A formação e a espiritualidade litúrgicas são os pilares da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP)

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A finalidade deste espaço é oferecer material de formação litúrgica para quem atua em ministérios litúrgicos na comunidade paroquial. Seja muito bem-vindo e bem-vinda. Se quiser e puder deixar sua contribuição, agradeço muito. (Serginho Valle)
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29 de jan. de 2022

Educados por Deus e educados para Deus na Liturgia


Com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2022 — Fraternidade e Educação —, o lema da Campanha inspira refletir e considerar a Liturgia como um espaço onde os celebrantes são educados por Deus. Diz o lema: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31,26). A Liturgia é um espaço especial onde Deus fala com sabedoria e ensina com amor. Se a Liturgia é um espaço especial, a celebração é o momento no qual somos envolvidos na sabedoria divina, momento no qual Deus nos educa no seu amor e educa com amor.

 

Educados por Deus

Em todas as celebrações sacramentais somos silenciosamente educados por Deus. Educação no sentido “ex+ducere”, ser pedagogicamente conduzido por um pedagogo, por alguém que toma o educando pela mão e o conduz no caminho da vida. O momento celebrativo não é um tempo de catequese, de ensinamento doutrinal, nem de reflexão exegética das leituras. É momento de experiência de Deus. Experiência que acontece pelo envolvimento com o sagrado, ouvindo a Palavra, cantando louvores, suplicando pelas necessidades, adorando, silenciando diante de Deus. Isso acontece de modo intenso, por exemplo, na celebração do Sacramento da Penitência, quando bem celebrado e não reduzido a acusações de pecados e algum aconselhamento genérico. A celebração da Penitência leva o penitente a reconhecer que Deus o educa para a santidade, educa a deixar o pecado para viver na graça divina. O Evangelho do encontro de Jesus com a mulher surpreendida em adultério (Jo 8,1-11) — que ilustra o cartaz da Campanha da Fraternidade 2022 — é o ícone da celebração da Penitência: acolher com respeito, silenciar para não proferir julgamentos, não atirar pedras, ouvir e enviar orientando a não mais pecar. É o ícone de quem fala com sabedoria e educa com amor.

 

As celebrações da Eucaristia, no quadro do Ano Litúrgico, são momentos nos quais Deus nos educa continuamente. Cada celebração Eucarística retira os celebrantes do barulho do mundo, da tumultuada algazarra das redes sociais, onde todos falam e ninguém escuta, da intromissão publicitária de magicamente ter sucesso na vida... para silenciar nossas vidas e escolher a melhor parte: sentar-se aos pés do Mestre e, antes de partilhar a Mesa Eucarística, ser educado no seu Evangelho. A Eucaristia não é celebração para se atarefar com muitas coisas, como fazia Marta, mas é tempo para ser educado por Jesus, sentando-se próximo do Mestre, escolhendo a melhor parte (Lc 10,38-42).

 

O principal protagonista da Liturgia é o Espírito Santo. É o Espírito que conduz os celebrantes ao encontro com Deus, quem os coloca diante de Deus para serem educados por Deus. Ele é invocado como Espírito de amor e Espírito de sabedoria; “fala com sabedoria, ensina com amor”. A Liturgia como espaço onde a sabedoria e o amor divino envolvem a vida dos celebrantes pela ação do Espírito Santo, suplicado como Espírito da Sabedoria (Ef 1,17). A Liturgia é fonte da sabedoria divina, onde somos educados por Deus.

 

Tudo isso tem uma condição: a docilidade ao Espírito Santo, como cantamos no Sl 94,8: “não fecheis os vossos corações, mas ouvi a voz (do Espírito)”. Um refrão que ouvimos em nossas celebrações quaresmais, convidando-nos a ouvir, a ser obedientes à educação que recebemos de Deus. Do ponto de vista prático, seria bom que os animadores das celebrações, presidente incluso, sejam dóceis e se deixem conduzir pelo Espírito de Deus e não criem distrações e ruídos.

 

Educados para Deus

A Liturgia educa para Deus de modo silencioso. Para compreender melhor como isso acontece, vamos contemplar nosso Mestre em oração: Jesus envolvia-se com o Pai no silêncio da natureza e no silêncio profundo da noite. Envolvido no silenciamento total era educado pelo Pai e fortalecido na fidelidade ao projeto do Pai. A Liturgia é, em certo sentido, o espaço da montanha envolvida pelo silêncio da noite. De acordo com o ensinamento de Jesus, no seu jeito de rezar, a espiritualidade litúrgica não compreende somente palavras, muito menos longas pregações, mas compreende a experiência de quem é educado para Deus, envolvendo-se no silêncio divino.

 

A Liturgia educa para se colocar diante de Deus envolvido pelo silêncio, não priorizando a boca para falar, cantar, pregar... mas priorizando o coração aberto para ouvir e acolher o que o Senhor tem a dizer. Esta deveria ser uma pré-disposição para celebrar: calar-se para ouvir com os ouvidos, ouvir com o coração e ouvir com a mente o que o Senhor tem a dizer. Ninguém é educado para Deus falando, mas ouvindo. São Paulo lembra a Timóteo que toda a Palavra é útil para educar em vista da “obra boa”, o discipulado (2Tm 3,16-17). Celebrações que educam para Deus, em todos os Sacramentos, são aquelas que favorecem o silêncio para ouvir e conduzem ao discipulado. Num mundo barulhento, especialmente o mundo povoado pelos jovens, oferecer celebrações silenciosas é, pastoralmente falando, mais necessário que favorecer a continuidade no barulho que vivem envolvidos.

 

O gesto orante, representado em muitas catacumbas onde se celebrava a Eucaristia, é de alguém que tem as mãos levantadas para o alto, mostrando o coração, em posição de total abertura para ser tomado (possuído) por Deus. Na Liturgia somos educados para Deus envolvendo-nos no silêncio divino. Isto se tornou o grande desafio pastoral de nossos tempos motivado pelo conceito de que participar é agitar. A “participatio actuosa” (participação ativa) está sendo confundida com o muito fazer para ver, para agitar, para emociona, para falar muito e pouco silenciar.

 

Um dos grandes desafios da Pastoral Litúrgica Paroquial é devolver à Liturgia seu espaço educativo de ser a escola da espiritualidade cristã, como dizia São Paulo VI. É o desafio de voltar a ouvir Jesus falando para Marta que a celebração litúrgica não é um atarefar-se de muitas coisas; por isso é preciso aprender ou, talvez reaprender, a sentar-se ao pé do Mestre e escolher a melhor parte: ouvir o que ele diz (Lc 10,41-42).

 

Serginho Valle

Janeiro de 2022

15 de jan. de 2022

Liturgia é educação


Pode ser que por uma desantenção, correndo rapidamente os olhos, você não tenha prestado atenção ao título. Não estou falando de “Liturgia e educação”, mas que “Liturgia é educação”. Chamo atenção para a importância de não criar um paralelo entre Liturgia e educação, mas de considerar a Liturgia como educação; a Liturgia é um espaço educativo e educador. O contexto litúrgico é um contexto próprio do discipulado e, por isso, é educativo e apropriado para educar.

 

A Campanha da Fraternidade 2022 favorece realizar uma reflexão sobre o papel da educação pela Liturgia e da Liturgia como espaço educador. São Paulo VI definiu a Liturgia como a primeira escola da vida cristã. Mais que uma definição, é uma afirmação que merece ser considerada. Vários textos da Patrística entendem a Liturgia como “Locus Theologicus” e “Locus sapiantiae”: espaço teológico e espaço da sabedoria. Não é uma escola e nem sala de aula, evidentemente, mas é um contexto, um clima, um espaço, um local onde se é educado nas coisas de Deus e na coisas da vida.

 

Li o texto base e não lembro alguma referência no sentido de considerar a Liturgia como educação. Claro, não pode falar de tudo. Mesmo assim é uma pena, porque a Liturgia é a principal, e para muitos católicos, o único espaço educativo da fé e, por que não, do estilo de vida a partir da Palavra. É considerando a necessidade da Liturgia na educação da maior parte dos católicos que considero importante abordar o tema da educação no contexto da Liturgia e da Liturgia como educação em si. Volto a insistir que a maior parte dos católicos não tem outra educação religiosa e (talvez) existencial a não ser pela Liturgia.

 

A educação realizada pela Liturgia e com a Liturgia fundamenta-se na espiritualidade litúrgica, que é a espiritualidade da Igreja. Uma educação, dentro dos moldes cristãos, sem espiritualidade é uma educação desprovida de fundamento cristão. Não basta conhecer princípios e doutrinas, é necessário que os mesmos estejam fundamentados na espiritualidade, iluminados pelo Evangelho para que o espírito da educação seja evangelizado e evangelizador. Neste aspecto, como a diz a SC 10, a Liturgia é fonte.

 

Outro elemento importante da educação pela Liturgia e da Liturgia como momento educativo é ter presente que a Liturgia adota o processo mistagógico. É uma dinâmica pedagógica que favorece o crescimento no discipulado de modo gradual, propondo pouco a pouco a estrada de Jesus, o caminho do discipulado. Não é correto entender a mistagogia como método; embora haja semelhanças, é importante valorizar a mistagogia como processo, como passos nos quais o cristão e a cristã são educados processualmente, progressivamente na e pela Liturgia.

 

Além desses dois elementos, que podem ser considerados básicos na educação pela Liturgia, outro elemento importante é o papel da Liturgia na formação e na orientação de valores cristãos. Considere-se, nesse caso, a Liturgia como espaço, no qual são destacadas virtudes e comportamentos próprios do cristão, como por exemplo, a fraternidade, o relacionamento pautado na misericórdia, na justiça, a temperança, a prudência, a paciência... No momento celebrativo, os celebrantes não são educados com uma metodologia escolástica ou acadêmica, mas pela pedagogia mistagógica, que confronta ou ilumina o modo de viver com o que é proclamado na Palavra, cantado numa canção, suplicado numa prece, silenciando diante do Mistério, e assim no decorrer do processo celebrativo de cada Sacramento.

 

Os exemplos que proponho ilustram a educação presente na Liturgia, no momento celebrativo, não somente na Liturgia da Palavra com a homilia, que orienta (educa) como viver a Palavra, mas em toda a celebração. Até mesmo, e principalmente, o silêncio é favorecedor de um contato pessoal com a própria vida do celebrante e isso é altamente educativo. A Liturgia é educação para a vida é para relacionamentos comunitários e sociais. Não educa com uma educação doutrinária ou teológica ou catequética. A educação pela Liturgia é uma educação existencial e, por isso, quem é educado no espaço litúrgico leva para a vida e, educadamente, vive aquilo que celebra.

Serginho Valle

Janeiro 2022

 

17 de ago. de 2019

Liturgia, fonte da fé


Já tratei desse tema aqui no meu blogger, mas considero relevante voltar a falar sobre a Liturgia como fonte da fé e, em consequência disso, fonte da vida cristã. Uma das funções primárias da Liturgia é construir, alimentar e animar a Igreja viva, formada por pessoas que iluminam suas vidas na fé em Jesus Cristo. Não existe nada de novo nisso, uma vez que se trata de uma proposta presente na Tradição litúrgica da Igreja. Uma bela inspiração Bíblica, a este propósito, encontra-se no encontro de Jesus com os discípulos de Emaús (Lc 21,13-35). Naquele episódio, Jesus celebra com os dois os discípulos a partilha da Palavra e do pão para alimentar neles a fé na sua Ressurreição. Cada celebração, portanto, inspirando-se em Emaús, é encontro com o Senhor e cada encontro com o Senhor, na celebração, é fonte de vida nova na fé. 
Tal realidade da Liturgia não pode se limitar, evidentemente, a uma fé que reside unicamente no emocional e no sentimento. Tanto o emocional e o sentimento são importantes. De fato, os discípulos de Emaús ficaram emocionados ao celebrar a fractio panis com Jesus e seus sentimentos foram partilhados com os demais Apóstolos porque seus corações ardiam. Depois da emoção e do sentimento, a atividade: não pensaram no cansaço da caminhada e nem se permitiram dormir para na manhã seguinte ir contar aos seus amigos os aconteceu com eles; na mesma hora levantaram-se e foram a Jerusalém. A exegese considera esta dinâmica como uma proposta dinamizadora da evangelização: partilham a Palavra e o pão na celebração com Jesus e, depois, partilham a Palavra e o pão na vida, contanto a todos o que sucedeu em suas vidas, na celebração, com a presença do Senhor ressuscitado.
 A celebração litúrgica como fonte da fé manifesta-se no testemunho evangelizador. Não a fá reduzida a simples crença, mas a fé testemunhada, que faz, que impulsiona a caminhar e a partilhar a experiência do encontro com o Senhor na Liturgia celebrada.
Existe, contudo, uma condição para isso acontecer: que as celebrações sejam liturgicamente celebradas. Celebrações capazes de equilibrar a emoção, o sentimento e o compromisso. Nossas celebrações – e aqui não penso unicamente na Eucaristia – não podem ser instrumentalizadas unicamente em um único aspecto e animadas unicamente num viés: só o emocional ou só o sentimental ou unicamente o compromisso existencial e social. Existe a necessidade de se emocionar na celebração, necessidade que a celebração toque os sentimentos e, necessidade que a celebração comprometa. Compromisso que, às vezes, é pessoal, outras vezes é comunitário, em algumas vezes, familiar, e assim por diante. Compromisso que seja manifestação da fé na vida nova, celebrada na Liturgia e semeada pelo testemunho de vida.
A interconexão dos três aspectos irá formar celebrações fontes da fé. Neste aspecto, considero louvável tantas iniciativas celebrativas realizadas em muitas comunidades com a finalidade de prolongar as celebrações,especialmente a Eucarística, em momentos orantes comunitárias, como por exemplo, de adoração silenciosa ao Santíssimo, Horas Santas, celebrações de bênçãos, celebrações penitenciais, Liturgia da Palavra na pedagogia da Lectio Divina, valorização de Tempos Fortes da Liturgia, especialmente na Quaresma e no Advento, mas também no Tempo Pascal e no Tempo Natalino. 
As inspirações que vêm da Liturgia para fazer crescer a fé em nossas vidas são inúmeras e são fonte de criatividade existencial, especialmente importante, em momentos de crise e de conflitos. Não se pode, por isso, limitar-se unicamente a celebrações dos Sacramentos. A própria Liturgia inspira celebrar a vida de outras formas e com tantos outros ritos em vista de fomentar a fé e, com isso, alimentar a espiritualidade dos celebrantes.
Serginho Valle  
Agosto de 2019 


22 de dez. de 2017

As “quatros Missas” do Natal... e a “Missa do Galo”?


Lembro que no meu tempo de criança e de adolescente, a família se reunia ao redor da árvore de Natal e do presépio, que o pai e a mãe montavam na sala. O rito iniciava-se com uma oração, que rezávamos em alta voz, de olho nos pacotes de presentes. Isso era por volta das 20hs. Depois, vinha a Ceia de Natal, um tempo para brincar com os novos brinquedos e a Missa do Galo.
            “Missa do Galo” é uma expressão que vem da Idade Média, quando os horários eram estabelecidos pelo canto do galo e pelo início da aurora. Hoje, a Liturgia conserva a “Missa da Aurora” e, popularmente, a chamada “Missa do Galo”. A expressão vem da indicação do horário, nos antigos “ordo liturgicus” que dizia: “ad gali cantum” – quando o galo cantar –. Isso servia não tanto para dizer que os galos da Idade Média cantavam à meia-noite, mas para indicar que essa deveria ser a primeira Missa do Natal, celebrada à meia-noite. A outra Missa seria na aurora e, depois dessa, a Missa do Dia. Tem ainda uma quarta “Missa do Natal”, celebrada antes da “Missa do Galo”, que se chama “Missa da Vigília”.
            Hoje, por motivos de segurança, especialmente nas grandes cidades, o galo parou de cantar a meia-noite; não se celebra a “Missa da Noite”, como hoje se chama, à meia-noite. Algumas comunidades chegam ao absurdo de celebrar a Missa do Natal as 18hs ou as 19hs para facilitar a Ceia de Natal. Pessoalmente, penso que deveria ser o contrário: a Ceia de Natal deveria se amoldar ao horário solene da Missa do Natal, já que o que realiza realmente o Natal é celebração da Missa; a Ceia do Natal é continuidade, é ágape da celebração Eucarística do Natal. Penso que deveria ser a Missa a determinar o horário da ceia e não o contrário.

Celebração alegre
A Missa da Noite de Natal, celebrada no dia 24, é uma das celebrações mais alegres e festivas que temos na Igreja. Trata-se de uma celebração marcada, de modo particular, pela poesia e pela emoção. Diante do presépio, todos voltamos a ser um pouco crianças e isto transparece, de certo modo, na celebração. É, portanto, uma celebração para ser realizada na alegria; em total alegria: cantos, espaço celebrativo formado pela árvore de Natal e pelo presépio. Os paramentos escolhidos pelo padre devem ser os melhores e os mais bonitos. Tudo para celebrar o Nascimento do Menino Deus, Jesus Cristo, o Emanuel, o Deus conosco.
O centro da celebração do Natal é o nascimento de Jesus Cristo. A Igreja exulta de alegria porque Deus cumpriu sua promessa e fez nascer um Menino que será luz das nações (1ª leitura da Missa da noite), será um Salvador para o povo (Evangelho e Salmo Responsorial da Missa da Noite). É a graça e a glória de Deus manifestadas visivelmente diante de nossos olhos; é a nossa Salvação (2ª leitura da Missa da Noite). Leituras que descrevem a Teologia do Natal em termos de Epifania: a manifestação da Salvação divina no Menino Deus que nasce da Virgem Mãe.  
Também as orações da Missa da Noite ressaltam o grande anúncio do Natal: o nascimento do Salvador e a manifestação da Salvação para a humanidade (antífona de entrada). É a presença da luz divina (da glória divina) em nosso meio, que um dia a veremos eternamente na casa do Pai (oração do dia e antífona da comunhão). É a realização do “divino comércio” que nos possibilita participar da divindade, pois pela Encarnação Deus assumiu a nossa humanidade, ou seja, recebemos a possibilidade de participar eternamente do convívio divino (oração sobre as oferendas). O Prefácio do Natal do Senhor I proclama solenemente que Jesus é a glória de Deus brilhando em nosso meio. Jesus é o modo escolhido por Deus para se mostrar a nós (Epifania) sem nos ofuscar com seu brilho e sua luz imensa.
Seja a Palavra como a eucologia, ambas se comportam em termos de Epifania, de manifestação da glória divina Encarnada no seio da Virgem Mãe, que nasce num presépio de Belém. É a glória de Deus nas alturas que encanta com a paz os corações de homens e mulheres de boa vontade.

Um pouco de história das Missas para concluir
A solenidade do Natal é celebrada com quatro missas diferentes. Trata-se de um costume muito antigo, que tem seu primeiro documento histórico no século VII. Uma homilia do Papa Gregório Magno fala de três missas. A quarta missa natalina, a “Missa da Aurora”, começou a ser celebrada por volta do século XI.
As quatro Missas têm uma função “mistagógica”, isto é, uma catequese aprofundada, sobre o Mistério (a realidade) do Natal que a Igreja celebra na Liturgia. Na quarta Missa — “Missa do Dia” — a Liturgia proclama a essência teológica do natal: “o Verbo se fez homem e veio habitar entre nós” (Jo 1). Na dimensão teológica do prólogo de João, entendemos a finalidade do Natal: Deus se fez homem em Jesus Cristo para que nós, humanos, pudéssemos receber a vida divina; pudéssemos ser divinizados. É o que a Liturgia suplica na “Missa da Aurora”, na sua primeira coleta: “... dai-nos participar da divindade de vosso Filho que se dignou assumir nossa humanidade”. Este é o “divino comércio”. Quem compreende isso, entende o sentido do Natal e a sua Liturgia.
Permita-me um desabafo: como é triste e até mesquinho, diante de tanta riqueza teológica e espiritual celebrada nas Missas Natalinas constatar que equipes de celebrações introduzem o Papai Noel para apagar a grande mensagem do Natal.
Serginho Valle
Dezembro de 2017  



1 de dez. de 2017

Natal: encontro da humanidade com Deus


A Liturgia celebra o Natal em três grandes momentos: preparação, solenidade e celebrações natalinas. A preparação consta de quatro semanas, das quais as duas últimas são dedicadas a uma preparação mais próxima e mais intensa. A celebração da Solenidade do Natal consta de quatro Missas em momentos diferentes do dia e da noite e, por fim, as “celebrações natalinas” que constam de festas e solenidades, concluídas com a festa do Batismo de Jesus. Nossa atenção se concentrará no Lecionário proposto para o “Ano B”, que conta algumas peculiaridades, neste ano de 2017.

Tempo da preparação
            O tempo de preparação denomina-se Advento, termo que designa espera, expectativa, tempo de preparação de um acontecimento importante. São quatro semanas de Advento, mas neste ano de 2017, teremos apenas três porque — e aqui está a primeira peculiaridade — o 4º Domingo do Advento será celebrado no dia 24 de dezembro. Isto significa que a Liturgia do 4º Domingo do Advento será celebrada somente nas Missas vespertinas de sábado à tarde-noite (23 de dezembro) e nas Missas Dominicais matutitas. As Missas de Domingo à tarde já serão Missas do Natal.
            Desde a antiguidade, desde quando a Liturgia introduziu um tempo de preparação ao Natal, os dois primeiros Domingos do Advento são dedicados à 2ª vinda de Jesus Cristo. São Domingos escatológicos que, juntamente com os últimos Domingos do Tempo Comum, completam uma série de celebrações dedicadas à segunda vinda de Jesus Cristo. Nestas celebrações dedicadas à 2ª vinda do Senhor, o Advento é um tempo de preparação marcado pela virtude da vigilância.
O convite para se cultivar a virtude da vigilância, no “1º Domingo do Advento – B” é apresentado com dois símbolos: o caminho e o trabalho do porteiro. Vigilante para não tomar um caminho que não conduza ao encontro com Jesus, em sua 2ª vinda. Vigilância, vivendo atento, como deve ser o trabalho de um porteiro para impedir que algo estranho entre na casa (a vida pessoal) e impeça a preparação do encontro com o Senhor que vem.
            O 2º Domingo do Advento do Ano B (Ano Litúrgico em curso) tem a particularidade de apresentar um dos principais personagens do Advento, João Batista, o qual é ligado à primeira vinda de Jesus. Por isso, a dimensão escatológica da preparação da 2ª vinda encontra-se na 2ª leitura e na eucologia. No Ano B, iluminando-se na 2ª leitura, o 2º Domingo do Advento é celebrado nos desertos da sociedade, o local onde João Batista continuando profetizando a necessidade de preparar caminhos que conduzam ao encontro do Senhor que um dia voltará.
            A preparação do Natal, propriamente dita, denominada de preparação próxima do Natal, inicia-se no 3º Domingo do Advento, conhecido como “Dominca laetare” – “Domingo da Alegria” —, termo emprestado pela antífona de entrada: “alegrai-vos sempre no Senhor, alegrai-vos”. Neste 3º Domingo do Advento, a Igreja coloca flores na celebração e a Liturgia celebra a Eucaristia vestida com paramentos cor de rosa. Motivo disso? A aproximação do Natal de Jesus Cristo. Por isso, o 3º Domingo do Advento é o primeiro momento preparatório diretamente relacionado ao Natal; momento que prepara a 1ª vinda do Senhor, no Natal. Para tal, a Liturgia propõe aos celebrantes as figuras de Isaias e João Batista como testemunhas de uma nova esperança para a humanidade.
            Por fim, o “4º Domingo do Advento”, Domingo essencialmente mariano, dedicado à Virgem Mãe. Ela está grávida do Menino Jesus e a Igreja proclama alegremente que “Ele está no meio de nós”. É uma celebração que conduz os celebrantes ao acolhimento do projeto divino, que se realiza no Natal, tendo Nossa Senhora como modelo de fé e de disponibilidade, condições indispensáveis para acolher o Menino Jesus. Uma celebração para incentivar os celebrantes a preparar suas vidas e seus corações a ser a casa de acolhida do Menino Jesus, a exemplo da Virgem Mãe Maria.


Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo
            O grande anúncio do Natal se resume numa frase: Deus vem ao nosso encontro! Como em toda celebração do Natal, a Liturgia da Igreja transborda de alegria, torna-se festivamente alegre em seus espaços celebrativos, em suas canções, nos paramentos, na preparação celebrativa. Tudo para que os celebrantes possam fazer experiência do contentamento espiritual, da alegria de quem experimenta no Natal o encontro com Deus, na pessoa do Menino Jesus. Natal é uma festa, uma grande celebração do encontro da humanidade com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Ele, Jesus, se torna o “Emanuel”, quer dizer, o “Deus conosco”, “Deus que vive entre nós”.

Sagrada Família: primeira celebração natalina
            Por fim, a última festa litúrgica (neste ano de 2017) é dedicada à Sagrada Família que, a exemplo do 4º Domingo do Advento, será celebrada somente nas Missas Dominicais vesperais e nas Missas Dominicais matutinas, por ser 31 de dezembro.
A Sagrada Família é uma celebração que liga o Natal à família destacando o cultivo de três elementos: a fé, o amor e a confiança. Fé como atitude de acolhimento da vontade divina, a exemplo da fé de Abraão e da fé de José e Maria. Amor, naquilo que mais o caracteriza: doar-se, para que os membros da família possam viver felizes e saudáveis. Depois, a confiança (característica fundante da fé) que permite a cada membro da família viver livremente. Respirando este clima familiar, os filhos crescem em sabedoria, em graça e força diante de Deus e da sociedade.     

Conclusão
            As primeiras celebrações natalinas, contempladas nesta catequese litúrgica, no contexto do Ano B, caracterizam-se pela espiritualidade do encontro entre Deus e a humanidade, entre Deus e a vida pessoal de cada homem e mulher. No tempo do Advento. Natal é a grande celebração do encontro: encontro com Deus e encontro com o outro, com os familiares e com aqueles com quem convivemos no nosso cotidiano. O encontro com Deus, na pessoa do Menino Jesus, caracteriza-se pelo acolhimento e, é no acolhimento que está o “segredo” de celebrar bem, isto é, santamente o Natal. Quem acolhe e toma nos braços do coração o Menino Jesus não terá dificuldade de acolher e abraçar aqueles com quem convive.  
Serginho Valle
Dezembro de 2107




4 de nov. de 2017

Catequese litúrgica: Liturgia e fim dos tempos


A Liturgia reserva as últimas celebrações do Ano Litúrgico para celebrar e refletir sobre o final dos tempos. Mesmo que a Palavra fala de momentos catastróficos, a linguagem é apocalíptica, e isso tem causado incompreensões e até mesmo temor. Uma aproximação equivocada, do senso comum, por relacionar a linguagem apocalíptica a acontecimentos trágicos, extremamente catastróficos e, por isso, destruidores.
Apocalipse é uma palavra de origem grega que significa “revelação”. Disso se conclui que a linguagem apocalíptica é uma linguagem reveladora, não no sentido de anunciar o futuro, mas de chamar atenção à vigilância de cada um para não perder a fé, a esperança e a alegria no momento que as seguranças da terra começarem a desaparecer. A Liturgia, portanto, em suas celebrações não anuncia o terror da destruição, mas celebra a força da esperança, apoiada na virtude da vigilância. Em nenhum momento, a Liturgia profetiza catástrofes, nas celebrações de fim de ano. Ao contrário, continua sendo profeta e promotora da esperança em Deus.
Mas, vamos colocar uma questão: — esta esperança pode diminuir ou até mesmo desaparecer devido à desconfiança pessoal? Sim! Disso se entende o empenho da Liturgia em manter a esperança através da vigilância. Vamos considerar como isso acontece a partir de algumas considerações de celebrações do Ano A.


A santidade como realização da vida
A santidade divina é a primeira proposta apocalíptica celebrada na Liturgia. É a celebração de uma revelação (um apocalipse) festiva e repleta de esperança: todo homem e mulher são chamados a participar da santidade divina. É a comunhão de todos os santos, que professamos no Credo da Igreja e celebrada na Solenidade de todos os santos e santas, em dia 1º novembro. Por motivos pastorais, aqui no Brasil, é transferida para o primeiro Domingo depois da data.
Minha reflexão considera a proposta pastoral pedagógica original do Ano Litúrgico. Neste caso, antes de celebrar a morte cristã, no dia seguinte (2 de novembro), a pedagogia litúrgica celebra o destino da vida: viver e participar da santidade divina. Antes de refletir sobre a morte, a Liturgia, pedagogicamente, mostra que somos destinados a ser santos e santas. A morte não é o fim de tudo, não é o fim da vida, mas é uma passagem para participar da vida plena que acontece na santidade divina, na comunhão de todos os santos e santas.
Por isso, as duas celebrações — de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos — do ponto de vista pedagógico, estão próximas porque indicam duas realidades da vida humana: a realidade da morte e a realidade do destino da vida humana. Entende-se que a celebração do dia 2 de novembro celebra a fé e a esperança na "comunhão dos santos", como professamos no Credo, sustentando-se na Palavra desta celebração que promete e garante a vida eterna para quem viver em Jesus Cisto. É um contexto celebrativo marcado essencialmente pela esperança e pela fé na vida eterna.
Além da fé e da esperança, existe também a já citada “comunhão dos santos”, pelo qual nós, como Igreja que vive na terra, intercedemos à Igreja que vive no céu, que acolha aqueles que partiram desta vida na esperança do repouso eterno. Existe esta “comunhão dos santos” que, em outras palavras, pode ser denominada, também, como “comunhão de batizados”, aqueles que foram lavados na água do Batismo e, por receberem a filiação divina, tornam-se santos e santas. A segunda dimensão é que os santos que vivem na terra (os batizados) intercedem para que os falecidos participem da santidade plena da vida divina. Isso não é feito somente no dia 2 de novembro, mas diariamente, em todas as Missas celebradas na Igreja.
A celebração dos santos e santas, para finalizar, não é, apenas, um convite para refletir sobre a santidade, mas principalmente entender a santidade como realização da vida humana, algo que nem a morte pode destruir, porque somos redimidos no Sangue do Cordeiro vitorioso e revestidos com a veste dos eleitos.


Vamos ao encontro do Senhor! Esperança e vigilância
No contexto apocalíptico que marca as celebrações da conclusão do Ano Litúrgico — apocalíptico como revelação do destino do homem — encontra-se também o convite da Liturgia para caminhar ao encontro do Senhor. Este caminhar ao encontro do Senhor acontece em duas estradas importantíssimas, do ponto de vista da espiritualidade cristã: a estrada da esperança, que é alimentada pela fé, e a estrada da vigilância, alimentada pela caridade, pelo amor. Isto se faz presente nas celebrações do 32DTC-A e 33DTC-A.
Dois enfoques ajudam a contextualizar a celebração do 32DTC-A. O primeiro convida a se deixar encontrar por Deus e acolher a Sabedoria divina na vida pessoal. Ao se dizer que o enfoque celebrativo do 32DTC-A consiste em se de deixar encontrar por Deus, a Liturgia está convidando a viver na vigilância, porque Deus é quem nos procura, vem ao nosso encontro, presente na expressão: “O noivo está chegando. Ide ao seu encontro”. Aqui está uma versão da linguagem apocalíptica: a Liturgia revelando um tempo especial que consiste na vinda do “noivo”, isto é, a 2ª vinda de Jesus Cristo. Por isso, não se pode ficar dormindo, é preciso viver na vigilância.
O segundo enfoque convida, justamente, a viver na vigilância com a alegria e com a expectativa de participar de um banquete de amor com Deus, pois nele está a fonte da vida plena. Vigilância, na proposta das celebrações de fim de Ano Litúrgico, não significa viver aprisionado, bloqueado ou atemorizado com os acontecimentos. Ao contrário disso, a proposta é viver como quem se prepara para uma festa. Como se sabe, pela experiência da vida, a preparação para uma festa, em si, gera uma expectativa de alegria. Vigilância cristã é um tempo alegre de quem se prepara para celebrar a festa da santidade divina, celebrar esta festa com o próprio Deus.  
O 33DTC-A apresenta ainda outra característica da vigilância cristã: a atividade cotidiana do trabalho. Vigilância cristã não é inatividade, mas “viver a vida” cotidiana trabalhando pelo pão diário para si e para os outros. A imagem simbólica dessa atitude vigilante está na 1ª leitura do 33DTC-A: o elogio à mulher que trabalha e administra sua casa para o bem de todos. Um modo de dizer que a vigilância cristã é uma atitude sábia de quem teme a Deus e se dedica diligentemente ao trabalho cotidiano. 
É pelo trabalho que os talentos são multiplicados, como diz o Evangelho do 33DTC-A. Talentos não no sentido do senso comum, de ter dotes especiais, mas talento no sentido evangélico, que significa a vida. Vigilante é aquele que produz mais talentos, isto é, produz mais vida. Não nascemos para enterrar a vida, como fez o servo inútil, mas para multiplicar a vida. Quem assim vive, vive vigilante e terá a recompensa final.


Honra e glória a Cristo Rei do Universo
O último elemento das celebrações de fim do Ano Litúrgico é a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo. É o coroamento final do discipulado. Quem caminhou com Jesus e nas estradas do Evangelho, no decorrer de todo um período de tempo — o Ano Litúrgico — no final se aproxima do trono divino para adorar, glorificar e louvar. O motivo disso: o reconhecimento que Jesus é o Senhor, o nosso Deus, aquele no qual vivemos, nos movemos e somos.
Voltamos, assim, ao início da nossa reflexão: a meta da vida humana consiste em se deixar encontrar por Deus. E, quando Deus nos encontra, propõe-nos o caminho de uma vida que se traduz em adoração, em louvor e em discipulado. Quem segue este caminho ouvirá, no encontro definitivo com o Senhor, Rei do Universo, o Pastor eterno: “vinde, benditos do meu Pai, para tomar posse do lugar que vos foi preparado”.

Serginho Valle
Outubro de 2017



30 de set. de 2017

Liturgia e Reino de Deus


O empenho em favor do Reino de Deus é uma constante na Liturgia. Muitas são as celebrações Dominicais e semanais da Eucaristia que convidam os celebrantes a se empenharem em favor do Reino de Deus. Nas celebrações do Tempo Comum, do Ano A, por exemplo, a proposta de se empenhar em favor do Reino aparece de modo bem claro na trilogia da vinha. Cada celebrante é convidado a trabalhar na vinha do Senhor. Vinha que simboliza o Reino de Deus enquanto atividade dinâmica de quem cultiva e produz frutos. Vamos analisar dois Domingos: 26DTC-A e 27DTC-A para perceber a sua dinâmica pedagógica.

O convite para trabalhar na vinha do Senhor jamais deixou de ecoar em todos os cantos da terra, como proposto no 26DTC-A. Um convite que nos faz compreender a fé como atitude e como atividade no meio do mundo. A vinha do Senhor não é a Igreja, mas toda a terra, toda a sociedade, o local onde o Reino — apresentado em forma de vinha — precisa ser cultivado. Os frutos da Vinha do Senhor são produzidos em nossas comunidades à medida que nos servimos da força da fé para produzir frutos do Reino de Deus, na sociedade onde vivemos.

O convite e a proposta para cultivar o Reino, simbolizado na Vinha do Senhor, aparece na celebração do 27DTC-A incentivando os celebrantes a abrir os olhos ao projeto divino de formar um povo novo, que produza os frutos da vinha em forma de justiça e bondade. Convite de quem está disposto a assumir o compromisso de participar ativamente do cultivo da vinha do Senhor ocupando-se daquilo que Paulo propõe na carta aos filipenses (2L do 27DTC-A): ser um povo novo que se ocupa "de tudo que é verdadeiro, respeitável, jutos, puro, amável, honroso, tudo que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor". É fazer parte de um povo novo, promotor e cultivador da paz de Deus em toda a terra. A paz, juntamente com a bondade e a justiça, além de outros, é um dos frutos da Vinha (Reino) do Senhor no meio da sociedade.


Banquete do Reino
Depois da trilogia da vinha, a Liturgia do 28DTC-A propõe o projeto do Reino de Deus através do símbolo do banquete nupcial. Todos estão convidados para participar do projeto divino, proposto como um banquete, momento para se selar um compromisso e responsabilidade com o projeto divino. A recusa do convite é sinal de desinteresse pelo projeto divino. Uma maneira de participar deste banquete está na 2ª leitura do 28DTC-A: viver sobriamente e serenamente tendo pouco ou tendo muito. A sobriedade é um valor do Reino de Deus. Aquele de não se apegar aos projetos do mundo para obter lucros, mas viver de modo sereno e sóbrio terá mais condições de cultivar o Reino de Deus.

Outro modo de cultivar serena e sobriamente o Reino de Deus é reconhecendo que somente Deus é o único Senhor e seu poder jamais será substituído por nenhum poder terreno. A moeda de compra e venda pertence a César, mas o povo e cada membro do povo pertencem a Deus, que é Senhor de todos os povos da terra. A moeda de César facilmente pode tornar-se um ídolo que impede de dar a Deus o que é de Deus: a adoração, o louvor, a glória, a vida. É desse modo, que a Liturgia do 29DTC-A proclama que Deus é o Senhor de todo o universo e seu poder se estende até os confins da terra. Esta é uma feliz proclamação que a Liturgia que o “Domingo Missionário” faz a toda a humanidade, convidando a reconhecer que não existe outro poder senão o poder do nosso Deus e Senhor.

Serginho Valle
Outubro de 2017





31 de ago. de 2017

Liturgia e projeto divino


O Reino de Deus, que tanto ouvimos falar no Evangelho, é o projeto divino para a terra e para toda humanidade. Na expressão “Reino de Deus” encontra-se a realização do Mistério Pascal de Jesus Cristo, é lógico, mas algumas particularidades que se fazem presentes nas celebrações do mês de setembro de 2017, do 22º Domingo do Tempo Comum – A ao 25º Domingo do Tempo Comum – A. Quatro celebrações com quatro elementos importantes interagentes, para que o Reino de Deus, para que o projeto divino seja cultivado na terra.

Discípulos para realizar o projeto divino
Inicialmente, não se pode esquecer que o projeto é divino, é de Deus, mas acontece na terra. E, pelo fato de acontecer na terra, de acontecer no meio do mundo, este conta com a nossa colaboração. Para que esta colaboração seja eficaz e promotora de resultados, a primeira coisa a se considerar é a qualidade de quem atua neste projeto. Tal qualidade é formatada no caminho do discipulado, proposto no 22DTC-A.
A Liturgia tem uma função importantíssima: todos os Domingos, cada celebração propõe o caminho do discipulado e indica como cultivar o projeto do Reino de Deus. Nossa ajuda, nossa colaboração no cultivo do Reino depende da condição de ser discípulos e discípulas do Evangelho. É por meio do discipulado do Evangelho que, a exemplo de Jesus, fazemos a vontade do Pai em tudo e, assim, o projeto divino cresce entre nós.
A primazia e a prioridade do projeto divino para a terra e, especialmente, para a humanidade tem seu enfoque central na Liturgia do 22DTC-A. Nada está acima do projeto divino e tudo que realizamos como discípulos e discípulas tem em vista o crescimento do Reino de Deus, realizando a vontade de Deus. O seguimento de Jesus comporta também a aceitação da vontade divina, mesmo que esta apresente dificuldade de compreender o sucesso existencial. Quem se coloca contra o projeto divino é considerado Satanás, diz Jesus. Satanás é quem faz oposição ao projeto divino. Disto, a necessidade de ser tão somente discípulo e discípula, seguidores de Jesus, realizadores do projeto de Deus onde se vive.

Não dever nada a ninguém, a não ser o amor fraterno!
O discipulado promove uma atitude fundamental no cultivo e na construção do projeto divino do Reino de Deus: a fraternidade. O 23DTC-A trata a fraternidade pelo viés da “correção fraterna”.

À primeira vista, a correção fraterna é um tema difícil, mas compreensível se iluminado pela luz da fraternidade evangélica, considerando que o pecado destrói a vida de quem o pratica. A destruição de uma vida, no contexto do projeto divino, pode ser avaliada como uma falência do próprio projeto, uma vez que o Reino de Deus tem em vista a vida plena a ser vivida em cada homem e mulher. Por isso, se alguém se desvia do caminho que conduz ao discipulado e toma o caminho do pecado, este precisa ser reconduzido ao caminho do Evangelho para que o projeto divino não conheça uma falência. Eis o motivo da correção fraterna.

Entende-se que Jesus não pede que sejamos juízes de nossos irmãos e irmãs, acusadores de seus pecados e erros. Pede que sejamos fraternos. A correção fraterna, proposta no 23DTC-A, não tem a finalidade de punir, mas de reconciliar quem pecou para que volte à comunidade para poder atuar na construção do Reino de Deus vivendo a vida de modo pleno, no caminho da graça.

Junto a este tema da “correctio fraterna”, de modo íntimo e profundo, encontra-se o tema do perdão, celebrado na Palavra do 24DTC-A. “Quantas vezes perdoar quem nos ofendeu?”, interroga Pedro. Sem o perdão não existe correção fraterna, sem o perdão não existe fraternidade e sem fraternidade, o projeto divino não tem resultado e nem incidência na vida pessoal e social. À pergunta quantificada feita por Pedro, colocando o perdão numa escala de zero a sete, a resposta de Jesus é dada de modo qualificado a partir da bondade e do amor divinos. Jesus ensina que o modo de tratar quem nos ofendeu não se encontra no tamanho da ofensa, mas no tamanho da misericórdia divina. E, em se tratando de misericórdia divina, sabemos que esta é ilimitada. Assim deve ser o procedimento com quem nos ofendeu: oferecendo o perdão sem limites. Assim procede o discípulo e discípula do Evangelho.


O Reino de Deus e a vinha do mundo
Se a condição para trabalhar de modo profícuo e qualificado no projeto divino encontra-se no discipulado, a gratuidade é o coração (e está no coração) de quem se disponibiliza a contribuir com o crescimento do projeto divino.

Quando se trabalha de modo gratuito e sem esperar algum tipo de recompensa financeira, por exemplo, ou algum tipo de reconhecimento elogioso, então pouco importa se somos da primeira hora, enfrentando todo o calor do dia, ou se alguém da última hora recebe o mesmo salário que recebemos (25DTC-A). A Liturgia do 25DTC-A ensina aos celebrantes — tratados neste Domingo como trabalhadores da vinha — que o mal-estar causado pelos trabalhadores da primeira hora, dos primeiros momentos da formação da comunidade, não tem sentido diante dos critérios divinos. O convite para se trabalhar na vinha do Senhor não se pauta na meritocracia, mas na disponibilidade gratuita de quem se dispõe trabalhar para cultivar o Reino de Deus.

Serginho Valle

Agosto de 2017

28 de jul. de 2017

Liturgia e vocação


Minha proposta é considerar as celebrações litúrgicas de agosto 2017 a partir do contexto vocacional, considerando que agosto é um daqueles meses temáticos instituídos pela CNBB, dedicado às vocações.
            Toda vocação, do ponto de vista de Bíblico, consiste basicamente em três movimentos: o chamado divino, o tempo da escuta e a resposta pessoal. Mesmo havendo casos em que a escuta pareça inexistente, sempre existe um momento para interrogar, como é o caso da vocação de Maria, a Mãe de Jesus. Ela foi chamada por Deus, escutou e questionou a proposta divina e, depois disso, deu sua resposta definitiva acolhendo o chamado. Este é um tema que mantém relação com a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
É um dado importante considerar estes três movimentos — chamado, escuta e resposta pessoal — para não se correr o risco de precipitação, em se querer responder de maneira apressada. Deus chama e dá um tempo para que a pessoa decida. Não existe, portanto, uma obrigação, mas sempre a liberdade de optar entre aceitar ou não aceitar. O papel da Liturgia, através das celebrações, é fazer memória das respostas vocacionais presente na Palavra que a Eucaristia propõe nos Domingos de agosto.

Como estes três momentos estão presentes nas celebrações do mês vocacional 2017

Chamado divino
            Existe um chamado vocacional, da parte de Jesus, ao escolher três de seus discípulos para que subissem com ele no Monte Tabor (Domingo da Transfiguração). É a dimensão do chamado como escolha pessoal, da parte de Deus e, de certo modo, escolha privilegiada. Nem todos são chamados, apenas alguns. Um chamado de destaque é aquele feito a Pedro, quando recebe a missão de ser “pedra”, fundamento da Igreja de Jesus Cristo (21DTC-A).
O chamado divino costuma ser com uma linguagem marcada pela serenidade. O exemplo está no modo como Deus entra em contato com Elias: não através de tempestades e trovões, mas pelo vento suave de uma brisa. É o que celebramos no 19DTC-A. Esta mesma experiência de chamado pela serenidade aconteceu na vocação de Maria Santíssima, na Anunciação.

Tempo da escuta
            O segundo movimento da experiência vocacional é o tempo da escuta. O cenário vocacional da Transfiguração sugere que este tempo necessita ser vivenciado na contemplação. É o vocacionado que sente o chamado, mas precisa distanciar-se do mundo, como fez Jesus com seus três discípulos, para silenciosamente contemplar e ouvir Deus falando com outros vocacionados: Abrão, Moisés e Elias. Escutar através da contemplação é um modo de não responder à vocação somente pelo entusiasmo, mas entendendo a necessidade de ter tempo para si antes de responder.
            Elias é o vocacionado que treme de medo e foge (19DTC-A). Mas Deus o busca e o toca com sua brisa suave. Elias é aquele vocacionado que (podemos dizer) tem medo do chamado divino e se esconde. Com esse tipo de vocacionado, Deus não se serve da força e nem de ameaças, mas o conforta e o fortalece com a ternura de uma brisa suave fazendo-se presente em seu coração. É a experiência mística pela qual todo vocacionado passa.
            Já fizemos referência ao tempo de escuta da Virgem Maria. Um tempo de escuta que representa aquele vocacionado que questiona Deus, que precisa de algumas explicações, que necessita de confirmações. Escuta, mas questiona. Toda experiência vocacional passa por um momento de questionamento.
            O terceiro exemplo está em Pedro. É chamado e o seu tempo de escuta dura três anos de convivência. É o vocacionado que convive por muito tempo com Jesus até ter a certeza que, de fato, é o Senhor que o chama (21DTC-A). A vocação de Pedro representa a necessidade de conhecer profundamente o chamado através da convivência com Jesus.

Resposta pessoal
            A vocação, por fim, é sempre resposta pessoal. Ninguém responde em meu lugar. Quando Jesus chama Pedro, Tiago e João para subir com ele a montanha, eles respondem com a sua presença com o seu corpo (Transfiguração). Quando Deus chama Maria para ser a Mãe de Jesus, ela responde com sua presença e com o seu corpo (Assunção). Quando Deus chama Elias, ele responde com sua presença (19DTC-A), o mesmo acontecendo com Pedro, ao ser instituído fundamento da Igreja de Jesus Cristo (21DTC-A). Não existe, em resumo, reposta vocacional que não envolva a pessoa fisicamente.


Dúvida e medo da resposta vocacional
            A dúvida e o medo fazem companhia na vida do vocacionado e são, por assim dizer, normais na dinâmica vocacional do chamado – escuta – resposta pessoal. Verificamos isso nos personagens com os quais celebraremos a Liturgia, neste mês de agosto 2017.
            Na vocação da Virgem Maria, o evangelista relata que ela ficou assustada e foi acalmada pelo anjo: “não temas Maria!”. Já fiz referência ao medo de Elias, que foge da cidade para se esconder de Deus. Tem ainda o medo de Pedro, ao ser chamado para caminhar sobre a água (21DTC-A).
            O elemento “dúvida”, no afundamento de Pedro, é um dado interessante no processo vocacional, não pela dúvida em si, mas por aquilo que se contrapõe à dúvida: a fé como confiança. Confiar em responder afirmativamente, porque se Deus chama, ele sempre estenderá a mão para que a pessoa não se afunde no medo.  
Serginho Valle

Agosto 2017

30 de jun. de 2017

Processo pedagógico da Liturgia, um exemplo


As celebrações que compõem o Ano Litúrgico, além de celebrar os Mistérios de Cristo, exercem também atividade e função pedagógica em vista do discipulado. Ou seja, os celebrantes, de celebração em celebração — seja semanais como Dominicais — vão sendo plasmados e convidados a crescer no seguimento a Jesus, através do discipulado. Isso não significa reduzir a celebração litúrgica a encontros de catequese, mas ressaltar que o “modus celebrandi”, enquanto tal, é pedagógico e vai transformando o celebrante em discípulo e discípula de Jesus. Papel importantíssimo nessa função é a homilia.
À medida que se celebra a Liturgia, esta vai libertando os celebrantes de suas cadeias, de prisões que ele criou para si ou que lhe impuseram. Na solenidade de São Pedro e São Paulo, por exemplo, o reconhecimento vocacional de Paulo evidencia que o acolhimento do Evangelho fez dele uma pessoa livre diante de tudo e de todos; fez dele um verdadeiro discípulo de Jesus (2L da solenidade de São Pedro e São Paulo).
Outro exemplo muito interessante, neste sentido, é entender que as celebrações do Ano Litúrgico, as celebrações Dominicais em particular, modela o celebrante a partir do Coração de Jesus, que é manso e humilde (14DTC-A). O celebrante entende que Deus não se manifesta, a exemplo do mundo, com a força do poder agressivo, mas com a força da simplicidade, da serenidade, da aproximação feita com a ternura e com a paz. Entende-se, assim, que quanto mais um celebrante aprender a cultivar a humildade e a simplicidade em sua vida, tanto mais terá um coração semelhante ao Coração de Jesus. Mais será pacificado e pacificador; não precisará se servir do "arco do guerreiro" (1L do 14DTC-A), pois se dedicará a cultivar a mansidão e a humildade do Coração de Jesus (E).
A pedagogia litúrgica do 14DTC-A propõe aos celebrantes a formação de seus corações modelando-os ao Coração de Jesus. Proposta que é completada pela celebração do Domingo seguinte (15DTC-A) que, pedagogicamente, orienta a abrir a vida ao acolhimento da Palavra, tal como a terra se abre à chuva que cai do céu para fertilizá-la em vista de produzir frutos e frutificar em boas obras (1L). O celebrante é ajudado a perceber que sua vida é um terreno a ser cultivado e é neste terreno que se lança a semente da vida divina presente no Evangelho.
Na dinâmica pedagógica do Ano Litúrgico, presente nas celebrações Dominicais, o celebrante é alertado para a presença do mal e da maldade que, também estes, são semeados na vida humana (16DTC-A). Também neste caso, pedagogicamente, a celebração propõe um modo prático de lidar com o mal e com a maldade: não sendo agressivo — querendo arrancar o joio —, mas sendo humano, porque quanto mais humano se é, mais próximo de Deus se está e mais o bem e a bondade tem condições de abafar o mal e a maldade que são cultivados nos canteiros do mundo.
As celebrações aqui propostas como exemplo são (foram) celebradas no mês de julho de 2017. Servem de modelo para se perceber a dinâmica pedagógica da Liturgia em suas celebrações Dominicais. Falta ainda uma celebração, no mês de julho de 2017, o 17DTC-A, que celebra a presença do Reino de Deus no meio do mundo, comparando-o a uma pedra preciosa, pela qual vale a pena vender tudo para obtê-la. Espero não estar propondo nenhuma heresia ao dizer que as celebrações litúrgicas, do ponto de vista pedagógico, mostram o caminho para se obter a pérola do Reino de Deus.
O que fazer, do ponto de vista prático. Duas orientações aos padres e às Equipes de Celebrações. A primeira orientação é considerar o conjunto de celebrações que se afinam no diapasão de um mesmo tema, o que pode acontecer na sequência de dois ou três Domingo, por exemplo. Ou, pode-se pensar em uma pedagogia mensal, com canções, homilia, espaço celebrativo preparados em vista de uma pedagogia específica. No exemplo proposto, celebrações estão afinadas no contexto de plantar e cultivar a semente do Evangelho na vida pessoal e na comunidade.
A segunda orientação, especialmente aos padres, é propor homilias que ajudem os celebrantes a entender a possibilidade prática de adotar comportamentos a partir da Palavra anunciada em cada celebração dominical. O mesmo critério poderá servir para as Missas semanais, mas neste caso, não com homilias longas, mas com breves reflexões. Tudo isso vem ao encontro daquilo que dizia Papa Bento XVI: “a Liturgia evangeliza e é evangelizadora”.

Serginho Valle

Junho de 2017