A formação e a espiritualidade litúrgicas são os pilares da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP)

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27 de abr. de 2026

Da celebração ao testemunho da vida cristã


 


Existe um caminho que a Liturgia vai desenhando, de forma silenciosa, no coração de quem a celebra de modo orante. Não é caminho teórico, nem apenas devocional. É um itinerário espiritual que começa no encontro com Deus e continua, inevitavelmente, no TESTEMUNHO da vida cristã. A Igreja denomina esse caminho como mistagógico. É uma pedagogia, um processo de iniciar e conduzir o celebrante da Liturgia, passo a passo, no Mistério celebrado e a com ele se comprometer através do TESTEMUNHO de vida. Comumente, este processo é descrito como transformar em vida aquilo que liturgicamente é celebrado. Isso é possível, como venho insistindo, com celebrações evangelizadas e evangelizadoras.

 

Ao longo das celebrações do mês de junho de 2026 — da Solenidade de Corpus Christi à Solenidade de São Pedro e São Paulo — a Igreja conduz mistagogicamente os celebrantes a compreender que a fé não pode permanecer na celebração. Ela precisa ganhar forma na existência cotidiana do celebrante para se transformar em TESTEMUNHO da vida cristã. Para destacar este aspecto, a pedagogia mistagógica das propostas celebrativas do SAL, de junho de 2026, ilumina-se com a luz do TESTEMUNHO cristão. A Liturgia é fonte da vida cristã testemunhal.

 

 

Eucaristia e amor: fontes do testemunho da vida cristã

Na celebração de Corpus Christi, a Palavra propõe a Eucaristia como ponto de chegada do caminho cristão que caminhamos na estrada de Jesus (discipulado) e como ponto de partida (2L – Corpus Christi). A Eucaristia é fonte da vida cristã. Quem se alimenta do Corpo de Cristo “recebe” Jesus — faz comunhão com ele — e se compromete a entrar num processo de configuração para pensar, sentir e agir com o mesmo Coração de Jesus na partilha da vida. Na Eucaristia, o pão repartido ensina a viver “repartidos”, repartindo vida, pela doação do serviço fraterno. E, assim, o TESTEMUNHO começa a nascer: partilhando na vida os valores do Evangelho: fraternidade, paz, alegria, acolhimento e proximidade...

 

A experiência da configuração ao Coração de Jesus é contemplada na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, com a Liturgia conduzindo ao centro daquilo que Deus é: “Deus é amor” (2L - SCJ). Não o amor compreendido como sentimento ou emoção, mas o amor como “energia” que impulsiona, que se movimenta em modo transformador, que toma iniciativa em favor da vida digna. É o amor que arde e transforma por dentro. Parafraseando Santo Agostinho: “o coração é o lugar onde Deus fala ao homem e o homem responde a Deus.” O cristão e a cristã testemunham o Evangelho na vida cristã à medida que modelam seus corações no Coração de Jesus. Quem é amado aprende a amar e testemunha alegremente a vida cristã. O TESTEMUNHO da vida cristã não é fruto de uma teoria ou de alguma doutrina; é consequência da experiência do amor divino na vida pessoal.

 

 

O caminho do discipulado iluminado pela misericórdia

Ao retomar o Tempo Comum, a Liturgia mistagogicamente conduz os celebrantes a assumir o compromisso testemunhal do Evangelho pelo chamado vocacional. No chamado de Mateus (E - 10DTC-A), encontra-se o chamado de todos os batizados e batizadas: chamados e chamadas para o seguimento de Jesus no discipulado. Mateus, com sua resposta demonstra que o seguimento de Jesus exige reorganização e ressignificação da própria existência pelo deslocamento de um modo de viver para outro estilo de vida. O discipulado é caminho, é convivência, é processo existencial iluminado pelo Evangelho. Essa dinâmica propõe um novo estilo de vida.

 

O 10DTC-A apresenta também um critério imprescindível do TESTEMUNHO da vida cristã: a misericórdia: “Quero misericórdia e não sacrifício” (1L - 10DTC-A). Aqui, a Liturgia nos coloca diante de um ponto decisivo. O TESTEMUNHO cristão não se mede por práticas externas, pelo volume quantitativo de práticas devotas, mas pela capacidade de viver a misericórdia nas relações pessoais e sociais. É no cotidiano que a fé se torna visível, se transforma em TESTEMUNHO vivo de quem é discípulo e discípula de Jesus. Em continuidade, a Liturgia aprofunda ainda mais: a misericórdia acolhida se transforma em missão. Jesus olha a multidão e se compadece, seu coração se enche de misericórdia (E - 11DTC-A). Não lança um olhar distante, é próximo e comprometido; é o olhar misericordioso que provoca a missão do TESTEMUNHO da vida cristã.

 

É da compaixão misericordiosa que nasce o envio: “Ide” (E - 12DTC-A). Ir para onde e de que modo? Ir para o meio da sociedade para viver testemunhando o Evangelho. O discípulo e a discípula, pelo TESTEMUNHO, prolongam a ação de Cristo na sociedade, iluminando suas vidas na misericórdia proposta no Evangelho. Evangelizar é tornar visível (em atitudes de misericórdia) o amor que se experimenta no seguimento de Jesus. É aqui que o TESTEMUNHO ganha densidade: deixa de ser palavra e se torna presença social e, mais que isso, presença transformadora na sociedade.

 

 

Testemunho diante das provações e rejeições sociais

Mas o caminho não para aí. A Liturgia se torna realista ao colocar diante dos celebrantes a necessidade da firmeza da fé para testemunhar o Evangelho no momento da prova. O testemunho será confrontado e rejeitado muitas vezes. Haverá rejeição, incompreensão, resistência (E - 12DTC-A). É justamente nesse ponto que a fé se purifica e é fortalecida no TESTEMUNHO do Evangelho, através da fé coerente que se manifesta pela perseverança, coragem, confiança e decisões concretas. Permanecer firme no testemunho, mesmo sem compreender certas provações; confiar, mesmo em meio a receios e ansiedades; seguir, mesmo indo contra a corrente: é quando o TESTEMUNHO amadurece e se torna ainda mais necessário.

 

Todos os atributos de resistência presentes no 12DTC-A continuam sendo propostos na Solenidade de São Pedro e São Paulo, apresentados não como heróis inalcançáveis, mas como exemplares cristãos que fizeram o caminho testemunhal com firmeza e como prova de profundo amor por Jesus e pelo seu Evangelho. Encontraram Jesus Cristo, deixaram-se transformar, enfrentaram provações e permaneceram firmes. Pedro, sustentado na fragilidade, torna-se pedra, fundamento da fé para confirmar a fé de toda a Igreja (E - Pedro e Paulo). Paulo, como testemunho perseverante no bom combate da fé (2L - Pedro e Paulo). Ambos revelam que o TESTEMUNHO cristão não é perfeição, mas fidelidade em todas as circunstâncias existenciais. Não é ausência de quedas, mas permanência no caminho, mesmo quando as quedas acontecem.

 

 

Concluindo...

As propostas celebrativas de junho de 2026 convergem para uma finalidade da pedagogia mistagógica: a Liturgia forma o coração do discípulo e da discípula para TESTEMUNHAR a vida cristã em qualquer situação existencial. São celebrações que dizem que um coração configurado no Coração divino não consegue viver de qualquer maneira. Ele se torna sensível, misericordioso, firme, disponível e fortalecido diante das provações. Ele se torna TESTEMUNHA da vida cristã.

 

Talvez possamos colocar uma pergunta honesta: a participação na Liturgia está moldando minha vida a ponto de me fazer testemunhar o Evangelho e a fé com meu modo de viver? O modo como celebramos na comunidade promove o TESTEMUNHO cristão em toda a cidade?

Serginho Valle

Abril de 2026


23 de mar. de 2026

Fidelidade ao Projeto Divino: o caminho pascal da Igreja




Introdução: o coração do Tempo Pascal

Quando a Igreja celebra o Tempo Pascal, do ponto de vista mistagógico, está entrando, passo a passo, em uma verdadeira escola da espiritualidade cristã. A Ressurreição de Jesus revela algo decisivo: Deus é fiel ao seu projeto de vida para a humanidade. Jesus viveu essa fidelidade até o fim, entregando sua vida com radical confiança no Pai para que a humanidade tivesse vida abundante (Jo 10,10).

 

No Tríduo Pascal contemplamos dois movimentos que iluminam toda a vida cristã. Primeiro, a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai, a ponto de entregar a própria vida na cruz (5ª e 6ª Feira Santa). Depois, a fidelidade do Pai que não abandona o Filho na morte, ressuscitando-o, na Vigília Pascal e no Domingo da Páscoa. Esse é o fundamento da fé cristã.

 

A partir daí, depois de contemplar a fidelidade de Jesus ao projeto divino, começa um novo passo da pedagogia pascal: como essa fidelidade de Jesus é vivida pelos discípulos, pelas discípulas e pela comunidade cristã? É isso que a Liturgia do Tempo Pascal propõe aos celebrantes nas propostas celebrativas do SAL, conduzindo-os a compreender que a fidelidade o projeto divino, da parte dos discípulos e discípulas, consiste em oferecer vida plena a cada pessoa (Jo 10,10) através do serviço fraterno. 

 

O discipulado nasce da convivência com Jesus

A Liturgia do Tempo Pascal mostra que a fidelidade ao projeto divino, na vida do discípulo e discípula, não nasce de uma teoria religiosa, nem de uma Teologia ou doutrina, mas de uma experiência concreta com Jesus. A convivência com Jesus como que contamina o modo de viver do cristão e da cristã tornando-os fiéis ao projeto divino, a exemplo da fidelidade de Jesus, o que é se torna a condição para acolher a bem-aventurança do “crer sem ver” (E- 2DTP-A).

 

No 3DTP-A, Pedro testemunha sua fé a partir da convivência com o Senhor (1L - 3DTP-A). Ele não anuncia ideias, mas aquilo que viu e viveu da experiência convivial com Jesus. A fidelidade ao projeto de Deus nasce da proximidade com Cristo, da escuta da Palavra e da vida compartilhada com Ele. 

 

A mesma dinâmica aparece no caminho de Emaús (E - 3DTP-A). Dois discípulos decepcionados deixam a comunidade e vão embora. Estão desanimados e frustrados. Mas é justamente no caminho que Jesus se aproxima, começa a conviver com eles na distância de 11KM até Emaús, explicando as Escrituras e fazendo arder o coração deles (E - 3DTP-A). Os discípulos de Emaús participam de uma convivência com Jesus e ele lhes fala pela Palavra transmitindo a fidelidade divina para que testemunhem a ressurreição vivendo fielmente o projeto divino presente no Evangelho. 

 

Esse episódio revela algo muito atual: muitas pessoas também se afastam da comunidade por causa de frustrações ou decepções. É o favorecimento do encontro com Cristo Ressuscitado, na Palavra e na Eucaristia, que reacende a fé e faz renascer a fidelidade ao projeto divino. Os discípulos retornam de Emaús à comunidade e se tornam testemunhas da ressurreição. Nisso está a importância e a necessidade de celebrações preparadas em modo evangelizado e evangelizador. 

 

Palavra, caminho e libertação

Nos Domingos seguintes aos dois primeiros Domingos da Páscoa, que continuam ecoando o anúncio da ressurreição de Jesus, a Liturgia aprofunda o processo mistagógico nas propostas celebrativas do SAL conduzindo os celebrantes no seguimento de Jesus apresentando-o como Bom Pastor (4DTP-A). A fidelidade ao projeto divino passa pela escuta da Palavra e pelo seguimento de Jesus Bom Pastor.

 

Na condição de Bom Pastor, Jesus se apresenta como aquele que conduz a vida humana com segurança, oferecendo liberdade, segurança e alimento (E - 4DTP-A). Ele é o Pastor que liberta das gaiolas que aprisionam a existência. Retira da condição do medo para a vida abundante.

 

O salmista canta essa experiência com imagens muito fortes: Deus conduz por caminhos seguros, protege nos momentos de ameaça e prepara uma mesa abundante para seus seguidores (SR - 4DTP-A). É a promessa de que a vida humana não foi criada para o matadouro da injustiça, mas para a plenitude do amor. Indicativo claro que o discipulado não é um estilo de vida pesado, mas um caminho de libertação interior.

 

A fidelidade que se transforma em doação

Nos Domingos que antecedem as Solenidades da Ascensão e de Pentecostes, a Liturgia apresenta outro aspecto essencial da fidelidade ao projeto divino na vida dos discípulos e discípulas de Jesus ressuscitado: a doação da vida.

 

Durante a Última Ceia, Jesus revela que a fidelidade ao Pai conduz à comunhão profunda com a vida divina pela doação da vida (E - 5DTP-A). O estilo de vida no discipulado ouve a voz de Jesus para viver como Ele viveu: doando a vida. A Igreja, comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus é a comunidade viva de quem está comprometido na finalidade ao projeto divino pela doação da vida.

 

Essa fidelidade se manifesta especialmente no Mandamento Novo: amar como Jesus amou (E - 6DTP-A). Amar não na compreensão de sentimento, mas de atitude própria de quem, a exemplo do Mestre, vive na fidelidade ao projeto divino pela doação da própria vida. Na prática, e do ponto de vista eclesial, é a proposta de transformar a sociedade promovendo relacionamentos fraternos através da missão evangelizadora da Igreja.

 

A Igreja vive sua missão evangelizadora conduzida pelo Espírito “Defensor” prometido e enviado por Jesus (E – 6DTP-A). É pela presença do Espírito Santo na Igreja que ela se mantém na fidelidade ao projeto divino transformando o medo em coragem missionária da Igreja que é enviada em missão.

 

Igreja enviada em missão

O caminho pascal conduz naturalmente à missão. Na celebração da Ascensão de Jesus, a comunidade celebrante compreende que a obra iniciada por Cristo continua através da Igreja. Dizendo de outro modo: depois da Ascensão, a missão da Igreja é a mesma missão evangelizadora de Jesus. 

 

A Liturgia da Ascensão apresenta três dimensões na vida do discipulado: a adoração, a presença e a missão. Primeiro, a comunidade se prostra diante de Cristo reconhecendo-o como Senhor (E - Ascensão). Depois, recorda a promessa de que Ele continua presente, com diferentes modos de presença, no meio de seu povo. Por fim, escuta o envio missionário a toda a terra.

 

A fidelidade ao projeto divino, portanto, não está limitado a uma decisão da espiritualidade pessoal. É compromisso com a evangelização e com a construção de toda a comunidade eclesial e, de modo mais próximo de cada cristão e cristã da Igreja que vive o Evangelho no terreno da paróquia. 

 

Conclusão: Pentecostes, a fidelidade que renova a Igreja

Todo esse caminho encontra seu ponto culminante em Pentecostes. A Igreja reconhece que a Ressurreição de Jesus continua produzindo vida pela ação do Espírito Santo.

 

O Espírito é a presença viva de Deus que anima a Igreja, desperta a oração, inspira o louvor e sustenta a sua missão evangelizadora com todas as línguas da terra (1L - Pentecostes).

 

Pentecostes recorda que a Igreja não nasce de um projeto humano, mas do sopro de Deus. É o Espírito que reúne os discípulos e discípulas, fortalece a comunhão entre eles e os envia, como comunidade evangelizada para anunciar o Evangelho ao mundo. Ou seja, a evangelização, na condução do Espírito Santo, não é tarefa personalizada, mas participação na missão da Igreja. 

 

É em tal perspectiva teológica que a pedagogia mistagógica do Tempo Pascal, nas propostas celebrativas do SAL conduz os cristãos e as cristãs a uma decisão profunda: viver na fidelidade ao projeto divino a exemplo de Jesus através da doação da vida. Um projeto que oferece vida plena, constrói fraternidade e renova continuamente a Igreja em sua missão evangelizadora. 

 

E é exatamente isso que o Espírito continua fazendo hoje: renovar a face da terra e tornar sempre nova a missão da Igreja para que a renovação de toda a terra torne toda a humanidade cada vez mais humana.

Serginho Valle 
Março 2026


27 de fev. de 2026

A FIDELIDADE de Jesus explica o Tríduo Pascal


 


A pedagogia mistagógica do Tríduo Pascal nas propostas celebrativas do SAL à luz da FIDELIDADE ao projeto divino da vida plena.

 A pedagogia mistagógica presente nas celebrações do Tríduo Pascal é iluminada, neste ano de 2026, pela virtude da FIDELIDADE. No contexto celebrativo da Páscoa, a fidelidade é um tema de fácil compreensão considerando que Jesus vive seus últimos dias em total fidelidade ao projeto do Pai, oferecendo sua vida como alimento (Quinta-feira Santa) e, de modo ainda mais radical, oferecendo todo seu ser (Sexta-feira Santa) em FIDELIDADE ao projeto do Pai. A ressurreição, por sua vez, é uma resposta da FIDELIDADE paterna à obediência do Filho diante do projeto divino de fazer com todos os homens e mulheres participem da vida eterna (vida plena) (Vigília Pascal e Domingo da Páscoa).

Colocar a mão no arado e não olhar para trás 

Todos reconhecemos a FIDELIDADE divina com seu povo. Deus é apresentado como “fiel em todas as suas promessas” (cf. Sal 145,13; 1 Cor 1,9 — “Deus é fiel”). Deus permanece fiel mesmo quando o povo caminha em caminhos de infidelidade pela desobediência. A experiência de Israel mostra que Deus cumpre sua promessa, se mantém fiel ao projeto selado em aliança com o povo, mesmo diante de infidelidades (cf. Ex 34,6-7). A primeira luz a ser acesa para se compreender a pedagogia mistagógica do SAL, para o Tríduo Pascal deste ano de 2026, consiste em compreender o comportamento Jesus Cristo no decorrer do Tríduo Pascal, à luz da fidelidade ao projeto divino para com o povo em favor da vida plena. Como Jesus se comporta diante das ameaças ao projeto divino?

As decisões de Jesus, contemplados nas celebrações do Tríduo Pascal, são o retrato de um dos seus ensinamento: “ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). A “aptidão” para participar do projeto divino — o Reino de Deus — consiste na fidelidade de assumir o “arado” (projeto divino) e se manter firme, olhando em frente, independentemente dos desafios e provocações do terreno. Jesus permanece fiel até a morte na Cruz, cumprindo até ao fim a vontade do Pai (Fl 2,8). Se mantém firme; não olha para trás. A pedagogia mistagógica nas propostas celebrativas do SAL considera o ensinamento de Jesus sobre o assumir o arado, assumir o projeto divino de semear a vida plena (Jo 10,10) sem olhar para trás.

Celebrar a fidelidade de Jesus e comprometer-se 

A vida de Jesus foi vivida na fidelidade ao projeto divino, afirmando que se alimenta da fidelidade, vivendo na obediência à vontade divina (Jo 4,34). Na vida de Jesus, ser fiel ao projeto divino é a resposta amorosa que ele dá ao Pai diante da promessa do Pai em favor da redenção da vida humana. Na Teologia católica, a fidelidade expressa o amor divino derramado misericordiosamente em favor da humanidade, para que cada homem e cada mulher possam ser divinizados, tenham vida plena (vida eterna).

As celebrações do Tríduo Pascal, na pedagogia mistagógica das propostas celebrativas do SAL, neste ano de 2026, conduz os celebrantes a tomar contato com a finalidade de Jesus Cristo ao projeto divino, para se dispor a viver na mesma fidelidade ao projeto divino em suas vidas pessoais. A participação nas celebrações do Tríduo Pascal, no contexto mistagógico da fidelidade de Jesus torna-se, na vida de cada celebrante, um incentivo ao compromisso de fidelidade ao projeto divino que, não deixa de ser um chamado constante (2Ts 3,3; cf. 1Cor 1,9). Celebrar o Tríduo Pascal iluminando-o com a luz da fidelidade tem a finalidade fortalecer em cada celebrante a fidelidade pessoal ao mesmo projeto divino, na sua qualidade de discípulo e discípula de Jesus.

Autores que refletem a espiritualidade e a mística cristã são unânimes em dizer que a fidelidade é a virtude que permeia toda a vida do discípulo e da discípula de Jesus, considerando a entrega total de sua vida e a perseverança até o fim, a exemplo do Mestre, que pôs sua mão no arado e não olhou para trás.

A fidelidade ao projeto divino, do mesmo modo que a viveu Jesus, entregando sua vida, afasta o cristão e a cristã de tratar a religião de modo utilitarista, para assumi-la em modo de vivência e motivo para viver, especialmente caracterizado pela doação fraterna da vida em favor da vida de irmãos e irmãs. Assim aconteceu com Jesus e assim acontece quando se vive a vida cristã de modo autêntico, isto é, no discipulado.

O que caracteriza a fidelidade na vida cristã 

Existem vários temas que ajudam a compreender a fidelidade cristã. O primeiro deles é pelo acolhimento do Reino de Deus que, na pratica, é o projeto divino para a humanidade. O projeto divino do Reino de Deus é onde se encontram os valores, as orientações, as virtudes, os caminhos para a divinização que se traduz com a proposta do “sede perfeitos como o Pai e perfeito” (Mt 5,48), presente na conclusão do Sermão da Montanha, no qual Jesus propõe o programa do discipulado e sua finalidade: a divinização, a vida divina (vida eterna) na vida pessoal de cada discípulo e discípula.

A fidelidade cristã começa no acolhimento do Reino de Deus como orientação fundamental do viver humano (Mt 6,33) e irá se manifestar como atuação em forma de compromisso com a justiça, a paz, a caridade… Estes são valores que podem ser contemplados no modo como Jesus viveu sua vida, culminando na sua passagem pela Paixão, Morte e Ressurreição. Viveu em completa fidelidade e em profunda caridade para com a humanidade, propondo que isso seja continuado pelo serviço fraterno, no gesto do lava-pés (Quinta-feira Santa). 

Na vida cristã, a fidelidade ao Reino é central no caminho do discipulado em vista da configuração ao Mestre, vivendo em total disponibilidade de serviço fraterno. O discipulado é o modo natural, digamos assim, de viver a fidelidade ao projeto divino na vida cristã. Neste caso, não somente colocando em prática as orientações do Mestre, mas configurando-se a ele, que em tudo se fez obediente até a morte e morte de Cruz (Sexta-feira Santa). No discipulado, fidelidade diz respeito à perseverança em seguir Jesus para com ele configurar-se com todas as exigências derivantes do seguimento. A fidelidade, por exemplo, implica renúncia ao que afasta de Cristo e adesão constante à sua vontade; são as exigências da vocação cristã e a cooperação com a graça, obedecendo com coração sincero, como fez Jesus, em fazer em tudo a vontade de Deus.

Uma terceira característica é a relação entre fidelidade e missionariedade. A fidelidade cristã está intrinsecamente ligada à missão: a fidelidade que permanece em Cristo é também fidelidade ao mandato missionário (Mt 28,19-20). O discípulo fiel não guarda a fé para si, mas a anuncia, testemunha e partilha com alegria, perseverando na esperança e no serviço aos pobres e marginalizados. O episódio de Emaús, proclamado no Evangelho da Missa vespertina do Domingo da Pascoa, representa bem essa dimensão missionaria derivante da fidelidade ao projeto divino presente no Evangelho. Isso demonstra que a fidelidade cristã ao projeto divino não é apenas vertical (relação com Deus), mas também horizontal (relações humanas) e consiste no testemunho de viver com integridade, justiça, lealdade e caridade… tudo isso em espirito de serviço fraterno, colocando em pratica o Mandamento Novo (Quinta-feira santa). 

A pastoral e a fidelidade ao projeto divino 

A fidelidade ao projeto divino resulta também em atividades pastorais que tem como centro de suas atividades o projeto divino para favorecer, em todas as atividades pastorais, o encontro pessoal com Jesus Cristo, que é o fundamento de toda missão (Mc 1,17). Nestes sentido, as práticas pastorais não primam pela eficácia de gráficos em planilhas que anotam a quantidade de participações, mas pela fidelidade ao projeto divino em favor da vida humana e da vida de toda a criação, e isso não pode ser quantificado.

A fidelidade ao projeto divino, que resulta em atividades pastorais, se manifesta concretamente em forma compromisso de vida em favor de quem vive na comunidade, que se traduz em perseverança, coerência entre fé e atitudes concretas no serviço gratuitamente bondoso em promover, fraternalmente, qualidade de vida digna a todos, dando prioridade a quem se encontra em condições indignas. Neste aspecto, o lava-pés é o ensinamento mais visível para entender a pastoral como serviço em favor da vida. E isto é resultado de quem vive a fidelidade ao projeto divino.

Serginho Valle  
Fevereiro 2026

 

25 de out. de 2025

Dimensão escatológica da Liturgia — rumo ao céu


Escatologia e Liturgia
A Liturgia possui uma dimensão escatológica que é a meta existencial da vida cristã: os discípulos e discípulas de Jesus Cristo são peregrinos e têm como meta de suas vidas participar plenamente da santidade divina ou, em outra terminologia, participar da glória divina, da vida eterna. Essa participação se realiza de forma litúrgica, com uma eterna Liturgia de louvor, ação de graças e adoração como atestado no Apocalipse de São João. 

Isso faz compreender que as Liturgias que celebramos são “provisórias”, porque nosso destino é o céu, onde a Liturgia é eterna e perene. Em todas as celebrações Eucarísticas, professamos a fé e a esperança invocando a vinda do Senhor: “maranathá” — “Vem, Senhor Jesus” (cf. Ap 22,20) — como se expressa claramente nas aclamações da Oração Eucarística, precedidas pelo “Eis o mistério da fé” que sempre se conclui intercedendo a 2ª vinda do Senhor.


Duas características na celebração peregrina
A palavra “peregrino” apresenta duas características. Primeiramente, descreve pessoas que se colocam a caminho com um objetivo definido, que guia e orienta sua ação presente. Na passagem bíblica dos Reis Magos (cf. Mt 2,1-12), eles apresentam o objetivo de sua viagem diante de Herodes: “vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). O peregrino faz de sua peregrinação uma Liturgia, uma celebração com um objetivo claro, do ponto de vista religioso: fazer uma viagem (em modos de celebração) para encontrar-se com Deus em algum lugar determinado e adorá-lo.


Pode-se adorar em casa? Claro que sim, mas existe um objetivo celebrativo no coração do peregrino, que se dispõe ao esforço de uma viagem para encontrar-se com Deus em outro lugar. Trata-se de uma profecia da vida: peregrinamos — a vida é uma passagem (uma páscoa), uma peregrinação — que nos conduz a celebrar a Páscoa eterna com Deus. De Páscoa em Páscoa até a Páscoa definitiva. Assim compreendemos uma dimensão da espiritualidade litúrgica presente em nossas celebrações: sempre recordando que somos peregrinos.


A segunda característica, essa de ordem psicológica, é o desejo de chegar ao “templo” e experimentar a alegria de contemplá-lo. É o que retrata o salmista (Sl 121), um peregrino que expressa sua alegria e contentamento ao ver de longe o destino de sua peregrinação: “Que alegria quando me vieram dizer: ‘Vamos à casa do Senhor!’ Eis que nossos pés se detêm junto às tuas portas, Jerusalém!” (Sl 121,1-2). O estado psicológico do peregrino manifesta expectativa, alegria e contentamento quando se depara com o seu destino. Podemos aplicar o mesmo estado ao celebrante das Liturgias: celebrar com o coração desejoso e esperançoso de contemplar a “cidade santa” que é iluminada pela luz do Cordeiro (cf. Ap 21,23).


Tudo isso faz compreender que a celebração litúrgica é epifania da Igreja como povo em movimento, cuja verdadeira e duradoura pátria é o céu. As procissões realizadas durante as celebrações são ritos que recordam aos celebrantes, em sua linguagem ritual, breve e simbólica, a característica peregrina da Igreja. Isso é evidente na aclamação da Oração Eucarística V: “caminhamos na estrada de Jesus”. Os celebrantes são caminhantes na direção do encontro com o Pai, peregrinando para a Jerusalém Celeste, caminhando na “estrada de Jesus”.


Uma Teologia Pascal 
A Teologia do Ano Litúrgico é inteiramente pascal, no sentido de ser uma passagem, palavra indicativa de quem é peregrino e está de passagem. O Ano Litúrgico inicia celebrando a segunda vinda de Jesus Cristo nos dois primeiros Domingos do Advento e se conclui na Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, termo de chegada e destino final da Igreja, nos últimos Domingos do Tempo Comum em celebrações de caráter escatológico. O destino final é sempre a vida eterna, na casa do Pai, onde Jesus preparou um lugar para nos receber (cf. Jo 14,2-3).


A dimensão escatológica, presente nos últimos Domingos do Tempo Comum e nos dois primeiros Domingos do Advento, também se encontra na Festa de Todos os Santos e Santas (1º de novembro) e na Missa da Comemoração dos Fiéis Defuntos (2 de novembro). Na Festa, o destino escatológico da vida divina presente na Igreja triunfante e, na comemoração, o destino da vida humana não é ser enterrada, mas peregrinar para participar da santidade divina, na vida eterna. É a oração na absolvição do ato penitencial da Missa: “e nos conduza à vida eterna”.


Cada celebração litúrgica — algo ainda mais evidente nas celebrações Eucarísticas — recorda ao celebrante que ele tem um destino existencial.


Também a celebração da Penitência, em sua dimensão teológica pascal, convida o celebrante a corrigir a rota e voltar a caminhar na “estrada de Jesus” rumo à vida eterna sempre que se desvia da estrada que conduz ao destino da peregrinação.


Na Liturgia das celebrações da Iniciação Cristã é dado o primeiro passo da peregrinação em direção à casa do Pai. Em todas as celebrações litúrgicas se remete ao mesmo destino, como as celebrações dos Sacramentos do estado de vida (Ordem e Matrimônio) e nas celebrações medicinais (Penitência e Unção dos Enfermos). Todas lembram que somos peregrinos e caminhamos para a Jerusalém celeste.


Nossas celebrações são antegozo da eternidade 
Para concluir, consideremos o Catecismo da Igreja Católica, n. 1090:


“Na Liturgia terrestre, antegozando, participamos (já) da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, na qualidade de peregrinos, caminhamos. Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda a milícia do exército celestial, cantamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que ele, nossa vida, se manifeste e nós apareçamos com ele na glória.”


A dimensão escatológica da Liturgia diz continuamente aos celebrantes que a celebração jamais é uma atividade passiva, mas que sempre impulsiona a vida na direção do encontro com o Pai, onde Jesus preparou um lugar para nós (cf. Jo 14,2-3). Sobre este aspecto, o Missal propõe um “orate fratres” que resume a dimensão escatológica da Liturgia definindo-a como pausa restauradora: “orai, irmãos e irmãs, para que o sacrifício da Igreja, nesta pausa restauradora na CAMINHADA rumo ao céu, seja aceito por Deus Pai todo-poderoso.”  Somos celebrantes peregrinos que restauramos nossas forças celebrando a Liturgia.

Serginho Valle 
Outubro de 2025

 


23 de nov. de 2024

Renascer do alto: em busca da espiritualidade litúrgica


Nosso ponto de partida é a passagem do Apocalipse que diz: "quem é morno, eu vomito" (Ap 3,16). São João se refere aos cristãos e cristãs que, após terem contato com o Evangelho, não o assumem como estilo de vida. Essa postura provoca repulsa no “estômago divino” e leva a serem rejeitados. É uma expressão forte, sem dúvida, mas extremamente pertinente em todos os tempos. Não há espaço para a mornidão na vida cristã: ou se assume plenamente o Evangelho, ou se está fora do “coração” de Deus.

Aqui, o termo “estômago” carrega um simbolismo especial, remetendo ao lugar onde os alimentos são processados e se tornam fonte de energia para a vida. Assim também é o Evangelho: um alimento espiritual que precisa ser processado na vida espiritual de cada pessoa. Esse é um processo radical, porque, para Deus, não existe o meio-termo: ou somos d’Ele, ou não somos.

Assumir o Evangelho como alimento que gera saúde espiritual na vida cristã acontece em etapas. É um processo contínuo, não um evento único ou resultado de uma única experiência. Jesus nos ensina que é uma caminhada: começamos com um encontro transformador com Ele e seguimos adiante, até chegarmos à casa do Pai, onde existe um lugar preparado para aqueles que caminharam ao seu lado e se alimentaram do Evangelho (cf. Jo 14,2-4).

Esse processo envolve o anúncio inicial (querigma), a catequese e a mistagogia. Nesta reflexão, destaco especialmente a pedagogia mistagógica presente na Liturgia, nas celebrações dos Sacramentos e Sacramentais.

Fonte espiritual e espiritualidade
A vida cristã bebe de muitas fontes espirituais, como a meditação da Palavra de Deus, a oração, a leitura espiritual e a direção espiritual. Porém, a Liturgia é a fonte e o cume de toda a vida espiritual (cf. SC 10). No contexto atual, para muitos cristãos e cristãs, a Liturgia é a única fonte concreta de espiritualidade. Isso exige que a Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP) tome consciência de seu papel em ajudar os celebrantes a “renascer do alto”.

A celebração litúrgica é um momento privilegiado de encontro com Cristo, vivido em fraternidade, na assembleia celebrativa. É ali que pedimos: “accendat ardor cordis” — “fazei arder nossos corações” —, como aconteceu com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,32). Esse ardor não é apenas emocional, mas transforma o Evangelho em um estilo de vida, uma espiritualidade que molda o cotidiano.

Quando a celebração litúrgica reflete o caminho existencial dos celebrantes, o Evangelho torna-se realidade concreta, conduzindo-os a uma vida nova. Assim como os discípulos de Emaús voltaram correndo para anunciar a Ressurreição, também nós somos chamados a viver uma espiritualidade litúrgica que nos impulsiona a transformar a sociedade à luz do Evangelho.

Papa Francisco constantemente nos exorta à renovação da Igreja, colocando ênfase no caminho espiritual. Embora as estruturas pastorais sejam importantes, sua eficácia depende do suporte espiritual, alimentado pela Palavra de Deus e pela Liturgia.

Essa renovação exige celebrações evangelizadas e evangelizadoras, que envolvam os celebrantes no mistério do Evangelho. A Liturgia é o espaço onde o Evangelho não apenas é proclamado, mas celebrado, para que desça do ambão ao coração e transforme vidas. É nesse sentido que a Liturgia se torna fonte de espiritualidade e discipulado.

Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP)
Para que tudo isso aconteça, é necessária uma organização cuidadosa da Pastoral Litúrgica Paroquial. Seu objetivo é anunciar o Evangelho e formar discípulos e discípulas por meio da pedagogia mistagógica. Celebrar bem é colocar as pessoas no caminho de Jesus, tornando-as testemunhas do Evangelho na sociedade.

O Papa Francisco nos alerta contra a “desertificação espiritual” dos tempos atuais. Vivemos em uma cultura onde o poder financeiro é visto como a espiritualidade dominante. Contra essa realidade, a Liturgia nos convida a renascer do alto, pelo Espírito Santo, para viver segundo a lógica do Evangelho: simplicidade, gratuidade e caridade fraterna.

O Poço de Sicar
A cena do encontro de Jesus com a samaritana no poço de Sicar (cf. Jo 4,1-41) nos ajuda a compreender a dinâmica da Liturgia como fonte de espiritualidade. A samaritana representa toda a humanidade, em busca da “água viva” que dá sentido à vida. Na Liturgia, encontramos Jesus e somos saciados pelo Espírito Santo. É ali que bebemos da espiritualidade do Evangelho e somos transformados em discípulos e discípulas, capazes de testemunhar a caridade no mundo.

A Liturgia é, portanto, a fonte onde a humanidade encontra a água viva de Deus, renasce do alto e se torna capaz de pensar como Deus e agir com a lógica do Evangelho. É essa espiritualidade que nos permite enfrentar os desafios de hoje e ser luz no mundo.

Serginho Valle
Novembro 2024

26 de out. de 2024

Motivo e motivos para valorizar a dimensão evangelizadora da Liturgia



Vamos partir de um dado verificado e comentado por liturgistas, diretores espirituais, pregadores de retiro e pessoas que atuam no aconselhamento pastoral: a debilidade espiritual da vida cristã de um grande número de cristãos do século XXI. A debilidade espiritual na vida cristã e a ausência de fontes espirituais. Não a ausência de fontes, em sim, mas a não ativação dessas fontes para dessedentar a sede de espiritualidade na vida das pessoas. Uma dessas fontes é a Liturgia (SC 10).

São Paulo VI dizia que “a Liturgia é a primeira e mais importante escola espiritual da vida cristã”. O primeiro documento do Vaticano II — Sacrosanctum Concilium — foi dedicado à Liturgia e, se você atentar para a finalidade primeira da reforma litúrgica, vai perceber que a prioridade não se encontra nas mudanças celebrativas e rituais, mas no favorecimento do crescimento da vida cristã. A primeira linha da SC 1 diz: “O sagrado Concílio, propondo-se fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis...” O fomentar a vida cristã dos fiéis acontece pela espiritualidade.

O risco de espiritualismos e devocionalismos
O fomento da vida cristã acontece pelo crescimento espiritual que, por sua vez, é decorrente da evangelização. Dois elementos que se completam e se distinguem pela cronologia: primeiro vem a evangelização que, à medida que toma conta da vida e da mentalidade da pessoa do evangelizado, vai plantando nele a espiritualidade do discipulado até se tornar uma pessoa evangelizada. Para nós cristãos, vida espiritual é vida evangelizada, vida que bebe o sentido de viver no Evangelho e vive de acordo com a mentalidade do Evangelho. Mais. Vive segundo o Evangelho conduzido pelo Espírito Santo de Deus.

Em termos práticos, como demonstrado no Novo Testamento e, do ponto de vista histórico, até o século VIII, por exemplo, o primeiro momento da vida cristã, depois do kerigma, é o contato com o Evangelho em forma de evangelização. Depois vem a catequese seguida do Batismo. O período posterior ao Batismo, chamado “mistagógico”, tinha (tem) em vista do crescimento da vida espiritual. Ora, todo esse processo desapareceu nos caminhos da história e, até mesmo, assistimos uma inversão no processo: primeiro se batiza, depois se faz catequese e se recebem os demais Sacramentos da Iniciação Cristã, Eucaristia e Confirmação. Tem uma catequese que nem sempre consegue evangelizar, entendendo a evangelização como o acolhimento do projeto de vida a partir da mentalidade do Evangelho. Disso a consequência que vemos em nossos dias de uma vida espiritual debilitada na maior parte dos cristãos.

No âmbito social, a evangelização perdeu espaço e a vida espiritual, em vários aspectos, passou a ser tratada com espiritualismos, dos quais as “orações poderosas” e diversas modalidades de práticas, não devocionais, mas devocionalistas, tornaram-se comuns a ponto de ganhar mais prestígio popular que a própria Liturgia. Espiritualismos e devocionalismos não comprometem; são realizados para “dobrar” a vontade divina em favor próprio diante de alguma necessidade; e, para isso, “orações tão poderosas” diante das quais nem Deus consegue resistir e, magicamente, realiza aquilo que o orante impõe a seu favor. A divulgação de espiritualismos e devocionalismos, muito próximos da dinâmica do que se denomina de “mágica religiosa”, inclui proteções relacionadas ao uso de anéis, pulseiras colares e outros adereços.

A espiritualidade cristã não caminha neste viés e, é por isso que a Liturgia, hoje, no momento da atual história, precisa ser pensada de modo diferente, mais evangelizada e mais evangelizadora, com toda sua pedagogia mistagógica para purificar a vida dos celebrantes conduzindo-as no caminho do Evangelho, na estrada de Jesus (discipulado), naquilo que é o normal da vida cristã. Por isso, pedindo desculpa pela insistência, eu sugiro pensar a Liturgia de modo diferente, mais evangelizada e mais evangelizadora, para que seja capaz de iluminar com a luz do Evangelho a vida pessoal de cada celebrante e, mais que isso, ser a primeira e principal fonte da espiritualidade na vida pessoal de cada celebrante. Celebrações evangelizadas e evangelizadoras são fonte de espiritualidade cristã.

Pedagogia mistagógica
O que tenho proposto até o momento tem como suporte o “subjetivismo espiritual”, que mencionei outro artigo (“A vida pessoal na Liturgia”). O “subjetivismo espiritual” é um fenômeno religioso que começa aparecer em celebrações, desbancando silenciosamente a proposta da partilha fraterna e solidária. Sendo fato subjetivo, o relacionamento aconteceu entre “eu e Deus”, sem a necessidade de intermediações, nem mesmo da Igreja. Exemplo disso é o conceito de “confessar-se diretamente com Deus”. Ora, a celebração litúrgica é um momento comunitário que acolhe a história individual, a história eclesial, a história da comunidade inserida na sociedade civil… A Liturgia é celebrada em forma de assembleia, Sacramento do Corpo Místico de Cristo e, por isso, jamais é um fenômeno subjetivo. Papa Francisco chama atenção e diz que, para que o “veneno do subjetivismo espiritual” não tome conta das celebrações, existe a necessidade da pedagogia mistagógica.

Convido você a lermos juntos o n.19 da “Desiderio Desideravi” de Papa Francisco:

19. Se o gnosticismo nos intoxica com o veneno do subjetivismo, a celebração litúrgica liberta-nos da prisão de uma autorreferencialidade alimentada pela própria razão ou pelo próprio sentir: a ação celebrativa não pertence ao indivíduo mas a Cristo-Igreja, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo. A Liturgia não diz “eu” mas “nós” e qualquer limitação à amplitude deste “nós” é sempre demoníaca. A Liturgia não nos deixa sós na busca individual de um suposto conhecimento do Mistério de Deus, mas toma-nos pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir para dentro do mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam. E fá-lo, em coerência com o agir de Deus, seguindo a via da Encarnação, através da linguagem simbólica do corpo que se prolonga nas coisas, no espaço e no tempo.

 Vamos considerar juntos os três itens que eu destaquei, em negrito, ali no texto.

Veneno do subjetivismo
O veneno do subjetivismo é explicado, no próprio texto, como a prisão da “autorreferencialidade alimentada pela própria razão ou pelo próprio sentir”. A celebração da Liturgia é atividade libertadora desse perigo, diz o Papa, transportando os celebrantes do individualismo do “eu” para a fraternidade do “nós”.

Não pertence ao indivíduo
A segunda frase que destaco diz que “a ação celebrativa não pertence ao indivíduo, mas a Cristo-Igreja, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo.” É uma explicação contra o “veneno do subjetivismo” de propor celebrações litúrgicas voltadas para favorecer interesses pessoais. A celebração litúrgica é eclesial, e isto significa dizer que a celebração litúrgica é do Corpo místico de Cristo, é de toda a Igreja reunida na comunidade. É como Igreja que todos rezamos por todos, que todos intercedemos por todos e juntos glorificamos o único e mesmo Deus e Senhor.

Tomados pela mão
A terceira expressão destaca a atividade da pedagogia mistagógica da Liturgia. Papa Francisco descreve assim: “A Liturgia não nos deixa sós na busca individual de um suposto conhecimento do Mistério de Deus, mas toma-nos pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir para dentro do Mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam.” É a pedagogia litúrgica, caracterizada como pedagogia mistagógica, que conduz os celebrantes ao contato e à participação no Mistério; conduz os celebrantes para dentro do Mistério, para dentro da Salvação. Não faz isso de modo individualizado, mas como Igreja reunida ao redor da Palavra que, por sua vez, não despreza a individualidade, ao contrário, a enriquece com a espiritualidade litúrgica.

Conclusão
O modo para que a Liturgia realize sua atividade na dimensão da pedagogia mistagógica, de conduzir os celebrantes na “estrada de Jesus”, no caminho do discipulado, acontece pelo que se denomina de Pastoral DA Liturgia, a qual se serve da pedagogia mistagógica.

Como tenho proposto em outros textos, existe a Pastoral Litúrgica, que se ocupa da organização da atividade litúrgica da comunidade, dividida em atividades ministeriais, e existe a Pastoral DA Liturgia, que se realiza através da atividade celebrativa com celebrações evangelizadas e evangelizadoras. A Pastoral DA Liturgia propõe celebrações evangelizadas e evangelizadoras para que os celebrantes alimentem suas vidas com a espiritualidade cristã e, desse modo, tenham vida cristã digna de discípulos e discípulas de Jesus Cristo.

Serginho Valle 
Outubro de 2024

Curso de Pastoral DA Liturgia, acesse:

 

28 de set. de 2024

Nas vias do Espírito


Existe uma certa confusão que pode comprometer a caminha espiritual de muitos cristãos e cristãs: a confusão entre práticas de espiritualidade com aquilo que constitui a espiritualidade em sua totalidade. A espiritualidade é um caminho que contém várias práticas para se caminhar neste caminho: oração, meditação, celebração... é um caminho para se “caminhar nas vias do Espírito”. O comprometimento acontece quando as práticas se tornam um fim em si mesma com ares de magia, como é o caso de recitar por um determinado tempo “orações poderosas”. Volto a repetir, a espiritualidade é um caminho que se caminha “nas vias do Espírito”. É neste caminhar que cultiva a “vida espiritual”.

Existe outro comprometimento, que é aquele de considerar o cultivo da vida espiritual como algo exclusivo de pessoas consagradas, no sacerdócio ou na vida consagrada. A "vida espiritual" diz respeito a todos os cristãos e cristãs, pois todos são chamados à santidade e o caminho “nas vias do Espírito” fortalece a vida espiritual e faz com que cristãos e cristãs (batizados) se tornem discípulos e discípulas de Jesus.

A nutrição da vida espiritual e o caminhar “nas vias do Espírito” tem muitas fontes alimentadoras e muitas indicações de como realizar o caminho e a caminhada. Dentre as muitas fontes da espiritualidade cristã, a Liturgia é uma da principais, ao lado da Sagrada Escritura, da qual a Liturgia se serve para alimentar a vida espiritual dos celebrantes. Quando as celebrações, em nossas comunidades paroquiais, não alimentam e não conduzem os celebrantes “nas vias do Espírito”, então alguma coisa não está em acordo com a proposta e com uma das finalidades da reforma litúrgica: fomentar a vida cristã dos celebrantes (SC 1). O fomento da vida cristã acontece pela espiritualidade do Evangelho, de onde a necessidade de celebrações evangelizadas e evangelizadoras.

A sede de espiritualidade

Um olhar para a sociedade, mesmo que seja através das lentes das redes sociais, nos faz ver multidões que parecem depressivos na inércia, ou praticando violências de todos os tipos, contra si mesmos, contra outras pessoas ou contra o meio-ambiente. Não é muito difícil perceber quantos irmãos e irmãs vivem “desesperançados” e, por isso, buscam desesperadamente sinais de esperança. A Psicologia Social denomina tal fenômeno como vazio existencial, uma gestalt aberta, que precisa ser completada para que a vida tenha sentido e seja vivenciada serenamente. Por isso, apesar do secularismo tentar afastar as pessoas de Deus, — e isso parece que se torna cada vez mais evidente — não se pode deixar de reconhecer que existe uma crescente e, ao mesmo tempo, uma confusa busca por espiritualidade.

A busca por espiritualidade é positiva. Sociólogos da religião argumentam que se trata de um fenômeno social que manifesta a necessidade de interioridade, de cultivo da vida interior, a busca de pontos de referência para reencontrar-se a si mesmo e dar sentido à vida. A Psicologia, cada vez mais e com mais intensidade, trabalha o fenômeno da busca de espiritualidade de várias formas, nem todas cristãs. Movimentos de religiões e a própria Igreja propõe caminhos de espiritualidade para que a sede da vida espiritual seja saciada. Dentre as muitas fontes, na Igreja Católica, a mais importante, juntamente com a Palavra de Deus, é a fonte da Liturgia. Para isso, celebrações evangelizadas e evangelizadoras, capazes de mistagogicamente inserir os celebrantes nas vias do Espírito Santo de Deus.

O fenômeno pela busca da espiritualidade não se resume ao cristianismo e às religiões tradicionais. Estudos e pesquisas demonstram que o esoterismo e o ocultismo propõem um caminho de espiritualidade em modo de sincretismo. Um motivo de alerta que exige atenção ao cultivo da espiritualidade cristã com celebrações que sejam realmente orantes e pedagogicamente mistagógicas, isto é, capazes de introduzir e confirmar os celebrantes “nas vias do Espírito”. A sede de espiritualidade não pode ser saciada em qualquer fonte, por isso a necessidade e a importância que as celebrações litúrgicas paroquiais, em especial, sejam um referência da espiritualidade cristã. 

Trata-se de um desafio para a PLP — Pastoral Litúrgica Paroquial — e para a dimensão da Pastoral DA Liturgia propondo celebrações que sejam realmente preparadas e celebradas para contribuir no crescimento espiritual dos celebrantes.

Celebrações favorecedoras da vida espiritual 

A comunicação litúrgica é formada por várias linguagens e o seu conjunto tem a função e a finalidade de mistagogicamente favorecer o encontro dos celebrantes com Jesus Cristo. Uma linguagem eficaz para tal finalidade é o silêncio. A linguagem do silêncio na celebração litúrgica, em todos os Sacramentos e Sacramentais, é fundamental para se reencontrar com o "centro" da existência humana iluminada com a luz da Palavra de Deus. A linguagem do silêncio celebrativo conduz os celebrantes à solidão que, do ponto de vista espiritual, é um espaço necessário para ouvir Deus falando no sacrário da consciência (GS 16). O exemplo vem do próprio Jesus: retira-se com seus discípulos para lugares solitários (Mt 14,23). A celebração como um momento de retirar-se do barulho da cidade para alimentar a vida espiritual encontrando-se com Jesus. O caminhar na “nas vias do Espírito” necessita do silêncio para ouvir Deus (1Rs 19,11-13)

Outra linguagem da comunicação litúrgica que favorece o cultivo da vida espiritual é a homilia. A vida espiritual precisa de sentimentos agradáveis e emocionadas, mas não se limita a isso para propor “as vias do Espírito”. A vida espiritual, além disso, não é um código de conduta que divide a vida cristã em “pode e não pode” agir desse ou daquele modo. A vida espiritual consiste no acolhimento da graça divina que molda os sentimentos para que sejam semelhantes aos de Jesus Cristo (Fl 2,5). A homilia tem papel importante na modelagem ao Coração de Jesus ajudando — eu preferiria usar o verbo partilhando — os celebrantes a caminhar “nas vias do Espírito”. Homilias, portanto, que alimentam a vida espiritual e conduzem a pessoa a viver na liberdade dos filhos e filhas de Deus (Rm 8,21). Quer dizer, homilias ricas de espiritualidade. 

Uma terceira linguagem da comunicação litúrgica que favorece o crescimento da vida espiritual é a linguagem da escuta. É a atitude decorrente da linguagem silenciosa; silenciar para ouvir. Os celebrantes pela Liturgia "nutrem a alma" escutando a Palavra de Deus que, por sua vez, irá reagir na vida em forma de caridade e de ascese. Aqui se considere a parábola do semeador e a celebração como um momento de semeadura, como tenho proposto em outros textos
(Mt 13,1-23). A escuta faz parte do processo comunicativo humano, mas na Liturgia torna-se uma linguagem, um modo de comunicar-se consigo próprio. Ouvindo a Palavra o celebrante interage conversando com a vida. É um processo de nutrição espiritual para se caminhar “nas vias do Espírito”.

Outras linguagens da comunicação litúrgica certamente que poderiam ser consideradas. Escolhi aquelas que, ao meu ver, ajudam a compreender melhor o processo comunicativo alimentador da espiritualidade na celebração.

Oração e ascese 

Um último tema, certamente o mais relacionado quando se trata de espiritualidade cristã, é o tema da oração. Existe uma relação imediata entre espiritualidade e oração. Quando se pergunta a alguém sobre a vida espiritual, a maior parte das pessoas responde dizendo que reza, que faz orações. Como dizia no início desta reflexão, a oração é um meio, um caminho para se caminhar nas “nas vias do Espírito”. Podemos considerar como o mais eficaz e necessário, mas sem deixar de compreender que a espiritualidade é mais abrangente que atividade orante. 

A oração, como caminho espiritual que nasce na e da Liturgia, a oração que nasce da Palavra proclamada, ouvida e acolhida, a oração como prece suplicante, laudativa... que envolve a vida pessoal de relacionamento com Deus. Por isso, a importância de a Liturgia ser fonte de oração para que os celebrantes criem o saudável hábito espiritual de dedicar um tempo à oração pessoal, sem esquecer a oração comunitária, especialmente a Eucaristia dominical. Vale, para tal finalidade, celebrações orantes, envolvidas pela oração da escuta da Palavra, pela adoração, orações cantadas com canções e orações silenciosas. A celebração como escola de oração que educa os celebrantes a caminhar “nas vias do Espírito”. 

Por fim, fazendo jus ao subtítulo, a importância de caminhar “nas vias do Espírito” com “ascese”. Por ascese entende-se
o esforço espiritual e físico (corporal) que envolve renúncia e disciplina para buscar a santidade, moldando a vida pessoal à imagem de Cristo para se caminhar “nas vias do Espírito”. A ascese, em sua prática espiritual, envolve práticas como oração, jejum, abnegação, pequenos sacrifícios... com o objetivo de crescimento na fé e nas virtudes cristãs. A ascese são exercícios espirituais que tem como finalidade a purificação interior para se aproximar de Deus. 

Isto pode ser proposto na Liturgia, especialmente na celebração da Penitência, ajudando a penitente a fazer um esforço disciplina que envolve seu corpo para dominar as tentações, por exemplo, ou para se libertar de algum vício de pecado capital para seguir livre e liberto
“nas vias do Espírito”. É o caso de recomendar a disciplina do corpo, a sobriedade no comportamento pessoal, o autocontrole diante de tudo. Claro que são atitudes que, quando a Liturgia da Palavra propor, seja apresentado aos celebrantes da Eucaristia.

Concluindo 

A vida espiritual e, mais precisamente o cultivo da espiritualidade bebendo na fonte da Liturgia, é o caminho “nas vias do Espírito” para que os batizados passem de cristãos e cristãs a discípulos e discípulas de Jesus Cristo. Isto acontece com uma vida espiritual autêntica, nutrida pela Palavra, pela oração, pela ascese e pelos Sacramentos. É uma espiritualidade que reage em forma de solidariedade fraterna com todos e em busca constante de disciplina interior (ascese). Caminhar “nas vias do Espírito” é o caminho capaz de conduzir a viver a vida em Jesus Cristo, nosso modelo e único Mestre na espiritualidade (Mt 23,8).

Serginho Valle 
Setembro 2024

 

14 de set. de 2024

Verbum Domini e Liturgia (Reflexão dedicada ao Mês da Bíblia de 2024)


Você pode ter estranhado o título: "Verbum Domini e Liturgia". No rito latino, após as leituras, o leitor ou leitora anuncia: "Verbum Domini", traduzido no português como "Palavra do Senhor". Mas, não é sobre essa tradução que falarei agora. Minha reflexão se baseia na Exortação Apostólica Verbum Domini de Bento XVI, que deveria ser leitura obrigatória para quem atua em pastorais e, mais especialmente, para quem exerce o ministério do leitorato.

O que é a Verbum Domini

A Verbum Domini é uma Exortação Apostólica pós-sinodal escrita por Bento XVI, publicada em 30 de setembro de 2010. Trata da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Um dos temas mais importantes da Verbum Domini incentiva os cristãos e cristãs a um contato mais profundo com as Escrituras para alimentar a vida espiritual e deixar o coração ardendo para se tornar testemunha viva da Palavra de Deus.

 Bento XVI divide o documento em três temas principais:

  1. A Palavra de Deus na vida da Igreja – central na atividade eclesial.
  2. A Palavra de Deus na missão da Igreja – diretamente ligada à evangelização.
  3. A Palavra de Deus na cultura – promovendo o diálogo entre fé e razão.

 Esses três temas se encontram na Liturgia, que é a fonte de todas as atividades da Igreja (SC 10). São temas que favorecem a compreensão e a proposta preparar e realizar celebrações evangelizadas e evangelizadoras.

 No princípio de tudo, a Palavra

A Palavra de Deus está no início de todas as atividades da Igreja: das celebrações, das pastorais, de estudos e formações, de obras caritativas; todas as atividades eclesiais são inspiradas na Palavra. Por isso, as atividades eclesiais, inclusive a administração paroquial, não são apenas obras sociais realizadas pela Igreja, mas reações à escuta da Palavra. A Liturgia, celebrando, refletindo e rezando a Palavra é uma fonte privilegiada para essa escuta com o objetivo de se transformar, pela vida dos celebrantes, em reações evangelizadas e evangelizadoras.

Nem todas as paróquias têm consciência disso. A falta de formação e, infelizmente, a falta do cultivo da espiritualidade litúrgica alimentada pela Palavra torna as atividades paroquiais pesadas e sem a leveza de quem trabalha na vinha do Senhor. Isso contrasta com os discípulos de Emaús, cujo coração ardia depois de ouvir a Palavra (Lc 24,13-35). Tanto ardia que reagiram como missionários: voltaram para testemunhar o encontro com Jesus ressuscitado. O contato com a Palavra transforma os discípulos em missionários.

O texto de Emaús é inspirador para quem atua na PLP (Pastoral Litúrgica Paroquial). Assim como Jesus plantou sua Palavra no coração dos discípulos, assim celebrar a Liturgia é semear e plantar a Palavra no coração dos discípulos e discípulas celebrantes. Para isso, além de bons leitores, a necessidade de boas homilias. Homilias que sejam semeaduras e alimento da vida espiritual cristã. Homilias que tornam a Palavra uma luz que guia nossos passos nos caminhos da paz (Sl 119,105), fazendo arder os corações dos celebrantes e fortalecendo a fé.

 Mudança de mentalidade

Compreender a Liturgia como semeadura da Palavra e, mais profundamente, como semeadura das sementes do Evangelho, exige mudança de mentalidade. Pede a conversão no modo de entender a celebração. Muitos ainda veem a Liturgia como um preceito moral religioso a cumprir; obrigação religiosa. Essa visão limita o potencial da celebração de transformar o coração dos celebrantes em discípulos e missionários, em discípulas e missionárias, capazes de reagir evangelizadoramente depois de cada celebração.

 É importante resgatar a proposta da Verbum Domini — favorecer o contato com a Palavra — e torna-la inspiração e motivação de todas as atividades paroquiais. Em tal processo, a Liturgia tem um papel pedagógico fundamental, como explicado no meu curso de Pastoral DA Liturgia (vou deixar o link no final deste artigo).

No texto Bíblico de At 6,7, lemos que a Palavra de Deus se multiplicava e os discípulos cresciam em número. A Palavra é alimento que alimenta e faz crescer a comunidade pela qualidade religiosa da vida dos celebrantes, passando de cristãos e cristãs a discípulos e discípulas do Evangelho. A Eucaristia, mas o mesmo se pode dizer de todos os Sacramentos e Sacramentais, é o exemplo mais visível dessa dinâmica alimentadora, com um local especialmente preparado para realizar sua função alimentadora: a Mesa da Palavra (ambão). O ambão é o espaço onde a Palavra é proclamada, refletida na homilia e rezada na Oração dos Fiéis. Antes de a Igreja celebrar o Mistério no Sacramento, ilumina o Sacramento com o alimento da Palavra para que o “Mysterium fidei” torne-se “ministerium discipulorum” (serviço do testemunho evangelizador).

 Comunidades iluminadas pela Palavra

A Liturgia, sendo fonte de todas as atividades da Igreja (SC 10), é uma das principais fomentadoras e condutoras do contato vivo com a Palavra de Deus, como pede a “Verbum Domini”, porque a Liturgia ilumina a vida da paróquia e a vida dos celebrantes. Para evitar que a Palavra de Deus perca sua centralidade, a Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP) tem o dever de, em primeiro lugar ela própria, se iluminar na Palavra para conduzir toda a atividade litúrgica da Paróquia e incentivar celebrações sempre mais evangelizadas e evangelizadoras, quer dizer, celebrações onde é semeada farta e abundantemente a semente da Palavra de Deus.

Serginho Valle 
Setembro 2024

 

Cursos do Serginho Valle

PLP — Pastoral Litúrgica Paroquial 
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Pastoral DA Liturgia 
https://lp.liturgia.pro.br/pastoral-da-liturgia