9 de out. de 2021

Nem toda música é litúrgica

Nem todas as músicas servem para ser cantadas numa celebração litúrgica. Mesmo que mencionem Deus ou falem de amor ou, até mesmo tenham uma bela mensagem... nem toda música serve para a Liturgia. De modo mais aviltante, algumas celebrações matrimoniais, por exemplo, sem algum critério litúrgico, cantam músicas que são temas de um personagem de novela, ou cantam algum hit que está no sucesso do momento. A Liturgia não se rege pelo sucesso, mas pelo Mistério que celebra.

Não estamos discutindo a qualidade da música, mas a finalidade e a função da música na celebração litúrgica. Em algumas comunidades, infelizmente, encontramos o ministério da música cantando músicas bonitas, mas impróprias para a celebração da Missa. Com intenções ou finalidades que não correspondem ao Mistério celebrado, alguns músicos valorizam mais a música que a celebração. Este é um modo de desafinar, não a música, mas a celebração.

 

Cantar “A” celebração ou “NA” celebração

            Há alguns anos, apareceu uma música que fez sucesso em algumas assembleias litúrgicas: “Anjos de Deus”. Foi uma prova e tanto para o ministério de música das comunidades, pois foi possível verificar quem deles cantava “a” celebração e quem cantava “na” celebração. A distinção encontra-se no “a celebração” e “na celebração”.

Os primeiros, aqueles ministérios de música que “cantam a celebração”, analisaram a letra da canção evangélica “Anjos de Deus” e perceberam algumas contradições com a Teologia Litúrgica da Missa. Perceberam incompatibilidades de anjo que faz barulho e a necessidade de ouvir barulhos angelicais para abrir o coração e oferecer a oração a Deus. Uma canção, da autoria do Pastor Elizeu Gomes que, em 1996, depois de uma grande polêmica por direitos autorais e de gravação, afirmou à revista Veja que a música é do repertório evangélico e não católico.

Os segundos, aqueles ministérios de música que “cantam na celebração”, não viram problema em cantar esta música na Missa, inclusive na hora da comunhão. Não estudaram a canção; importaram-se mais com o agitado e gostoso ritmo da música e adotaram este critério para cantar a canção. Outros, se serviram do critério do sucesso que a canção fazia, embalada por Missas na TV, que “pretensamente” justificava cantar esta canção na celebração da Eucaristia.

Quem conhece a canção “Anjos de Deus”, e gosta de música ritmada, a classifica como uma música bonita e envolvente. Mas este não é o único critério litúrgico para que uma canção possa acompanhar um rito celebrativo, seja da Missa ou dos demais Sacramentos. No caso exemplar da música que estamos mencionando, quem conhece Liturgia entende que as celebrações não se caracterizam pelo barulho de anjos levando nossas preces ao Pai. Quem conduz nossas preces ao Pai é Jesus, nosso único mediador, como sempre concluímos as orações: “por Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo”.

É bom e necessário cantar músicas agradáveis em nossas celebrações, mas isso significa que qualquer música sirva para ser cantada na Liturgia.

Serginho Valle

Agosto de 2021

 

2 de out. de 2021

A música litúrgica em debate

Uma das questões mais debatidas em encontros formativos de Liturgia é a música. Tem de tudo um pouco. Desde comunidades com um excelente ministério de música, até comunidades onde um músico precisa salvar a pátria sozinho, caso contrário ninguém canta nas celebrações. Outra realidade é aquela de comunidades com grupos musicais que dominam e não aceitam sequer sugestões, seja de quem for. Existem comunidades com grupos musicais que pesquisam, fazem cursos e melhoram a olhos vistos aprendendo e se aprimorando na arte da música litúrgica. 

Por fim — para a lista não ficar longa demais — existem grupos de música que tocam nas igrejas como se estivessem num salão de festas, com som alto e com falta de critério na escolha das músicas. De outro lado, e felizmente, existem ministérios de músicos que fazem os celebrantes cantar, usam os instrumentos como acompanhamento e cantam com a arte que a comunicação litúrgica exige.

 

A música cantada pelos celebrantes

E os celebrantes? Também aqui temos de tudo um pouco. Comunidades onde ninguém abre a boca. Um grupo de músicos ou um coral canta por eles e eles limitam-se a escutar. Culpa de quem? Dos celebrantes que não querem cantar ou dos músicos que preferem cantar sozinhos? Depende! Não vou entrar no mérito desse fato.

Mas, tem também comunidades onde os celebrantes cantam e não se importam com ensaios para aprender canções novas. Existem comunidades onde só as mulheres cantam. Em outras, comunidades, o coral de mulheres e homens cantando é afinado a duas ou mais vozes, ou alterando, em modo dialogado: ora cantam as mulheres, ora os homens. Estas últimas, são comunidades que tratam a música litúrgica como arte e como oração. Na retaguarda de tais comunidades está um ministério da música que trabalha com amor e carinho para comunicar-se bem e ajudar a assembleia a rezar cantando.

 Como se canta a Liturgia

Por último, a questão de como se canta a Liturgia. Estou falando de cantar a Liturgia; não apenas cantar na celebração, mas cantar a Liturgia, cantar a celebração.

Em algumas Missas, grupos musicais e até ministérios de música não favorecem cantar a celebração, mesmo que sejam músicas conhecidas. Ou porque cantam alto demais, ou porque são desafinados ou porque introduzem variações que valorizam mais os instrumentos que as vozes.

Em outras missas, alguns corais ainda não compreenderam sua função ministerial na Missa como servidores dos celebrantes para cantar ritos ou acompanhar ritos com as canções. São grupos musicais e ministérios de música que fazem apresentações na Missa e transformam a música litúrgica em concerto sem a mínima chance de a assembleia participar da celebração cantando.

Mas, graças a Deus, temos também comunidades onde as celebrações, nas quais o modo de cantar é artístico e com muito bom gosto. Mais que cantar por cantar, nestas últimas comunidades se reza cantando e se canta louvando a Deus.

             Chamo atenção que distingo entre grupos de músicos e Ministério da Música. O grupo de músicos vai na Missa, toca, canta e vai embora. O Ministério da Música cultiva a Música Litúrgica, sua espiritualidade, sua arte e sua oração. Dedica-se à música litúrgica pelo estudo e pela partilha da arte musical nas celebrações.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

18 de set. de 2021

A espiritualidade na Pastoral Litúrgica Paroquial

 

Definições como “a Liturgia é a fonte de todas as atividades da Igreja” (SC 10) ou “a Liturgia é escola da espiritualidade e da vida cristã” (São Paulo VI), desafiam as atividades e o modo de agir da Pastoral Litúrgica Paroquial. O desafio consiste em tornar as celebrações da comunidade a fonte e a escola da espiritualidade cristã na paróquia. Entenda-se espiritualidade como dinâmica existencial motivada pelo Espírito de Deus e não como práticas espirituais apenas.

O desafio é grande, de modo especial quando se confunde celebração litúrgica com cantorias ou ritos “extra celebrativas” suplicando milagres, com celebrações matrimoniais que são verdadeiros teatros, com mutirões de confissões divulgadores de uma mensagem de desobrigação moral e não compromisso moral; e algumas aberrações que vemos e ouvimos. São desafios e, ao mesmo tempo, evidências que ainda existe um caminho longo a ser feito para que a Liturgia seja fonte e escola da espiritualidade cristã na vida de nossas comunidades.

Mas, como podemos tornar nossas celebrações fonte e escola da espiritualidade cristã? Em algumas comunidades existe todo um caminho a ser aberto e explorado; em outras comunidades, haverá a necessidade de rever o modo de celebrar; pode ser que algumas comunidades necessitem dedicar tempos para estudos, cursos, laboratórios... Cada realidade com suas exigências. Vou sugerir três passos. 

 

1º Passo: equipes de celebrações com espiritualidade

O 1º passo da Pastoral Litúrgica Paroquial, coordenada pela Equipe Litúrgica, é formar equipes de celebrações com pessoas que já tenham experiência no caminho da espiritualidade. Estou dizendo que as equipes de celebrações não deveriam ser formadas por pessoas que aparecem de vez em quando ou que sejam “laçadas” minutos antes de a celebração começar.

Que sentido tem, por exemplo, escolher alguém para proclamar uma leitura se ele vem à Missa por hábito religioso? Outro exemplo. Que espiritualidade poderá passar uma banda de músicos profissionais que nunca vão à igreja para nada, mas são contratados para “abrilhantar a celebração”? Ninguém poderá dar daquilo que não está no coração. Se um leitor não tem a Palavra de Deus no seu coração, se não a vive, se não a medita antes de ler, dificilmente ele a comunicará bem. Poderá ler bem, mas não passará de uma peça de oratória. O mesmo serve para os músicos, se ali vão só para tocar: podem cantar e tocar muito bem, mas não passará de uma apresentação.

O 1º passo consiste em formar equipes de celebrações com pessoas cultivadoras da espiritualidade cristã; que aprenderam a beber sua espiritualidade na fonte da Liturgia e nela se formaram. Difícil encontrar? Então tenho uma segunda pergunta: como sua comunidade está celebrando?

 

2º passo: refletir e preparar a celebração

O 2º passo tem a ver com as celebrações que sejam fonte e escola da espiritualidade cristã na vida dos celebrantes. Para isso, a preparação das celebrações com pessoas — que formam as equipes de celebrações — que caminham nos caminhos da espiritualidade cristã. Preparar uma celebração não é distribuir funções, é ser capaz de oferecer “copos” para que os celebrantes bebam da fonte espiritual da Liturgia antes de a celebração começar.

Dentro desse cenário não existe espaço para a improvisação, para exercício de ministérios tapa buracos que cumprem formalidades celebrativas e em nada ajudam os celebrantes no crescimento espiritual cristão. Vamos nos questionar: como um padre poderá ajudar no crescimento espiritual do seu povo se, minutos antes de iniciar a Missa, na procissão de entrada, pergunta: “qual será o Evangelho de hoje?” Como uma equipe de celebração poderá ajudar no crescimento espiritual do povo, se a mesma é formada minutos antes da Missa?

São sintomas graves e extremos da improvisação, indicativos de pouco cuidado para com a celebração litúrgica da comunidade e de total desinteresse para que as mesmas sejam fonte e escola da espiritualidade cristã na comunidade.

 

3º passo: criar um itinerário espiritual

Fazer com que as celebrações sejam fonte do crescimento da espiritualidade do povo. Aliás, trata-se da fonte mais autêntica, uma vez que se fundamenta no próprio Mistério Pascal de Cristo. Este é um grande desafio para uma Pastoral Litúrgica Paroquial eficiente e produtiva. Por isso, a importância de criar um itinerário espiritual, fazendo com que as celebrações dominicais, de modo especial, sejam como que passos que, pouco a pouco, ajudem os celebrantes a caminhar no projeto do Reino. De modo mistagógico, este é um meio de ajudar os celebrantes a entrar no mistério celebrado, a beber este mistério e a transforma-lo em vida, no seu modo de ser e de agir na sociedade. É uma espiritualidade que evangeliza pelo processo mistagógico, formadora do discipulado.

Esta é a noção de espiritualidade que está subjacente na vida cristã que brota da Liturgia. A espiritualidade litúrgica não fala da grandeza Eucarística em tons sentimentalistas, por exemplo, mas incentiva à grandeza Eucarística pela prática da vida cristã. A beleza da Eucaristia produz frutos, como lemos na parábola da videira (Jo 15,1-8).

A celebração litúrgica é o local, por excelência, no qual o Espírito Santo age na vida concreta de cada celebrante. Cada celebração, de modo especial na dinâmica pedagógica do Ano Litúrgico das Missas Dominicais, o celebrante aprende a agir como Deus, aprende a viver com o mesmo Espírito inspirador da vida de Jesus Cristo (Lc 4,14-21). Neste sentido, a despedida da Missa não deveria ser, “ide em paz’, mas “Vão e façam o que o Espírito inspirou na vida de cada um”.

 

Conclusão

            O desafio da Pastoral Litúrgica Paroquial, na proposta de fomentar a espiritualidade litúrgica, não deveria recair em como fazer celebrações atrativas, embora isso tenha seu mérito, mas em como celebrar a vida cristã favorecendo o ingresso e o crescimento dos celebrantes na espiritualidade do Evangelho.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

11 de set. de 2021

Liturgia: fonte da espiritualidade na paróquia

 

Mesmo sabendo que a Liturgia é fonte e cume de todas as atividades da Igreja (SC 10) e, isto inclui a dimensão da espiritualidade na vida cristã, sempre convivemos com o desafio de fazer com que as celebrações litúrgicas da comunidade sejam a primeira e principal fonte da espiritualidade cristã.

Uma imagem, que é ícone da Liturgia fonte da comunidade paroquial, é a de Jesus sentado à beira do poço de Jacó e, naquele poço — que ficava fora da cidade — celebrou o encontro com a comunidade de Sicar (Jo 4,5-42). Foi daquela fonte, na conversa com a samaritana — uma verdadeira Liturgia da Palavra — que Jesus enviou a samaritana para chamar o povo até próximo do poço (fonte). Ali, com o povo reunido em sua volta, fez a celebração do encontro e apresentou sua proposta de vida; seu Evangelho.

No símbolo do poço, percebemos uma semelhança muito próxima entre o encontro de Jesus com o povo daquela comunidade; uma semelhança com as celebrações em nossas comunidades. Na fonte-Liturgia existe uma água que mata a sede de vida, porque quem nos dá desta água é Jesus, a fonte da água viva (Jo 4,14). Nossas celebrações, portanto, são locais onde nossas comunidades se dirigem para celebrar e beber a água da vida. É na fonte-liturgia que a comunidade faz experiência de encontro com Jesus e ouve, Domingo depois de Domingo, celebração depois de celebração, o projeto de Jesus para a vida pessoal e para o modo de viver numa comunidade evangelizada.

Aqui existe um grande desafio para a Pastoral Litúrgica Paroquial, no âmbito da espiritualidade cristã: fazer com que as celebrações da comunidade não sejam, apenas, demonstrações de criatividade para emocionar ou apreciadas pela beleza artística, mas autêntica fonte da espiritualidade cristã que favoreça a vida dos celebrantes a participar e a empenhar-se pelo projeto do Reino de Deus, assumindo a proposta de vida de Jesus Cristo e caminhando na estrada de Jesus, o seu Evangelho.

Todos que trabalhamos na Pastoral Litúrgica Paroquial temos consciência que este desafio é grande. Um desafio que, para ser enfrentado necessita de pessoas preparadas, não apenas no conhecimento da Liturgia, mas preparadas espiritualmente, quer dizer, pessoas que iluminam suas vidas na espiritualidade do Evangelho bebida na fonte da Liturgia.

Serginho Valle

Junho de 2021

 

14 de ago. de 2021

Espiritualidade cristã na celebração das exéquias

Refletir e celebrar a morte do cristão é entrar na dinâmica da esperança da Ressurreição do Senhor, que garante ao cristão a ressurreição no último dia (Jo 6,36-40; 14,1-6). Estamos diante de um aspecto da espiritualidade que se fundamenta na fé e na esperança da vida eterna. Mesmo que o cristão fique triste, chore e sinta saudades de alguém que morreu, ele não perde a esperança, jamais. A saudade faz parte da vida cristã; a tristeza da mesma forma, mas nem a morte é capaz de abalar a fé e a esperança cristã. É uma experiência que, vivenciada na fé, fortalece a confiança e a esperança em Deus. A celebração litúrgica das exéquias, dentre as suas finalidades, deverá favorecer espiritualmente o fortalecimento da fé e da esperança.
                Como acontece com toda espiritualidade cristã, à luz da Liturgia, também as exéquias encontram seu fundamento e sua inspiração no Mistério Pascal de Cristo e, de modo especial, na Ressurreição do Senhor. Assim como Deus ressuscitou Jesus Cristo, o primeiro a entrar na casa do Pai, assim também quem morre em Cristo vive pessoalmente sua Páscoa (passagem) no dia de sua morte.
 
Respeito para com o falecido
            Outra dimensão, que encontra sua fonte na teologia e na riqueza espiritual da Liturgia, é o respeito pelos falecidos. O respeito deve-se a alguém querido, ou que fez parte da nossa vida, a quem se presta a última homenagem. A Liturgia celebra este momento com a saudade triste, com as preces e com a solidariedade aos familiares. Por isso, a Liturgia dos funerais é sempre celebrada no mais profundo clima de respeito.
            O respeito cristão está relacionado também a aquela pessoa que, no seu corpo falecido, foi templo do Espírito Santo, como menciona o Ordo Exsequiarum, n. 3. Mesmo sabendo que o corpo volta ao pó, há nele uma sacralidade, de acordo com a Sagrada Escritura (1Cor 6,19-20; Gl 6,17) e, por este motivo, o Rito das Exéquias orienta abençoar, aspergir e incensar o corpo do falecido. Estamos diante de uma manifestação da espiritualidade do corpo, revelador da sacralidade do corpo.

        Celebrar a morte cristã, do ponto de vista da espiritualidade litúrgica, é ajudar as pessoas a entrarem na dinâmica da esperança cristã em vista da vida eterna. Neste sentido, a celebração das exéquias faz memória do destino final, não com as ameaças do medo, mas com a força da esperança. Uma celebração, portanto, sempre emocionante porque de despedida derradeira, com a finalidade clara de favorecer o crescimento na confiança e na esperança, de que desta vida passageira somos destinados a viver eternamente com Deus, na esperança e na paz eterna.

Serginho Valle
Agosto de 2021

 

 

10 de jul. de 2021

Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Tanto o Sacramento da Penitência como o Sacramento da Unção dos Enfermos são celebrados por pessoas debilitadas, enfraquecidas ou pelo pecado ou pela debilidade física. Na dimensão da espiritualidade litúrgica, esses sacramentos caracterizam-se pela misericórdia, paciência e compreensão. Não é sem motivo que nas Introduções dos Rituais desses Sacramentos se insiste que o padre, no papel de confessor ou administrador da Unção dos Enfermos, prepare-se para bem celebrar este momento, no qual terá que fortalecer irmãos debilitados. Descreve a necessidade da preparação espiritual e psicológico para entrar em contato com a fragilidade humana.

          Do ponto de vista da Pastoral Litúrgica, é necessário insistir numa mentalidade madura e equilibrada sobre estes dois sacramentos. Isso poderá acontecer se a Pastoral Litúrgica dispor de equipes de celebrações que ajudem os penitentes na preparação para uma boa confissão, com celebrações ou dinâmicas preparatórias, como meditação, Lectio divina, breve reflexão...  E, no caso da Unção dos Enfermos, quando as Pastorais da Saúde e Litúrgica souberem ajudar as famílias a celebrar a presença do fortalecimento divino na unção e na oração de fé que, como diz São Tiago (Tg 5,14-15).

Reconheço, e creio que você também reconhece comigo, que muito se tem a fazer na pastoral destes dois sacramentos para não aproximá-los de conceitos mágicos, mas em fazer deles aquilo que são: celebrações de fortalecimento para quem se confia totalmente a Deus no momento que a vida o estiver debilitando.

 Pastoral Litúrgica Paroquial e Sacramentos medicinais

Infelizmente, nem todas as comunidades têm uma Pastoral Litúrgica Paroquial capaz de considerar a importância que merecem os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos.

Reconheço não ser fácil para a Pastoral Litúrgica Paroquial organizar atividades pastorais próprias para o Sacramento da Penitência se este estiver centrado unicamente no padre. Além do mais, alguns costumes e práticas pastorais classificam o Sacramento da Penitência não como momento celebrativo da misericórdia divina, mas momento acusatório: o penitente conta os pecados, o padre escuta, dá a absolvição e tudo está consumado. Não existe, ainda, em muitas comunidades, a dimensão celebrativa e uma espiritualidade capaz de revestir o Sacramento da Penitência como momento reconciliador com Deus e com os outros, no contexto da vida cristã.

O mesmo podemos dizer quanto a atividade da Pastoral Litúrgica Paroquial a respeito do Sacramento da Unção dos Enfermos. Tenho percebido que o mesmo é celebrado quase sempre de modo isolado, quando muito restrito ao âmbito familiar, quando o enfermo está em casa. Nos hospitais, mesmo havendo possibilidade e ter pessoas por perto, o padre como que executa o rito sozinho com o doente. Não estamos falando de validade, de efeito espiritual, nada disso. Mas da dimensão pastoral que pede a presença da comunidade, mesmo que representada pela família ou por pessoas que atuam ministerialmente com os enfermos.

Sim, existe um campo enorme para se desenvolver um trabalho pastoral com os Sacramentos medicinais da Penitência e da Unção dos Enfermos. Um trabalho pastoral que contemple a dimensão da acolhida e da escuta fraterna; trabalho pastoral realizado em forma de multidisciplinariedade, com orientação psicológica, por exemplo, com direção espiritual e catequética para preparar aqueles que precisam voltar para Deus com uma boa confissão. Para preparar o enfermo e a família, que também se fragiliza na doença, para uma boa celebração da Unção dos Enfermos.

            Os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos jamais podem ser desconsiderados ou esquecidos pela Pastoral Litúrgica Paroquial. Sim, trata-se de algo óbvio e evidente que a Pastoral Litúrgica Paroquial se ocupe destes Sacramentos. Na prática, infelizmente, grande parte da Pastoral Litúrgica Paroquial, em muitas comunidades, não existe um trabalho específico com estes dois Sacramentos que conferem a graça do perdão e da conversão, que conferem também a graça da fraternidade, da misericórdia e da consolação.

Serginho Valle

Maio de 2021

12 de jun. de 2021

Espiritualidade litúrgica no Sacramento da Unção dos Enfermos

 

A debilidade humana manifesta-se de modo especial no corpo doente. Sabemos, pela experiência da vida, que não teremos a mesma saúde à medida que os anos passam. A doença, ou a fraqueza física para alguns, é uma realidade que um dia tomará conta de nós. Isto nos debilita. Para aquele momento, quando nos dermos conta que o vigor dos anos se foi, ou que alguma doença nos afetou, a Igreja vem em socorro intercedendo a graça divina para que a pessoa recupere a saúde e a força da vida, se for da vontade de Deus.

A espiritualidade da Unção dos Enfermos leva os celebrantes a se unirem mais intimamente com Jesus Cristo sofredor para o bem do povo de Deus, explica São Paulo (Cl 1,24). A debilidade corporal, manifestada na velhice ou na doença, não é nem descartável ou apenas deplorável; para a Igreja é um tempo para fazer do sofrimento uma oferta agradável ao Pai para o bem do mundo, como diz São Paulo VI, na Constituição Apostólica “De Sacramento Unctionis Infirmorum”.

Por meio da celebração do Sacramento da Unção dos Enfermos, o cristão é convidado a participar e a colocar em Deus toda sua fé e esperança, como lemos em vários exemplos evangélicos das curas dos doentes por Jesus. A espiritualidade presente na Liturgia da Unção dos Enfermos é vivida de modo intenso; o padre que preside este sacramento sabe o que isso significa. É a espiritualidade que fortalece a vida do enfermo ou do idoso pelo abandono nas mãos de Deus. É momento para a pessoa reconhecer-se necessitada de tudo e, sem alguma resistência, colocar-se no colo de Deus, pois nele está o consolo, a força e a esperança. Quem preside a Unção dos Enfermos deve ser alguém envolvido pela misericórdia divina, ser um reparador da força no doente, para ajudá-lo a abandonar-se no colo de Deus.

Serginho Valle

Maio de 2021

 

22 de mai. de 2021

Espiritualidade litúrgica no Sacramento da Penitência

A espiritualidade do Sacramento da Penitência diz respeito à reconciliação e à libertação do pecado. É o sacramento da volta, que retoma as relações com Deus e com os irmãos afetadas pelo pecado. É o sacramento que ajuda reencontrar Deus e o irmão ao cair em si e tomar consciência do pecado cometido. É o sacramento “para que os fiéis, tendo caído em pecado após o Batismo, se reconciliem com Deus” (Ritual da Penitência, n. 3).

A dimensão espiritual, como todo o projeto da espiritualidade do sacramento da Penitência, está demonstrada na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). É uma espiritualidade reparadora, da volta para casa, da coragem e humildade de colocar-se aos pés da Igreja, na pessoa do padre, para pedir perdão pelos pecados. É um verdadeiro exercício de ascese, de luta interior, que faz “entrar em si” (Lc 15,17), reconhecer-se longe de Deus e da família/comunidade eclesial e, a partir disso, tomar o firme propósito de voltar: “voltarei para a casa do meu Pai e direi” (Lc 15,18-20).

O primeiro aspecto desta espiritualidade, portanto, é reconhecer-se pecador, aceitar a graça e entrar em si. Para tanto, conta-se com a graça divina e com a ajuda orante e acolhedora dos irmãos (Mt 18,15-20). É grande a riqueza espiritual de quem se sente necessitado do perdão reparador. De quem, harmonizado e maduro na fé, contempla seu estado deplorável e vai em busca da reconciliação com o Pai e com sua comunidade. Esta é a primeira graça do Sacramento da Penitência.

A espiritualidade do sacramento da Penitência tem início na acolhida da graça divina que faz alguém ser capaz de “entrar em si” e continua na humildade, no gesto humilde de confessar sua falta ao Pai, que lhe resgata a vida. É quando acontece o milagre da reparação: o Pai aceita e reveste seu filho com a dignidade de quem pode sentar-se à mesa para a festa da vida onde o alimento da vida plena é farto (Lc 15,22-24).

Interessante perceber o detalhe do “revestimento”. Uma vez perdida ou manchada a veste branca do batismo, ao perdoar quem pecou, o Pai reveste; dá uma veste nova ao filho, calçados para os pés e anel no dedo (Lc 15,22). É a reparação do pecado, a recuperação do irmão que estava morto e foi-lhe devolvida a vida (Lc 15,32). O pecado é a morte da vida e a volta a Deus é a reparação da vida, a recuperação da vida, a graça da ressurreição espiritual. É uma espiritualidade que contempla a reparação de quem estava no pecado, morto para Deus, longe de Deus e voltou a viver na graça.

São alguns acenos da espiritualidade litúrgica da Penitência vivenciada por quem o celebra, penitente e confessor. É a alegria espiritual de poder sentar-se à mesa e não passar o restante da vida comendo a sujeira, a lavagem existencial destinada aos porcos (Lc 15,16). Eis a espiritualidade reparadora de quem se faz ministro da reconciliação tanto no ministério sacerdotal como no ministério de quem se dispõe a preparar seus irmãos e irmãs para bem celebrar e viver esta espiritualidade da volta à vida, de volta à harmonia espiritual de viver na casa do Pai.

Serginho Valle

Maio de 2021

 

8 de mai. de 2021

Reflexão da espiritualidade do Matrimônio e Ordem na Pastoral Litúrgica

Pela minha experiência, tenho constato que um bom número das Equipes de Liturgia, em nossas comunidades paroquiais, dedica pouco tempo para refletir sobre a espiritualidade daquilo que celebram. Isto vale para quase todas as celebrações sacramentais e, de modo mais pontual, isto diz respeito à espiritualidade pressente nas celebrações matrimoniais e de ordenações.

Talvez, entre o Sacramento da Ordem e do Matrimônio, a preparação das ordenações leva vantagem. Como se trata de celebrações menos frequentes, as mesmas são preparadas com reflexões vocacionais, tríduos e até mesmo seminários ou conferências sobre a vida e a espiritualidade decorrentes do Sacramento da Ordem.

Infelizmente, assim não acontece na preparação celebrativa do Sacramento do Matrimônio. Em algumas situações, a celebração litúrgica fica em segundo plano ou é delegada ao que hoje se denomina de “cerimonialistas” que a preparam sem nenhuma referência ou inspiração à espiritualidade matrimonial. Na atividade cerimonialista, a atenção e preocupação concentra-se nos preparativos festivos, nos cuidados com enfeites, músicas e outros detalhes.

Diante de tal quadro, não apenas é muito importante que sua Equipe de Liturgia dedique tempo para refletir sobre a espiritualidade litúrgica presentes nas celebrações do Matrimônio e da Ordem. Como são realizadas mais celebrações matrimoniais que ordenações, é de bom senso dedicar mais tempo na reflexão da espiritualidade matrimonial presente nas orações, prefácios, ritos e símbolos usados na celebração do casamento.

 

Refletir a espiritualidade na comunidade

         Considero que a reflexão da espiritualidade sacerdotal e matrimonial presente na celebração do Matrimônio e da Ordem podem ser um excelente recurso de discernimento vocacional entre os jovens. Por isso, não se restringir a refletir a espiritualidade desses Sacramentos entre os membros da Equipe Litúrgica, mas em diferentes oportunidades de encontros com jovens e adolescentes. Apresentar o que o rito celebra e como o rito compromete existencialmente quem é ordenado e os noivos que se casam.

Outra atividade para aprofundar a espiritualidade presente nas celebrações desses Sacramentos pode ser feito em colaboração com as Pastorais Familiar e Vocacional da comunidade. É sempre bom dedicar um grande espaço à espiritualidade matrimonial e sacerdotal, reforçando o que dizia acima, em encontros realizados com casais, com jovens, e, particularmente com adolescentes da catequese crismal. É importante ajudá-los a reconhecer que a vida cristã, seja matrimonial ou sacerdotal, sempre é alimentada pelo Espírito Santo e que, mesmo em diferentes modos de viver, é sempre caminho de amor, de oblação da vida a Deus e de santidade.

Além disso, é de suma importância que a espiritualidade seja ressaltada no momento celebrativo de cada um desses sacramentos. Neste caso, a necessidade de preparar celebrações belas e alegres, como requer um momento tão especial para aqueles que estão iniciando uma nova etapa em suas vidas. Celebrações marcadas muito mais pela fé e pela oração e, menos pela dimensão teatral e espetacular. A beleza da espiritualidade não é ostensiva; é simples e belamente sóbria.

Serginho Valle

Março de 2021

 

1 de mai. de 2021

Sacramentos medicinais

Assim como o cuidado com a vida corporal necessita, de tempos em tempos, de alguma medicina, de algum remédio, o mesmo acontece com a vida espiritual. Também a vida espiritual sente necessidade de ser socorrida com alguma medicina, com algum remédio de ordem espiritual. Do ponto de vista litúrgico, a Igreja presta socorro medicinal nas e pelas celebrações do Sacramento da Penitência e do Sacramentos da Unção dos Enfermos. Um adendo: os dois sacramentos medicinais cuidam do espirito e do corpo, neste caso mais especificamente, a Unção dos Enfermos. 
        O caminho e a caminhada são dois símbolos muito caros aos cristãos usados para descrever a vida cristã e a pedagogia no discipulado. O discípulo e discípula cristãos caminham na “estrada de Jesus”, como rezamos na Oração Eucarística V. A “estrada de Jesus” é a estrada do Evangelho, é o próprio Evangelho. Um caminho seguro e com a garantia de vida plena e de vida totalmente realizada. 
          Mas, como acontece em todos os caminhos e caminhadas onde colocamos nossas vidas, dada nossa condição humana, os desvios de rota, cansaços e debilidades são, para a maior parte de nós, inevitáveis. Os Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos ajudam e favorecem a retomada do caminho e da caminhada de quem se desviou ou daquele que caiu nas malhas do pecado. São dois sacramentos celebrados para fortalecer as fraquezas que a vida humana enfrenta tanto no corpo como no espírito. 
        As debilidades e fraquezas na vida cristã podem ser espirituais, psicológicas, morais e corporais. Quem cai no pecado ou vive no pecado é um enfraquecido do ponto vista espiritual e debilitado no plano psicológico. Quem tem a experiência sacerdotal de celebrar o perdão, no Sacramento da Penitência, sabe que muitos problemas psicológicos estão relacionados ao pecado ou a uma situação pecaminosa. Hoje, não resta dúvida que a ausência ou carência de uma moral iluminada pela luz do Evangelho é causa de desvio de conduta e de transtornos psicológicos e comportamentais. 
         Do ponto de vista da fraqueza corporal (doença), a maior parte das pessoas experimenta — quase que naturalmente, eu diria — a debilidade psicológica. A doença grave ou a ameaça de alguma doença sempre mexe com o emocional e com o psicológico da pessoa. Todos percebemos isso, de modo muito claro, na experiência da pandemia, em 2020 e 2021. A fraqueza corporal, a debilidade física tem relação com a debilidade psicológica. Em socorro destas fraquezas vêm os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos. Disto a importância e a necessidade de serem bem celebrados, especialmente celebrados com calma e em clima de oração. 
        Não é sem motivo, por estes poucos argumentos que propus, que os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos são conhecidos como sacramentos medicinais. São apresentados aos cristãos como reforço na caminhada, como remédio na caminhada existencial, para que a pessoa enfraquecida possa recuperar a boa estrada ou recuperar o vigor da saúde de conviver entre os irmãos e irmãs, “se for da vontade de Deus”, como diz o Ritual da Unção dos Enfermos. 
        Celebrar estes sacramentos, do ponto de vista espiritual, especialmente do ponto de vista da espiritualidade litúrgica, é buscar uma “medicina” da qual Deus é o dispensador em modo pleno e benéfico. Ele concede o remédio do perdão, que perdoa e reconcilia; ele revigora com o remédio da cura ou do consolo fortalecedor do óleo o resgate da vida, lá onde a força corporal fraqueja.

Serginho Valle
Maio de 2021

 

17 de abr. de 2021

Motu proprio Spiritus Domini

 

O Motu Próprio Spiritus Domini, de Papa Francisco, publicado em 10 de janeiro de 2021, sobre a mudança do cânone 230 do Código de Direito Canônico, é uma norma disciplinar litúrgica referente aos ministérios do leitorato e do acolitato.

Não podemos negar que, de certo modo, trata-se de formalidade disciplinar, uma vez que o ministério do leitorato e do acolitado já são exercidos há anos por mulheres em toda a Igreja. No Brasil, esta é uma práxis comum, natural, na Pastoral Litúrgica de nossas comunidades.

O que é alterado, com o motu proprio de Papa Francisco, é o cânone 230, do Código de Direito Canônico. O cânone 230 inicia-se dizendo:

 

 “§1. Os leigos varões que tiverem idade e as qualidades por decreto da Conferência dos Bispos, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico prescrito, para os ministérios de leitor e de acólito.”

 

A mudança, a partir do motu proprio de Papa Francisco, é a exclusão do termo “leigos varões”, exclusão da palavra “varões” (homens). O novo texto passa a ser redigido desse modo:

 

“Os leigos que tiverem a idade e as aptidões determinadas com decreto pela Conferência Episcopal, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico estabelecido, nos ministérios de leitores e de acólitos; no entanto, tal concessão não lhes atribui o direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja.”

 

O texto modificado mantém o critério e a condição da idade. O que significa? Que existe uma idade própria para o leitorato e acolitato? Inúmeras comunidades têm crianças exercendo o ministério do leitorato e, neste caso, elas poderão continuar no exercício desta atividade? Quanto ao acolitato, a idade leva a entender que seja exercido por jovens de caminhada e adultos.

 

Ministérios conferidos pela Igreja

É preciso notar que, no caso do leitorato, não se trata, unicamente de “fazer leituras” nas celebrações litúrgicas. O ministério do leitorato é mais amplo e seu exercício ministerial não se limita unicamente à Liturgia da Palavra. O foco está na importância que a Igreja dá ao leitor, a ponto de criar um ministério instituído. Não se improvisam leitores, escolhendo-os antes da celebração e nem se escolhem leitores “democraticamente”, como se diz, perguntando antes da celebração: alguém quer fazer uma leitura? O leitor é um ministério importante que implica não somente a leitura, mas o modo de viver. Quer dizer, vida coerente com aquilo que lê, com aquilo que proclama na celebração diante da assembleia. Além disso, o leitor instituído tem funções extras celebrativas, na catequese, por exemplo, em celebrações devocionais...

Tais elementos — entre outros — indicam que a escolha de alguém para exercer o ministério de leitor precisa levar em conta a idoneidade moral. O critério do ministério do leitor não está na oratória, isto é básico, mas no exemplo de vida cristã.

Quanto ao acolitato, este não tem nada a ver com coroinha. Hoje, muitos padres e leigos atuantes na Pastoral Litúrgica, inexplicavelmente — especialmente da parte de padres — confundem o ministério de ajudante do altar com o ministério de acólito.

O coroinha não é acólito. Ele exerce seu ministério como servidor do altar. O Acólito, comparando, exerce as atividades que os Ministros da distribuição Eucarística realizam na maior parte das nossas comunidades. O acólito, além de ajudar na celebração Eucarística, tem como função do seu ministério a distribuição da Eucaristia na Missa, como também levar a comunhão Eucarística para doentes e idosos.

 

Sinalização para outros ministérios

Vários teólogos e liturgistas consideram que o motu próprio Spiritus Domini aparece como sinalização de abertura para outros ministérios femininos, como o diaconato permanente, que já está em estudo na Igreja, desde o início do Pontificado de Francisco.

Causa estranheza comentários ao motu próprio relacionados a “igualdade de poder” entre homens e mulheres na Igreja. O motu próprio não está equiparando poderes, mesmo porque isso seria ridículo, em termos de Teologia Ministerial. O foco da paridade entre homens e mulheres encontra-se no Batismo (Gl 3,28). Isto vale tanto para a essência da vida cristã como para as atividades ministeriais, salvo aquelas em ordem disciplinar canônicas, como é o caso das ordenações.

O motu próprio, além das discussões acadêmicas, é uma oportunidade pedagógica para valorizar o leitorato e o acolitato em nossas comunidades. Lembrar, por exemplo, que a Liturgia da Palavra não é um rito de leituras, mas é celebração proclamadora da Palavra de Deus que, em tese, deve ser proclamada por quem a Igreja considera digno de exercer tal atividade pela coerência entre aquilo que vive e a Palavra que proclama. Da mesma forma, o exercício do acolitato orienta para a importância da Eucaristia na vida da comunidade, considerando especialmente a necessidade de distribuí-la entre aqueles que não podem se fazer presente na celebração Eucarística comunitária.  

Serginho Valle

Fevereiro de 2021

 

3 de abr. de 2021

Espiritualidade sacerdotal

 


A dimensão espiritual do sacerdócio, do ponto de vista litúrgico, encontra-se nos três graus do sacramento da Ordem: diaconal, presbiteral e episcopal. Em cada um destes graus existe um modo próprio de viver a espiritualidade cristã, viver o discipulado. Na Oração consacratória, encontramos algumas características próprias da espiritualidade em cada um dos graus da graça sacerdotal.

          O diaconato alimenta-se da espiritualidade do serviço, a exemplo de Cristo que veio para servir e não ser servido (Mt 20,28). O presbítero alimenta-se da espiritualidade missionária e evangelizadora, “para que as palavras do Evangelho cheguem aos confins da terra e os povos se tornem um só povo de Deus” (oração consacratória da ordenação presbiteral). No grau episcopal, a espiritualidade do bispo caracteriza-se pela total e absoluta dedicação ao rebanho da Igreja, a exemplo de Cristo Pastor e seja “pela mansidão e pureza de coração, uma oferenda agradável” a Deus (cf. Oração consacratória da ordenação episcopal).

          Em qualquer grau do sacerdócio, a Liturgia da ordenação tem um elemento comum: o sacerdote é chamado a viver sua espiritualidade configurando-se a Cristo, dedicando sua vida de modo pleno e total à evangelização para que o “mundo creia”, para que o mundo viva os valores do Reino de Deus e se encontre com a Salvação que Deus concede por seu Filho Jesus. Vive-se esta dimensão da espiritualidade no mesmo amor oblativo de Jesus Cristo, alimentando-se da Eucaristia e da oração para a glória de Deus e para o bem do povo, na profundidade e na dinâmica que cada uma dessas palavras representa na teologia da Igreja.

O alimento espiritual é idêntico em todos os estágios existenciais: é o alimento da Palavra de Deus, Eucaristia, oração, ascese, etc.... Mas, aqui o destaque é para que a glória de Deus se faça presente no mundo (Cf. Jo 1,14) e isso dentro da dimensão joanina, que apresenta Jesus Cristo como a luz do mundo e luz para o mundo (Jo 3,19; 8,12). No contexto da Teologia e espiritualidade joanina, a vida sacerdotal é uma vocação dedicada ao serviço do povo, para que Jesus seja o caminho, a verdade e a vida do mundo (Jo 14,16), para que Jesus a porta que dá acesso ao Pai (Jo 10,9), para que o mundo creia que somente nele, em Jesus Cristo, o homem e a mulher encontrem sentido existencial. A espiritualidade sacerdotal deve inundar o sacerdote (diácono, padre ou bispo) desta verdade a ponto dele não lhe pertencer, mas, a exemplo de Paulo, ser todo de Cristo e de Cristo nele vivendo plenamente (Cf. Ef 3,8-9; Rm 14,17; Gl 2,20).

Estes elementos, citados aqui de modo indicativo, se fazem presentes no rito litúrgico da Ordem, nos três graus, e indicam um programa de vida e um sentido existencial para quem responde a esta vocação.

Serginho Valle

Abril de 2021

 

20 de mar. de 2021

Espiritualidade matrimonial na bênção Matrimonial

 

Uma análise rápida da Bênção Nupcial possibilita perceber a dimensão espiritual na Liturgia Matrimonial em três aspectos: no sinal da Aliança de Cristo com a Igreja, na bênção divina que gera vida e na vivência cristã da Igreja doméstica.

Ao considerar o matrimônio como Sacramento (sinal) da Aliança entre Cristo e a Igreja, Paulo (Ef 5,22-32) descreve a vocação matrimonial e o modo de vida, no casamento, como “um grande mistério” (Ef 5,32). Mistério no sentido da Teologia paulina, de inserção no projeto salvífico de Jesus Cristo; de ser participante ativo no Mistério Pascal de Cristo. Neste caso, a espiritualidade matrimonial leva os casais a serem testemunhas vivas do Evangelho através do amor e pela partilha de vida, no amor; do mesmo amor “como Cristo amou sua Igreja” (Ef 5,29-30): amor de doação, de um ao outro e, amor a Deus, amor de oblação, que faz da sua vida uma oferta agradável ao Pai.

O segundo aspecto da espiritualidade matrimonial, presente na Bênção Matrimonial, intercede a Deus que o casal seja gerador de vida. A súplica é apresentada como “a única bênção que não foi abolida, nem pelo castigo do pecado original, nem pela condenação do dilúvio”. Demonstra-se assim que, na espiritualidade matrimonial, existe um compromisso com a vida, tanto na sua geração, como no empenho de educar os filhos, frutos do amor conjugal, a viver de acordo com o projeto do Evangelho.

Por fim, a espiritualidade matrimonial — sempre no contexto teológico da Bênção Nupcial — contempla a família como Igreja doméstica. Um local onde o amor define o interesse de um pelo outro, onde os mal-entendidos transformam-se em amor que perdoa; onde a vida gerada como o fruto bendito do amor humano e divino que se torna gente, para que assim possam ser “fecundos em filhos, pais de comprovada virtude e possam ver os filhos de seus filhos”; quer dizer, possam ver a bênção da vida que nasceu do seu amor nas gerações seguintes.

Em síntese: a espiritualidade matrimonial, presente na Bênção Nupcial, é aberta para a vida do casal, é derramada sobre quem nasce dessa união por causa do amor e é, da mesma forma, fonte de bênção para toda a sociedade pela educação dos filhos a partir dos valores do Evangelho. É assim que um casal cristão é convidado a viver sua espiritualidade: como oblação viva a Deus, oblação entre esposos e filhos, e geração da vida, que é presença da bênção divina numa casa.

Serginho Valle

Março de 2021

 

6 de mar. de 2021

Matrimônio e a Ordem: modos diferentes de viver o mesmo Evangelho

 Os sacramentos do Matrimônio e da Ordem são modos diferentes de viver o mesmo Evangelho. São estados de vida santificadores que caminham na mesma estrada de Jesus, no caminho do Evangelho. Dois sacramentos que tem a ver com o estado de vida, com o modo de viver a vida cristã. Os cristãos que escolhem a vida matrimonial e aqueles que escolheram a vida sacerdotal vivem uma idêntica espiritualidade, a espiritualidade do Evangelho, na sua essência, mas diferente no jeito de viver, na missão e na mística que os santifica.

          Uma vez batizado e crismado, o cristão está diante de Deus e na Igreja como alguém comprometido com os valores do Evangelho. Como alguém que se comprometeu com o Evangelho, melhor dizendo. O Evangelho torna-se regra de vida e, de acordo com seu estilo de vida — celibatário, matrimonial ou sacerdotal — é chamado (vocacionado) a viver inserido no projeto de Jesus Cristo e fazendo de sua vida “uma oferta viva, santa e agradável ao Pai” (Rm 12,1). Este princípio existencial é válido para todos os estados de vida cristã, embora seja vivenciado de maneira diferente.

          Do ponto de vista da espiritualidade litúrgica, a mística cristã nos sacramentos do Matrimônio e da Ordem, propõe viver o Evangelho como ato de oblação ao Pai, para que a vida seja uma oferenda viva, santa e agradável (Rm 12,1). A espiritualidade cristã, portanto, seja na Ordem como no Matrimônio, tem a mesma mística oblativa. O que muda, sendo repetitivo, é o modo de viver esta mística. O estado de vida é diferente, por isso o modo de viver torna-se também diverso.

            Um estudo ou uma reflexão mais detalhada da celebração litúrgica de uma ordenação e de um casamento não apresentará um paralelo, mas confluências, caminhos que conduzem ao mesmo objetivo: viver em Cristo, iluminar a vida com o Evangelho, caminhar na estrada de Jesus e transformar a vida em oblação santa e agradável ao Pai. Na prática, as duas celebrações, considerando a Liturgia da Palavra e a eucologia, sacramentam um projeto de vida e um caminho de santidade. Isto acontece quando a vida é transformada em culto, quer dizer, a vida é uma celebração realizada no Espírito Santo que vive em quem foi batizado e crismado.

Serginho Valle

Março 2021

 

20 de fev. de 2021

Batismo e Crisma, celebrações festivas

 


A celebração dos sacramentos, especialmente do Batismo e da Crisma tem a característica comunicativa da festividade, da participação festiva, alegre. Para o bem dos celebrantes é importante que estas celebrações sejam momentos marcantes em suas vidas. Por serem celebrações únicas na vida, devem ser bem preparadas para que a participação seja ativa e consciente e marcante.

            A finalidade, do ponto de vista comunicativo, é fazer com que pais, padrinhos, e os jovens crismandos nunca se esqueçam deste dia. O motivo principal é tornar aquela celebração um referencial para toda a vida; referencial que marcará um compromisso definitivo com o Evangelho de Cristo.

Celebração bem-feita não se faz na pressa e nem com aglomerações. Pressa que se vê em muitos batizados, celebrados depois da última Missa matutina do Domingo. Pressa que se vê em aglomerações com centenas de jovens para serem crismados numa única Missa. São fatos, que podem ser práticos, mas não pastoralmente efetivos e, por isso, merecem ser repensados. Não se pode marcar positivamente a vida de uma pessoa em uma celebração feita de qualquer jeito ou, na base do “fazer por fazer”. A própria celebração não reflete a espiritualidade litúrgica batismal ou crismal; são celebrações que se transformam em cerimônias ou, como se vê em algumas celebrações crismais, se transformam em excesso de canções e coreografias que alongam as celebrações por horas impacientes e intermináveis.

Celebrações batismais bem-feitas têm caráter familiar, com a família inteira participando e comprometendo-se com o Evangelho de Jesus Cristo, assumindo a espiritualidade cristã em suas vidas. Celebrações crismais bem-feitas têm a alegria dos jovens, mas sem perder a sobriedade de quem celebra um compromisso assumido com Jesus e com seu programa de discipulado, proposto no Evangelho, de sempre viver e se deixar conduzir pela presença do Espírito Santo em suas vidas.

A Pastoral Litúrgica tem o dever de fazer crescer a espiritualidade litúrgica na comunidade e a finalidade de formar cristãos desde os primeiros momentos da vida que, na Igreja, são marcados pelas celebrações do Batismo e da Crisma. É preciso que a Pastoral Litúrgica Paroquial avalie o modo de celebrar o Batismo e a Crisma para, juntamente com a Catequese e a Pastoral Batismal, criar celebrações que marquem as vidas de quem delas participe e se tornem referência existencial.

Serginho Valle

Fevereiro de 2021

 

23 de jan. de 2021

Espiritualidade batismal e crismal na pastoral litúrgica

 

Do ponto de vista da espiritualidade, a Pastoral Litúrgica precisa atender para o momento único e decisivo na vida dos cristãos: o Batismo. É um momento decisivo que afeta a vida inteira. Hoje, existe o fato de se batizar crianças recém-nascidas, sem condição de tomar uma decisão existencial. Disto a decorrência de todo um processo catequético pós Batismo para favorecer a correspondência ao compromisso existencial assumido no Batismo. O meio pastoral para isso acontecer é pela catequese crismal.

Conhecemos as dificuldades existentes em nossas comunidades e, entre muitas, uma delas é o esquecimento da espiritualidade cristã na formação batismal e crismal daqueles que irão receber estes Sacramentos. Nem todos os ditos “cursos de preparação” e a denominada “Pastoral da Crisma” insistem na importância do crescimento da espiritualidade cristã e no compromisso existencial decorrentes do Batismo e da Crisma.

A Pastoral Litúrgica da comunidade, juntamente com a Pastoral da Catequese, é desafiada a refletir e encontrar meios pedagógicos para incrementar e valorizar a espiritualidade cristã naqueles que participarão das Liturgias do Batismo e da Crisma. O processo inicia-se na preparação dos pais e padrinhos e continua na formação pessoal, até quando aquele recém-nascido, que foi batizado sem condições de decidir, possa assumir conscientemente o compromisso cristão e acolher a proposta da espiritualidade do discipulado pela e na catequese crismal.

 

Formação pedagógica pelas celebrações

A formação necessária e a introdução na via da espiritualidade cristã podem contar com o recurso pastoral de celebrações litúrgicas, seja com as celebrações catecumenais, como com aquelas celebrações consideradas temáticas ou pedagógicas. Celebrações realizadas em contextos orantes para proporcionar experiência de oração litúrgica e incentive a caminhar na estrada da espiritualidade cristã.

Não é uma prática nova e nem novidade pastoral. Na Igreja antiga existiam várias celebrações, no decorrer do tempo catequético catecumenal, para preparar espiritualmente aqueles que iriam receber o Batismo e a Crisma. Nestas celebrações, através das homilias de bispos, padres e catequistas, dava-se atenção particular à espiritualidade que resultaria na vivência em Cristo, na vivência cristã da vida nova em Jesus Cristo.

Hoje, grande parte das comunidades, graças ao projeto pastoral com intenção de recuperar efetivamente o caminho do catecumenato, está adotando a prática formativa pelo caminho celebrativo litúrgico. Os frutos começam a aparecer seja no crescimento espiritual de adolescentes e jovens, seja no surgimento de novas lideranças comunitárias. Esta é uma atividade própria da Pastoral Litúrgica Paroquial.

Serginho Valle

Dezembro de 2020

 

16 de jan. de 2021

Datas móveis no Ano Litúrgico

 

Quando começamos a nos interessar e estudar Liturgia, uma das primeiras interrogações é sobre algumas datas litúrgicas, especialmente aquelas datas variáveis, como da Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi, Sagrado Coração de Jesus. Tem também as datas de grandes solenidades e festas, como Natal e as celebrações de Nossa Senhora que são invariáveis; são datas fixas.

É evidente que a Igreja, no contexto do Ano Litúrgico, tem um critério para determinar o calendário das suas celebrações mais solenes e mais importantes, como é o caso da data da Páscoa, que é a celebração fonte de todas as celebrações litúrgicas cristãs.

A celebração do centro da vida cristã é a Páscoa que, por ser a celebração mais importante da Igreja e dos cristãos, é celebrada em três dias, o chamado Tríduo Pascal. São três dias com celebrações diferentes, mas celebrando o mesmo acontecimento: a Páscoa de Jesus Cristo; sua páscoa, sua passagem pela morte e sua Ressurreição.

Deste modo, na quinta-feira Santa, a Igreja celebra a Páscoa ritual, na sexta-feira Santa, celebra a Páscoa dolorosa e, no sábado Santo, a Páscoa gloriosa, em forma de vigília, que se conclui com a Missa do Domingo da Páscoa.

Uma característica para perceber que se trata da mesma Páscoa, em uma única celebração, é que as celebrações da Quinta-feira Santa e da Sexta-feira Santa não são concluídas com uma bênção e nem com o envio. A conclusão é feita com uma oração sobre o povo.

 

Data móvel da Páscoa

Mas, voltemos ao que interessa: a data móvel da Páscoa. A determinação da data da Páscoa não segue o calendário solar, como temos no ano civil, com início em 1º de janeiro e fim em 31 de dezembro. Segue sim o calendário lunar, que era o calendário usado pelos judeus. O livro do Êxodo (Ex 12) conta que os judeus saíram do Egito — fizeram a sua Páscoa — em uma noite de lua cheia, no primeiro mês da estação da Primavera; o mês se chama Nissan. A Páscoa dos judeus teria ocorrido em 14 de Nissan. O texto de Ex 12 explica como proceder para celebrar de modo memorial a Páscoa.

Ora, a Páscoa de Jesus, sua Paixão, Morte e Ressurreição aconteceu nos dias das celebrações pascais dos judeus. Isso originou aquilo que ficou conhecido na História da Liturgia como “Controvérsia Pascal”, que teve origem na segunda metade do século II. Este é um tema que sugiro para sua pesquisa pessoal.

O mês do calendário solar, grosso modo, tem 30 dias, ao passo que o calendário lunar tem 28 dias. Como diz o nome, é um calendário que marca as datas pelas fases da lua. Esta é uma herança que a Liturgia cristã herdou da Liturgia hebraica. Ou seja, ainda hoje, a data da Páscoa é estabelecida a partir do calendário lunar, mas com um detalhe: a Páscoa cristã sempre será celebrada no Domingo seguinte à primeira lua cheia da Primavera. Não da Primavera aqui no Brasil, mas na primavera da Europa.

Segundo as datas das narrativas evangélicas da Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus morreu no início da Primavera, na primeira lua cheia do ano, quando era celebrada a Páscoa dos judeus. Esta tradição da data da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é mantida até hoje. Como a lua cheia nunca cai no mesmo dia, as datas pascais nunca são celebradas numa data específica do ano. Por isso, a Páscoa obedece a uma data móvel.

A regra que estabeleceu a data da Páscoa cristã foi determinada pelo Concílio de Nicéia, no ano de 325. Desde então ficou estabelecido que a Páscoa cristã será celebrada no Domingo seguinte à primeira lua cheia da Primavera.

 

Datas móveis de outras celebrações

Em decorrência disso, as festas que estão ligadas à celebração da Páscoa, como Corpus Christi, que sempre é celebrada na segunda quinta-feira depois da Solenidade de Pentecostes — ou na primeira quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade — nunca tem data fixa. O mesmo acontece com a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na semana seguinte à Corpus Christi.

Serginho Valle

Janeiro de 2021

 

 

9 de jan. de 2021

Para que serve a Liturgia na comunidade?

 



No tempo que eu ministrava cursos de Liturgia em comunidades paroquiais, eu costumava iniciar com uma pergunta bem provocadora: para que serve a Liturgia na sua comunidade? Cada representante recebia um papel e deveria elencar a finalidade e a serventia da Liturgia na sua comunidade.

Depois de propor a pergunta, eu ficava observando as reações dos cursistas. Alguns abaixavam a cabeça, outros olhavam para o alto, alguns mordiam a tampa da caneta, outros coçavam a cabeça... As mesmas reações do aluno que foi pego de surpresa na prova; o aluno ou aluna não estudou aquele ponto da matéria e o professor foi perguntar justamente sobre aquele argumento que não havia estudado.

As reações dos cursistas eram sintomáticas, reveladoras de algo que se tornou habitual e, por isso, desnecessário encontrar algum motivo especial para ser questionada. Sempre foi assim, sempre existiu, então: por que eu preciso me questionar sobre a serventia ou finalidade da Liturgia na comunidade?

Voltando aos cursos, depois de breve silêncio, uma pergunta quase que se repetia em todas as comunidades, de norte a sul, de leste a oeste: quando o senhor fala de Liturgia está querendo dizer que é a Missa? Minha resposta era sempre a mesma: sim, pode ser! Outra pergunta: o terço conta? Repetia a mesma resposta: sim, pode ser. Outro dizia, as confissões e os casamentos contam? ... Eu respondia da mesma forma: sim, pode ser. Uma espécie de nervosismo tomava conta da sala e todos riam ou murmuravam algum desabafo.

Depois vinham as respostas. Uma grande parte das folhas com uma única reposta, e bem lacônica: a Liturgia serve para rezar. Outra resposta famosa era: a Missa na nossa comunidade é muito bonita. Uma terceira resposta, que lembro bem: a Liturgia serve nos reunir, rezar e cantar na igreja.

Estas respostas serviam como termômetro para o meu curso. Pelo teor das respostas eu podia avaliar o nível litúrgico da comunidade. Não posso esquecer de ter sido surpreendido em muitas comunidades com repostas que chamavam atenção, como por exemplo: serve para atrair pessoas para a quermesse ... serve para invocar milagres nas Missas de cura e libertação ... serve para nos emocionar diante de Deus.

De outro lado, em muitas comunidades, eu era positivamente surpreendido com respostas de uma caminhada de formação litúrgica bem adiantada. Graças a Deus, encontrei comunidades que estudavam Liturgia regularmente e, neste caso, as respostas sobre a utilidade da Liturgia na comunidade mostravam várias direções e — no contexto da pergunta — várias serventias para a comunidade. Respostas como: a Liturgia é a alma da nossa pastoral, é um momento adorante, tem uma finalidade pedagógica, a Liturgia serve para renovar o compromisso com o Evangelho, a Liturgia é a fonte da Igreja e das pastorais... Encontrei comunidades que tinham encontros formativos a cada três meses. Ali as repostas eram de outro nível, modeladas em tonalidades da Teologia Litúrgica, respostas que demonstravam o caminho de uma formação litúrgica.

Diante disso, você já pode compreender que eu sempre precisava ir preparado com, pelo menos, três níveis de cursos: um para iniciantes, que estavam no ponto morto, outro para quem já tinha uma noção e andava em terceira marcha, e outro, para quem já andava na quinta marcha.

 

Finalidade da Liturgia e Pastoral Litúrgica

A busca da finalidade da Liturgia na comunidade — o para que serve a Liturgia na comunidade? — é um questionamento fundamental para se ter um rumo, metas e estilo celebrativo na comunidade. E aqui, não estou me limitando à Missa, mas a tudo aquilo que respeita à Liturgia, seja sacramentos, sacramentais, piedade popular...

Para quem, na comunidade, se dedica à Pastoral Litúrgica, esta é a primeira questão que precisa ser colocada: para que serve a Liturgia na comunidade? A partir desta questão inicia-se o processo de busca de respostas pela reflexão, pelo estudo, pela oração, pela criatividade...

Se Equipe Litúrgica, que é a responsável pela Pastoral Litúrgica Paroquial não colocar esta questão – para que para serve a Liturgia na comunidade? – aquela Equipe Litúrgica Paroquial se limitará a fazer escalas de leitores e músicos para a Missa. Tudo continuará por muitos anos do mesmo modo com a tendência de se repetir uma das respostas que mais freia a criatividade litúrgica: “aqui sempre foi feito assim.”

Este “aqui sempre foi feito assim” virou dogma em muitas comunidades. Tornou-se uma verdade intocável, que ninguém pode mexer ou questionar. E desse modo, em vez de tornar a Liturgia um caminho de Emaús, a transformam em peça de museu.

 

Finalidade da Liturgia em várias dimensões

A resposta ao questionamento – para que serve a Liturgia na comunidade – deve ser procurada em diferentes dimensões, como por exemplo, a dimensão espiritual, a dimensão da formação cristã, a dimensão do discipulado...

A Equipe Litúrgica Paroquial não pode se limitar a fazer escalas de leitores porque para isso não precisa nem mesmo uma equipe; uma pessoa, como por exemplo, o secretário ou secretária da paróquia, faz como parte de suas atividades.

A Liturgia tem uma função fontal, de fonte, de coração da comunidade. É neste aspecto que os membros da Equipe da Pastoral Litúrgica Paroquial precisam focar sua atenção para perceber para que serve a Liturgia na comunidade.

Serginho Valle

Janeiro de 2021


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