eucarística é um rito comunitário, de uma Igreja viva, Corpo Místico de Cristo, que vai ao altar para comungar o Sacramento do Corpo de Cristo como Igreja que caminha. Por isso, o canto de comunhão, naquelas celebrações que assim favorecem, deveria ser escolhido e cantado como oração comunitária, da qual toda a assembleia participa. Depois que todos cantam, então sim, a Liturgia Eucarística prevê um tempo de silêncio para a oração pessoal. Tenho percebido que muitos padres, por algum motivo, ignoram ou desprezam o silêncio pós-comunhão, esquecendo que o silêncio é parte integrante da Missa e, a pós-comunhão se caracteriza como rito silencioso, por um breve momento, para a oração pessoal.
Serginho Valle
Janeiro 2020

12 de out. de 2018

Qualidade artística na música litúrgica


A qualidade da música litúrgica tem sido e continua sendo motivo de estudos, principalmente no que respeita às composições e à execução. Quanto às composições, esta comporta a qualidade poética das letras e as qualidades harmônica e melódica. Outro elemento diz respeito à simplicidade da canção em vista de favorecer, não somente sua execução, mas também a participação ativa da assembléia que se identifica com melodias fáceis e poesias orantes.
No que respeita à execução, esta comporta mais especificamente aos músicos que harmonizam a canção com seus instrumentos e com a voz, com o modo de cantar e de conduzir a assembléia para que esta participe da canção. Para tais finalidades a Liturgia se serve de orientações propostas pela Igreja.
Mas, de nada adianta observar as orientações litúrgicas se a execução musical carecer da parte artística. Arte na composição e arte no modo de executar a música litúrgica na e com a assembléia. A execução do canto litúrgico não se torna mais bonito e atraente unicamente pela observância das prescrições litúrgicas, mas pela qualidade artística na execução musical durante as celebrações. Isto tem a ver com o cuidado pelo respeito de cada momento celebrativo, do clima que envolve cada rito. Quando este cuidado é respeitado, então sim acontece a afinação e a harmonização entre o que propõe a Igreja e o modo como a música é executada.
É importante que os músicos cantem bem, e isso significa cantar a Liturgia com o espírito próprio de cada celebração e de cada rito. Cantar bem, na Liturgia, significa cantar afinado e cantar com a arte musical litúrgica; isto tem a ver com a sensibilidade de não cantar para uma platéia, mas cantar favorecendo nos celebrantes a participação ativa de cada rito e da celebração em sua totalidade. A arte litúrgica desaparece no inconveniente de instrumentos tocando muito alto, instrumentos de percussão invadindo ritos de clima silencioso, como o ato penitencial ou, em caso de celebrações mais particulares, como aquelas da Quinta-feira Santa, ou de Sexta-feira Santa. Imagine como se torna cansativa a longa Vigília Pascal sendo cantada com instrumentos em alto volume, com cantores cantando de modo inadequado, isto é, sem a arte que a música litúrgica exige para a ocasião.
O mesmo se diga de outros sacramentos, dos quais o mais notório é a celebração matrimonial. Neste caso, o lado profissional de quem é contratado pode salvar o artístico, mas, infelizmente, os músicos profissionais dos casamentos nem sempre cantam liturgicamente, nem pelo repertório de muitos deles e nem pelo modo como cantam. Nem sempre cantam a celebração, mas cantam por pagamento e assim anulam a gratuidade do louvor.
Tudo isso são pequenos detalhes que, no grande contexto litúrgico musical, desfavorecem o espírito celebrativo próprio de cada celebração.

A qualidade começa na preparação
            Uma boa preparação para cantar a celebração Litúrgica passa, necessariamente, pela oração, pela meditação, pela dedicação de tempo para ensaio e tempo para estudo de cada celebração. Sem tais preparativos, a canção cantada na Liturgia corre o sério risco de ser um elemento que compõe o contexto celebrativo, mas carente de espírito orante capaz de impulsionar a participação plena e consciente, como é o ideal e a proposta de cada celebração.
Para escolher bem a canção e para cantá-la com espírito orante, é importante meditar a canção, a partir da Palavra de Deus, envolvendo-a em clima de oração e de silêncio, para que a canção cante, primeiramente, no coração do próprio músico. Quando nossos músicos aprenderem a rezar a canção antes de a cantarem nas celebrações, estes começarão a ter uma nova compreensão do que significa cantar a Liturgia e, com a graça de Deus, ajudarão os celebrantes a melhor participar de modo consciente e orante o que se celebra. Quando nossos músicos souberem meditar a celebração a partir das músicas que comporão cada Liturgia, terão mais condições de favorecer o espírito orante em cada canção cantada nas celebrações.
Isto explica, e ajuda entender, porque o Ministério da Música não é formado por profissionais pagos para tocar na celebração; não são pagos, porque o ministério da música é um serviço que não tem e vista favorecer um elemento decorativo na celebração, a arte musical, mas ser um elemento artístico para favorecer a participação consciente no momento celebrativo.
O Ministério da Música, na celebração litúrgica, é formado por pessoas que fazem da música um apostolado, um modo de evangelizar sem fazer show, sem querer dar show, por compreender que a finalidade do seu ministério (serviço) tem como finalidade o favorecimento da participação plena, ativa e consciente dos celebrantes na ação litúrgica. Não somente a participação ativa, no sentido de fazer com que todos cantem, mas no sentido de transformar a música artisticamente cantada em oração. Eis o desafio de cada Ministério da Música em nossas comunidades.
Serginho Valle
Agosto 2018



28 de out. de 2016

IGMR 294b – O espaço celebrativo do Ministério de Música


“Os fiéis e o grupo dos cantores ocuparão lugares que lhes favoreçam uma participação ativa.”

Como proposto anteriormente, sobre os espaços ministeriais, a IGMR 294 faz sua primeira referência ao espaço ministerial referindo-se aos participantes do Ministério da Música. Uma referência bastante interessante e com uma finalidade bem precisa: para que os músicos e cantores sejam favorecidos pela participação ativa deles e da assembléia. Uma primeira indicação, muito clara, aliás, que o Ministério da Música participa da celebração, repudiando o comportamento de alguns músicos que estão na celebração somente para cantar.  

Coral e coro
Antes da reforma litúrgica (1963), os músicos tinham seu espaço no fundo da igreja, num local mais elevado, que até hoje se denomina de “coro”. Isto é decorrência que ali ficava o coral. Havia uma finalidade prática, de sonorização, para aquela disposição: fazer com que o som ecoasse de cima para baixo preenchendo todo o espaço da igreja. 
Uma segunda finalidade dizia respeito a não exibição de cantores. O espaço central da igreja, para onde se dirigem todos os olhares, sempre foi o altar. Os cantores de corais, que se distinguiam pela arte musical de cantar em muitas vozes, eram colaboradores da beleza celebrativa em vista da participação orante e não artistas a serem admirados. Belo e bonito, mas não na frente para não confundir a celebração com concerto musical. O mesmo princípio continua válido para nossos tempos.

Finalidade do espaço celebrativo dos músicos
O conceito de coro e coral começou a mudar depois da reforma litúrgica. A Liturgia trouxe os músicos para a nave da igreja, mas não de frente para a assembléia. Eles também não ficam escondidos, porque precisam comunicar-se, precisam estabelecer contato visual com os celebrantes, reunidos na assembléia. Mas não sobem ao presbitério colocando-se de frente para os celebrantes. A Liturgia destina aos músicos um local apropriado com duas finalidades: exercer comunicativamente bem seu ministério e participar ativamente da celebração Eucarística. Em resumo, existe um espaço ministerial e celebrativo para os músicos.
Com tal mudança, a Liturgia está dizendo que os músicos fazem parte da assembléia, por isso estão no mesmo nível físico (no mesmo piso) da assembléia e não acima, evitando confundir com palco. Os músicos não participam da celebração para apresentar-se, mas para servir; colocam sua arte musical a serviço da assembléia litúrgica. Compreende-se, assim, que não é nada de litúrgico querer ocupar o presbítero e dali “animar” a assembléia.
O espaço musical, portanto, expressa o modo como o músico e o ministério da música participam da celebração: como parte da assembléia celebrante e como servidores para ajudar os celebrantes a participar cantando.
Serginho Valle
Outubro de 2016


7 de set. de 2016

Salmista


Salmista é um ministério litúrgico que atua na Liturgia da Palavra. Não só na Liturgia da Palavra, mas também em outros momentos celebrativos, como é o caso do canto das antífonas de entrada, da aclamação ao Evangelho e da comunhão.
Na Liturgia da Palavra, o salmista atua em dois momentos: no canto do salmo responsorial e na aclamação ao Evangelho, cantando a antífona da aclamação ao Evangelho, no rito que acolhe o Evangelho. No salmo responsorial, o salmista poderá atuar cantando ou recitando salmicamente o salmo proposto.

Requisitos ministeriais
Uma das principais exigências do salmista, do ponto de vista musical, é saber salmodiar cantando. É uma arte que não diz respeito unicamente ao saber cantar, ao ser afinado e ritmado na arte musical, mas de conhecer a arte de cantar salmos para interpretá-los naquilo que são: poemas orantes. Atualmente, as composições salmicas facilitam bastante esta arte. Antigamente, havia uma exigência maior, considerando a arte de cantar o gregoriano. Um bom salmista, em nossos tempos, sabe salmodiar em gregoriano e com os tons atuais.
Outro requisito ministerial do salmista, especialmente para aqueles que não se afinam na arte musical, é a arte declamativa. Neste caso, o salmista proclama a salmo declamando a poesia em modo salmico. É uma arte que exige o conhecimento da retórica e da métrica dos poemas com os quais foram escritos os salmos.
Em ambos os casos, a arte de lidar com os salmos, seja cantando ou declamando, vem oferecendo boas propostas, com publicações de livros e CDs de novas composições. Também existem livros e estudos sobre a métrica dos salmos. É importante levar em consideração tais requisitos para não se improvisar neste momento poético da Liturgia da Palavra.

O espaço celebrativo e a veste do ministério do salmista
O espaço celebrativo e comunicativo do salmista é o ambão ou Mesa da Palavra. O salmo é Palavra de Deus proclamada de modo poético, cantada, com a assembléia, do ambão. Para isso e por isso o salmista coloca-se diante da assembléia para proclamar o salmo responsorial e não fica escondido ou misturado no meio do ministério da música. Até hoje, não encontrei nenhuma justificativa convincente para se proclamar o salmo misturado (escondido) com o Ministério da Música.
Da mesma forma como os ministros da Palavra se vestem com uma veste litúrgica, também o salmista exerce seu ministério revestido com uma veste litúrgica onde assim se apresentam os ministros da Palavra. Onde isto não é adotado, o salmista se apresenta vestido adequadamente para o ministério que irá exercer na Liturgia.

Escolher e formar salmistas
Por se tratar de um momento ritual marcado especialmente pela poesia orante, como se caracterizam os salmos, concluo incentivando as equipes de celebrações a escolherem e proporem formação adequada à pessoas que dominam a arte da música, seja pela afinação como pela interpretação. Da mesma forma, incentivo a escolher e propor formação a quem domina a arte retórica da declamação poética. Na Liturgia da Palavra, o salmo por não ser recitado em conjunto (todos juntos) pede salmistas bem preparados seja na arte musical como da retórica.
Serginho Valle

2016

24 de jun. de 2016

Importância do canto na Missa – IGMR 41


Em igualdade de condições, o canto gregoriano ocupa o primeiro lugar, como próprio da Liturgia romana. Outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos, contanto que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica e favoreçam a participação de todos os fiéis. 
Uma vez que se realizam sempre mais frequentemente reuniões internacionais de fiéis, convém que aprendam a cantar juntos em latim ao menos algumas partes do Ordinário da Missa, principalmente o símbolo da fé e a oração do Senhor, empregando-se melodias mais simples.

            A reforma litúrgica realizada pelo Concílio Vaticano II (1963) não excluiu a primazia do canto gregoriano para a Liturgia romana. Considera-se nisso a poesia do canto gregoriano, fortemente fundamentada na Sagrada Escritura, e a sua linha melódica, qual uma pedagogia orante que murmura preces em forma de música. Do ponto de vista comunicativo, o canto gregoriano, graças a sua linha melódica, calma e declamativa, favorece a oração pessoal e torna a celebração mais serena. Outra característica do canto gregoriano, ainda do ponto de vista comunicativo, é prioridade da voz humana sobre os instrumentos. No canto gregoriano é a voz humana que se eleva a Deus e os instrumentos musicais aparecem apenas como um sussurro, um suporte do tom melódico da canção.
            Mesmo priorizando o canto gregoriano, a Igreja não exclui outros gêneros musicais, desde que sejam considerados dignos da ação litúrgica. Para isto devem estar dentro do espírito litúrgico, que não é de exibição de músicas, mas da música como rito celebrativo e celebrante. Sobre a questão do “espírito litúrgico”, a IGMR 41 propõe o critério do favorecimento da participação dos fiéis. Mas, podemos acrescentar outros, como por exemplo, o favorecimento da oração, a música como meio de louvor e de adoração, a música como rito suplicante do perdão e de ação de graças. Com isso, algumas canções com critérios diferentes destes, como mensagens de auto-ajuda ou algo parecido, não se adéquam ao espírito da celebração litúrgica.
Dentre os gêneros musicais a serem preservados na Liturgia a IGMR 41 cita também o canto polifônico, presente na Liturgia latina durante muitos séculos, com a presença de grandes corais. Mesmo assim, neste particular, a Missa não é um momento para ouvir corais cantando, de onde a necessidade de encontrar meios com os quais os celebrantes possam participar de canções cantadas em Missas com a presença de corais.
            Por fim, o último parágrafo orienta em vista de uma participação mais completa, digamos assim, em celebrações com caráter internacional, tendo na língua latina um fator de unidade em alguns ritos celebrativos. Tem sua razão de ser, pois o latim continua sendo a língua oficial da Liturgia Romana, inclusive para as traduções de textos litúrgicos.
Serginho Valle

2016

10 de jun. de 2016

Importância do canto na Missa – IGMR 39


O Apóstolo aconselha os fiéis, que se reúnem em assembléia para aguardar a vinda do Senhor, a cantarem juntos salmos, hinos e cânticos espirituais (cf. Cl 3, 16), pois o canto constitui um sinal de alegria do coração (cf. At 2, 46). Por isso, dizia com razão Santo Agostinho: “Cantar é próprio de quem ama”, e há um provérbio antigo que afirma: “Quem canta bem, reza duas vezes”.


A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) dedica três parágrafos para falar da importância do canto na Missa, a partir do n. 39. Do ponto de vista comunicacional, que é a luz com a qual estamos lendo a IGMR neste espaço, o canto ocupa um lugar de destaque, fundamentado biblicamente, nas citações referidas no texto. Existem muitas outras referências bíblicas sobre a importância na música na Liturgia, mas nos deteremos nas referências da IGMR 39.

A primeira coisa que chama atenção é o fato que a música constitui um elemento importante na comunicação celebrativa da Missa, como também na celebração de outros sacramentos. Mas, não se trata de qualquer música. A proposta é cantar canções que se caracterizem pela esperança vigilante, aguardando a vinda do Senhor, em espírito de alegria, na referência dos Atos dos Apóstolos. Não mensagens de auto-ajuda, podemos dizer, mas poesias que nos deixam atentos para o clamor litúrgico que sempre intercede: “vinde, Senhor Jesus!”

Quanto ao conteúdo poético das canções, estes são descritos em três categorias: salmos, hinos e cânticos espirituais. A Igreja sempre propôs, em seu hinário, salmos para as partes móveis da Missa: salmo introdutório ou salmo invitatório, para acompanhar a procissão de entrada; salmo ofertorial, para a procissão das oferendas e, salmo de ação de graças para a procissão da comunhão. O Missal faz referência a isso propondo somente as antífonas, pois os salmos encontram-se em outro livro, chamado Gradual.

Os hinos, que Paulo faz referência escrevendo aos Colossenses, também são de inspiração bíblica e cantam em suas poesias o Mistério Pascal de Cristo e as obras da Salvação divina. A música litúrgica, em sua hinografia, não se caracteriza como música com poemas de mensagem, mas como poesia memorial, isto é, que faz memória dos acontecimentos divinos em favor da Salvação do povo. Juntamente com os hinos, estão os cânticos espirituais, que se caracterizam como canções de louvor, de adoração e de súplica a Deus. Considerando deste ponto de vista, a música litúrgica se distingue como canções dirigidas a Deus, no contexto celebrativo de cada celebração e de cada tempo litúrgico.

Por fim, a iGMR 39 faz referência a dois elementos da comunicação musical: a expressão de amor e a “oração duplicada”, se assim podemos dizer. É pela canção que expressamos nosso amor a alguém, como facilmente se percebe no cancioneiro popular. É pelas canções que, igualmente, demonstramos nosso amor a Deus. Quanto a “oração duplicada”, por sua vez, esta reforça a característica orante que a música litúrgica tem em. Não é uma música para catequizar e nem mesmo propor uma teologia, por exemplo (pior quando se pretende passar uma ideologia), mas é uma música para se rezar na assembléia celebrativa, cantando orações, súplicas, louvores, adoração e glorificações a Deus.

Serginho Valle

8 de jun. de 2016

A música litúrgica nos ritos iniciais da Missa


Os ritos iniciais compreendem desde a procissão de ingresso até a coleta (oração do dia). São ritos caracterizados pela simplicidade e pela brevidade, com a finalidade de introduzir os celebrantes no contexto celebrativo próprio de cada celebração, através do acolhimento, da purificação interior, do louvor e da súplica. Isto diz respeito particularmente os ritos inicias das Missas Dominicais.
            Quanto ao espaço musical, a tradição litúrgica reserva três canções para os ritos iniciais: a canção que acompanha a procissão de ingresso, o canto laudativo do Kyrie eleison e o canto da glorificação inicial, com a doxologia do “Gloria in excelsis”. Isto é bem visualizado nas celebrações pontifícias, especialmente aquelas celebradas no Vaticano e nas celebrações solenes de algumas catedrais e abadias. Algumas comunidades paroquiais também criaram o costume de realizar uma Missa solene aos Domingos, que conserva tal estrutura.

Canto inicial ou de abertura
            O canto inicial tem a finalidade de acompanhar a procissão dos ministros. Não é um canto de acolhimento dos ministros, como teimosamente muitos insistem em seus convites de “ficar de pé para, cantando, acolher o padre e seus ministros”. Sobre isto, convido para ler o meu artigo “Acolhamos o celebrante”, publicado aqui, neste blogue.
O canto inicial é uma canção introdutória da celebração, escolhida a partir da antífona de entrada ou da Palavra do dia, ou ainda, da memória festiva ou solene da celebração.  Desta canção participam todos os celebrantes presentes na igreja, juntamente com os ministros. Ambos representam a Igreja caminhando em procissão ao encontro do Senhor Jesus, presente no altar. Neste sentido, uma das características do canto inicial é o de ser uma canção processional. Do ponto de vista comunicativo, o bom senso pede que seja uma canção pouco ritmada e calma, para não prejudicar a serenidade própria dos ritos iniciais e não cansar os celebrantes antes mesmo da celebração iniciar.

Kyrie eleison
            Quanto ao Kyrie, trata-se de uma canção laudativa com caráter proclamativo. Serve para louvar e proclamar o Senhorio (Kyrie) e a unção divina de Jesus pelo Espírito. Proclama-se que Jesus é o Kiryos (o Senhor) e o ungido (Christós) do Pai. Não se equipara, portanto, com a invocação “Senhor, tende piedade de nós”, como sugere (na tradução portuguesa) a um canto penitencial. Trata-se de um canto de exaltação da parte da assembléia que reconhece Jesus como Senhor e como Cristo, o ungido de Deus. Equivocam-se, liturgicamente falando, aqueles que cantam somente o “Senhor tende piedade de nós” como canto penitencial, uma vez que não é canto penitencial. Torna-se penitencial quando acompanhado de uma súplica penitencial. Esta é, digamos, uma “confusão” iniciada a partir da reforma do Vaticano II, com a inclusão de ritos penitenciais invocativos com o “Senhor, tende piedade de nós” e, inclusive omitindo o Kyrie, quando assim ocorre. Hoje, a confusão aumenta com composições que cantam o original Kyrie e Christe no ato penitencial.
            A confusão pode ter origem na súplica que intercede a piedade divina. Ora, esta piedade não pode ser traduzida unicamente em função das faltas cometidas pelos celebrantes. A piedade divina é um modo com o qual Deus nos ama com amor misericordioso. Invocar a piedade divina é nos colocar na condição de criaturas, que reconhece a piedade divina presente no Senhorio de Jesus Cristo (Kyrios), aquele que foi ungido pelo Espírito Santo de Deus (Christos). Esta dimensão criatural, que canta o Kyrios de Jesus Cristo, é facilmente percebida na melodia solene de tantos tons gregorianos.


Glória in excelsis
            O canto do glória tem a peculiaridade de ser um rito próprio de glorificação a Deus, no início da celebração. É também um modo de adorar a Deus, glorificando-o em sua santidade e reconhecendo que somente Deus é Deus e não existe nenhum outro além dele.
A Igreja propõe no Missal uma única forma de glória — o “Gloria in excelsis Deo” (Glória a Deus nas alturas) — mas aceita outras fórmulas que se equiparem a esta, desde que sejam devidamente aprovadas pelas Conferências Episcopais e, em alguns casos, por Roma. Algumas canções usadas atualmente neste rito nem sempre são litúrgicas. Hoje, alguns liturgistas defendem outras fórmulas de louvor inicial, mas ainda sem a aprovação de Roma.
Tanto o Kyrie, entendido como canto de louvação ao Senhorio de Jesus Cristo, como o glória, enquanto canto de glorificação, caracterizam os ritos iniciais como ritos que introduzem os celebrantes diante de Deus, reconhecendo com seus louvores e glorificações que estão diante de Deus. Neste sentido, não tem nada a ver com cantos de animações, pois são orações laudativas.

Outras canções
            Entre nós, aqui no Brasil, foram introduzidas outras canções nos ritos iniciais, como o Sinal da Cruz e o ato penitencial. Somadas às três comentadas acima, todo o rito inicial pode ser musicado, incluindo a saudação inicial do padre e a coleta que conclui os ritos iniciais. É uma possibilidade também presente no Missal Romano e por isso viável para os ritos iniciais. Mas, me permitam algumas considerações.
            A primeira é quanto ao número de canções que, quando excessivas, do ponto de vista da comunicação litúrgica, não cumpre a finalidade dos ritos iniciais. O princípio da comunicação litúrgica, nos ritos iniciais, é introduzir os celebrantes no Mistério que será celebrado. Como dito acima, entende-se que tal introdução favoreça o silêncio, a calma e a tranqüilidade. O excesso de músicas pode provocar a dispersão e o cansaço, o que não é conveniente no início de um processo comunicativo como o da celebração litúrgica da Missa. Por isso, em algumas assembléias pode-se acrescentar uma ou mais canções, mas em outras, como em assembléias de crianças, por exemplo, isso não é recomendado.
            Outra consideração é quanto ao estilo de música. Se entendemos a finalidade dos ritos iniciais, as músicas mais apropriadas para este momento são aquelas menos agitadas e com um tom capaz de acalmar em vez de movimentar e agitar. Por isso, bater palmas, introduzir danças e coreografias podem prejudicar o andamento geral da celebração, além de estender os ritos iniciais (breves por natureza) a um tempo desproporcional e prejudicial ao equilíbrio celebrativo.
            Minha terceira consideração é quanto ao modo de instrumentalizar as canções. Refiro-me principalmente ao canto do ato penitencial, acompanhado de pandeiros, baterias e tambores. É um momento orante, de súplica de perdão, que deve ser respeitado pelos instrumentistas, facilitando a oração dos celebrantes com uma canção e com instrumentos adequados. Pandeiros, tambores e baterias servem, nos ritos iniciais (se bem tocados), para o canto de entrada e do glória, não para o ato penitencial, por exemplo.

Conclusão
            Os ritos iniciais são caracterizados como breves e introdutórios à celebração. Por isso, recheá-los de canções é um modo de torná-los pesados e seu prolongamento prejudica o equilíbrio temporal da celebração, quebrando, desde o seu início, o ritmo de toda a celebração.
(Serginho Valle)





27 de abr. de 2016

Os 30 pecados do músico católico


Há um bom tempo atrás, quando Pe. Joãzinho, scj, ainda era seminarista e meu aluno, e me acompanhava nos cursos de Liturgia por este Brasil afora, nos momentos livres dos cursos ou durante as dinâmicas de grupos, aproveitávamos para escrever frases de efeito. Às vezes, mais que frases surgiam listas, como estas dos 30 pecados do músico católico, que está publicada em vários sites católicos e de outras Igrejas cristãs.


Desde então, reconheço que muita coisa mudou, mas nem tanto como eu gostaria, principalmente entre aqueles que colocam seus talentos musicais a serviço da Liturgia e dos celebrantes. Infelizmente, os 30 pecados do músico católico não mudaram muito, porque ainda persiste em muitos ministérios de música a tentação do show durante as celebrações. E onde há tentação, existem duas possibilidades: ou se foge do pecado ou se cai na tentação e se peca. Por isso, é preciso continuar rezando: “não nos deixeis cair em tentação”.

Da parte dos músicos: não cair em tentação de transformar a Liturgia num espaço de exibicionismo pessoal ou de um grupo. Da parte dos celebrantes: não cair na tentação de passar a celebração murmurando pela baixa qualidade, pelas desafinações, pelas barulheiras e por repertórios que nada tem a ver com a celebração e pela impossibilidade de participar da celebração cantando que alguns ministérios de música proporcionam. Quando isso acontece, a desafinação celebrativa é inevitável.

Sempre é tempo de melhorar. Sempre é tempo de esperar que os músicos, na Liturgia, sejam ministros, isto é, servidores da Liturgia e servidores dos celebrantes, para que todos possam louvar a Deus com canções e ao som dos instrumentos.
(Serginho Valle)


1- Fazer do altar um palco
2- Impor sempre seu gosto pessoal
3- Cantar por cantar
4- "Só toco se for do meu jeito"
5- Ir sempre contra a idéia da equipe de celebração e do padre
6- Escolher sempre as mesmas músicas
7- Nunca sorrir
8- Usar instrumentos desafinados
9- Tocar músicas de novela em casamento
10- Afinar (ou dedilhar) os instrumentos durante a missa
11- Colocar letra religiosa em música da "parada" (sucesso do momento)
12- Nunca estudar liturgia
13- Não prestar atenção na poesia (letra) do canto
14- Não ler o Evangelho da celebração para escolher as músicas
15- Cantar forte demais no microfone – (o seu microfone é sempre o mais alto)
16- Volume dos instrumentos muito acima do volume dos microfones
17- Coral que canta sozinho e faz os celebrantes só ouvirem
18- Cantar só para exibir-se (estrelismo)
19- Distrair a assembléia com conversas paralelas durante a missa
20- Não avisar ao padre que partes fixas da celebração serão cantadas
21- Nunca ensaiar novas canções nem estudar o instrumento que ministra (voz, violão,
teclado...)
22- Ensaiar antes da missa
23- Cantar músicas desconhecidas
24- Usar roupa bem extravagante, que chame a atenção
25- Fazer de conta que está em um show de rock
26- Perder contato com a assembléia
27- Músicas fora da realidade e do contexto do tempo litúrgico
28- Fazer o máximo de barulho
29- Não ter vida interior,  não rezar com o Ministério e promover uma falsa humildade
30- Repetir no fim de cada celebração: "vocês são ótimos, eu sou o máximo!



Serginho Valle e Pe. Joãozinho, scj

13 de abr. de 2016

Canto de entrada


A Missa Dominical, em especial, tem início com uma procissão acompanhada por um canto denominado “canto de entrada”. Toda a assembléia, de pé, é convidada a acompanhar a procissão inicial cantando.
            Os cantos que cantamos nas Missas são partes integrantes da celebração Eucarística.  Cada parte da Missa, portanto, exige um canto que seja de acordo com o momento celebrativo. Entendemos, pois, que o canto de entrada deve reunir características desse momento da Missa: ser um canto processional que conduz ou que acompanha a Igreja, presente na assembléia reunida, até o altar do Senhor. Em princípio não se trata de um canto de abertura da celebração, pois a abertura acontece com a procissão inicial, mas de acompanhamento da procissão inicial. Aponto três características do canto de entrada.
            Por ser o momento inicial, a primeira característica do canto de entrada é favorecer o clima que a celebração exige. No tempo de Natal, o canto de entrada criará um clima natalino, numa Missa de ação de graças, o canto de entrada será alegre; caso seja uma Missa exequial, terá o tom da esperança, por exemplo. É importante ter presente essa primeira característica da celebração, para que desde seu início esteja afinada com o clima celebrativo que envolverá os celebrantes no decorrer de toda a celebração. Nas celebrações dominicais do Tempo Comum, o canto de entrada pode ser escolhido a partir da Palavra, que poderá ser para um Domingo ou para vários Domingos. Quem ilumina a escolha do canto de entrada é a Palavra e não um tema, mesmo em tempos de Domingos temáticos.
            Outra característica do canto de entrada, como mencionado, vem do rito realizado; é um rito processional. Isto significa que a segunda característica do canto de entrada na Missa é ser processional, quer dizer, tem a finalidade de acompanhar a procissão inicial, a procissão de ingresso, que abre a celebração. É um canto que tem a duração da procissão de entrada. Não que seja pecado estender o canto de entrada cantando uma estrofe a mais, depois que o padre estiver na cadeira presidencial... mas não é necessário. Existem, contudo, algumas exceções que prolongam o canto de entrada, como por exemplo, quando houver o rito de incensação do altar. Neste caso, o canto de entrada continua sendo cantado até que o padre esteja na cadeira presidencial. Isto faz compreender que o canto de entrada pertence a um rito e o acompanha até que termine, com a posição do padre na cadeira presidencial para iniciar a Missa.
            Por fim, uma terceira característica. Uma vez que não é possível que todos os celebrantes tomem parte da procissão de entrada, como comentamos em recente artigo, a participação na canção é um modo simbólico dos celebrantes se fazerem caminhantes até o altar. A terceira característica, portanto, é que todos cantem o “canto de entrada”, nem que seja somente o refrão. Do ponto de vista celebrativo, o canto de entrada não é para ser ouvido, mas para ser um cantado por todos, estando todos de pé, símbolo de quem caminha. Em assim sendo, o ministério de música tem o dever pastoral de escolher uma canção conhecida para que toda a assembléia possa cantar.

Serginho Valle

12 de ago. de 2015

Rock na celebração litúrgica?


Talvez me chamem de cafona ou me qualifiquem com qualquer outro adjetivo juvenil da moda, por me indispor a certos ritmos populares nas celebrações litúrgicas.             
Nunca, nem em minha juventude, gostei de rock, especialmente do chamado “rock pesado”. Para mim é gritaria e agressividade sonora sem graça. Mas, reconheço que se trata de gosto pessoal, que defendo com o conhecido provérbio latino “de gustibus et coloribus non disputandum est”. (“A respeito de cores e gostos não se discute”).  
Há quem defenda o ritmo roqueiro nas Missas para atrair jovens. Discordo deste princípio pastoral; se música fosse a solução para atrair jovens para as celebrações, tudo seria bem mais fácil. A música tem, sim, sua função evangelizadora, mas não a solução no quesito presença e participação em celebrações litúrgicas. Não gosto do barulho agressor do rock; entendo que promove dispersão e dificulta a oração, impedindo o recolhimento silencioso que, ao meu ver, é essencial para uma participação consciente, ativa e efetiva na celebração.
Os jovens que curtem rock e outros ritmos semelhantes têm muitos (e tantos) outros locais para ouvir sua música barulhenta. Disto a Liturgia pode sentir-se dispensada. Invés de oferecer barulho, é mais pastoral que a Igreja ofereça-lhes espaço e oportunidades onde possam silenciar, neste mundo tão barulhento, no qual vivem e convivem. Os jovens podem, sim, ser atraídos para a celebração pela música, desde que esta seja um diferencial, uma música diferente, capaz de transmitir uma mensagem diferente, a ponto de acalmar e cantar em seus corações com acordes de ternura e de paz, de prece e de consolo.
Música litúrgica não tem conotações agressivas, nem no ritmo e nem na letra. E, mesmo considerando que a letra seja poetizada com conteúdos bíblicos, a agressividade barulhenta do ritmo roqueiro, ou de outro de igual naipe, a abafa com a agressão de baterias e de guitarras no último volume. A música litúrgica não tem a finalidade de atordoar os sentidos auditivos para promover transe; tem a finalidade de acalmar, de pacificar o coração e colocar em estado de quietude todos os sentidos para se encontrar com a paz divina, na oração, na meditação celebrativa. Por estes, e outros mais, não considero o rock um ritmo adequado para a celebração litúrgica.
O argumento maior de minha recusa ao rock nas celebrações, além dos propostos acima, está na finalidade da música litúrgica na ato celebrativo: cantar a celebração com canções e ritmos que condizem com a celebração do culto divino, com canções e ritmos que favoreçam a beleza nas formas e possibilitam o clima orante (MS 4-5) e introduza os celebrantes na participação plena do Mistério Pascal celebrado.
(Serginho Valle)