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22 de ago. de 2026

Quatro condições para comungar bem


O rito de preparação para a Comunhão da Eucaristia, realizado depois da Oração Eucarística e concluído com a Oração depois da Comunhão, propõe quatro condições que habilitam os celebrantes a participar da Mesa Eucarística.

 

Pastoral da Liturgia

Condições para Comungar a Eucaristia

Quatro atitudes que preparam o coração para se aproximar da Mesa Eucarística

Agosto de 2026  ·  Serginho Valle  ·  Pastoral da Liturgia, Eucaristia, Rito da Comunhão

Padre entrega a comunhão a uma fiel, com outros ministros ao fundo distribuindo a Hóstia

O rito de preparação para a Comunhão da Eucaristia, realizado depois da Oração Eucarística e concluído com a Oração depois da Comunhão, propõe quatro condições que habilitam os celebrantes a participar da Mesa Eucarística. As quatro condições são: fraternidade, compromisso com a paz, louvor e adoração, alegria pelo convite. O rito é concluído com uma prece para que os comungantes da Eucaristia realizem na vida o que receberam (oração pos communio).

Fraternidade

Depois da doxologia conclusiva da Oração Eucarística, a Liturgia inicia a preparação dos celebrantes para se aproximar da Mesa Eucarística rezando o Pai Nosso. Esta é a primeira condição para se apresentar diante do altar e comungar a vida divina. Se todos somos filhos e filhas do mesmo Pai, todos somos irmãos e irmãs, unidos pela fraternidade. A primeira condição, portanto, é o relacionamento fraterno. 


Crianças de mãos erguidas e abertas, rezando o Pai Nosso durante a Missa
Pai Nosso


A mensagem é clara: antes de comungar, o celebrante reconhece que Deus é “Pai Nosso”, Pai de todos os homens e mulheres. Se Deus é Pai de todos, todos somos irmãos e irmãs uns dos outros. A condição para se aproximar da Mesa Sagrada é o compromisso fraterno, que antecede a celebração — vivendo fraternalmente com todos — e continua depois dela — vivendo fraternalmente com todos nos relacionamentos sociais. Depois de santificar o Nome do Pai e de se dispor a acolher o Reino fazendo a sua vontade, vem o compromisso fraterno.

O Pai Nosso propõe cinco atitudes fraternas: repartir o pão, perdoar de coração, não expor o outro às tentações que conduzam a caminhos do pecado e, fraternalmente, interceder para que o mal não nos atinja. A última petição continua em forma de embolismo: "livrai-nos de todos os males, ó Pai..."

O primeiro critério é a fraternidade. Fixar-se em ritos, como por exemplo comungar de pé, ajoelhado, com véu na cabeça, receber a Hóstia na mão ou na boca tem o seu valor e sua necessidade ritual desde que não perca de vista a condição importante: quem comunga a Eucaristia fica comprometido com a promoção da fraternidade. 

Por isso, a monição introdutória ao Pai Nosso, na Missa, deveria ser inspirada no Evangelho do dia, deixando claro que a principal e mais importante condição para comungar encontra-se na vivência do Evangelho que propõe a fraternidade como condição para se fazer uma boa comunhão.


Compromisso com a Paz

A segunda condição para se aproximar da Mesa da Eucaristia é o compromisso com a paz. Compromisso decorrente da fraternidade. Quem é fraterno e promove a fraternidade é um construtor da paz, um filho e filha de Deus, de acordo com as Bem-aventuranças: “bem-aventurados os que promovem a paz porque serão chamados de filhos de Deus” (Mt 5,9). Um filho e filha de Deus é construtor da paz, aquele que promove a paz e, em assim sendo, é alguém digno de se aproximar da Mesa Eucarística.

Quando Jesus envia os discípulos dois a dois, envia-os como mensageiros e portadores da paz. E quando ressuscitado aparece no cenáculo, saúda-os com a paz. O rito da saudação da paz é, numa primeira compreensão, um momento de compromisso com a promoção da paz. Quem comunga a Eucaristia compromete-se a ser construtor da paz porque é isso que fazem os filhos e filhas de Deus (Mt 5,9) e dignos de comungar a Eucaristia.


Padre e fiéis trocam o abraço e o aperto de mãos da paz durante a Missa
Abraço da Paz

É por isso que, na Liturgia Romana, o abraço da paz vem depois do Pai Nosso — manifestação de fraternidade — e antes da comunhão: porque só pode comungar quem é da paz e promove a paz. Quem provoca divisão e fomenta a desunião não pode comungar, pois não se compromete com a paz e, logicamente, demonstra não ser fraterno.

O elemento inspirador encontra-se em um princípio evangélico. Jesus mesmo ensina: “se tiveres alguma coisa contra o teu irmão, deixa a tua oferta diante do altar e, primeiro, vai reconciliar-te com ele e, depois, apresenta a tua oferta” (Mt 5,23-24). Aqui temos uma condição fundamental para se aproximar da comunhão Eucarística: a reconciliação fraterna. Volta novamente a fraternidade. Em outras liturgias, como a Ambrosiana, por exemplo, o rito da paz encontra-se antes da apresentação das oferendas. Na nossa Liturgia romana, encontra-se nesse momento para reforçar a necessidade de estar reconciliado com todos como condição para comungar. 

O abraço da paz, por isso, não é um rito de amizade, mas de reconciliação fraterna. Este é o motivo principal pelo qual não se deve cantar canções nesse momento: o canto dispersa e tira o foco do que é essencial: a partilha da paz como gesto de reconciliação, olhando para o outro, com um rito que quase que obriga a dizer: se você é incapaz de olhar para o teu irmão e irmã, primeiro reconcilie-se com ele, depois comungue. “Só pode comungar quem é da paz e promove a paz.”


Em Resumo… os dois Ritos

Antes de passar ao terceiro e quarto elementos, convém compreender a localização dos dois ritos. A oração do Pai Nosso como início do rito preparatório da comunhão, na Liturgia Ocidental, segue uma tradição antiga, mencionada por Tertuliano e Agostinho. Segundo esses Santos Padres, o abraço da paz depois da Oração do Senhor confirma a fraternidade e prepara a comunhão no Corpo de Cristo. Comungar o acolhimento do outro como prática da vivência do Mandamento Novo é condição para comungar a Eucaristia. 

O desconhecimento dessa tradição teológica faz com que esses ritos corram o risco de serem banalizados e transformados, como dizia um padre amigo meu, o abraço da paz é uma espécie de “recreio da celebração”. Não é isso, evidentemente. É, mais evidente ainda, muito mais que isso: é momento de reconciliação fraterna que prepara o celebrante para ser comungante da vida divina. 


Louvor e Adoração

A terceira condição é o louvor e a adoração, expressos no rito do Cordeiro de Deus. O louvor acontece com o canto do Agnus Dei e a expressão orante encontra-se no rito da fração do pão.

O Agnus Dei foi introduzido na Missa pelo Papa São Sérgio I (687-701), inspirado na Liturgia Oriental, especialmente na Liturgia Siríaca. Séculos depois, foi acrescentada a oração Haec commixtio, oração recitada durante o gesto de repartir a hóstia e colocar uma partícula dela no cálice.

O canto do Cordeiro de Deus é invocação laudativa, reconhecendo Jesus como a Vítima Pascal que tira o pecado do mundo. Na fração do pão, a vítima pascal é repartida e partilhada como alimento de vida eterna. É um momento de louvor e de adoração diante da vida divina “repartida” para ser partilhada com os celebrantes, diante da qual a assembleia litúrgica intercede a piedade misericordiosa do Senhor. Interceder a piedade divina e o dom da paz é um rito cantado que expressa a adoração e o louvor adorante. 

Infelizmente, muitas vezes esse rito é reduzido, por alguns padres, a um gesto prático de partir a hóstia grande e, tem-se a impressão, de se recitar automaticamente a oração prescrita no Missal. Outras vezes, é feito de modo apressado, durante o abraço da paz acumulando, assim, dois ritos: enquanto a assembleia ritualiza o gesto da reconciliação desejando a paz, o padre parte a Hóstia, com a impressão de ganhar tempo.

Em se tratando de um rito adorante, o ideal é que o rito seja ostensivo para que todos possam ver o padre repartindo o Pão consagrado. O canto do Cordeiro de Deus não é uma canção qualquer, é uma canção ritual de louvor e de adoração ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, diante do qual, adorante e humildemente, suplicamos a sua piedade.


Alegria pelo Convite

Depois dessas condições, o último rito é um convite para se aproximar alegremente da Mesa Eucarística. A Liturgia proclama: “Felizes os convidados para a Ceia do Senhor”. É a finalidade de todo o rito de preparação para comungar a vida divina presente na Eucaristia: participar com alegria da Ceia do Senhor. Participar como um convidado que se relaciona fraternalmente com todos, é promotor da paz e adora Jesus Cristo como Cordeiro imolado. 

Lembro o desejo de Jesus Cristo quando expressa o seu desejo de sentar-se à mesa com seus discípulos e discípulas: “desiderio desideravi”. Jesus diz aos seus discípulos: “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer” (Lc 22,15). Esse desejo de Jesus, que continua sendo manifestado no decorrer da história, é transformado em convite para que os convidados se alegrem em poder participar da Ceia do Senhor.

É um rito simples com um convite simples. Por isso, esse momento não comporta ritos de adoração ao Santíssimo Sacramento ou atitudes semelhantes com gestos de ajoelhar, por exemplo. Todos de pé para acolher o convite de, caminhando, se aproximar da Mesa Santa e nela comungar a vida divina.

Conclusão

A preparação para a comunhão não é um detalhe litúrgico composto quatro ritos, mas é uma escola de vida cristã proposta em modo mistagógico. Cada condição nos lembra que a Eucaristia é dom recebido e responsabilidade assumida. Fraternidade, paz, louvor adorante e alegria não são explicações de ritos, mas atitudes que acompanham a vida do cristão antes e depois da celebração Eucarística.

Sendo atitudes, a comunhão só faz sentido quando se traduz em gestos concretos no cotidiano. O altar nos envia para a vida com a missão de ser irmãos e irmãs reconciliadores, adoradores e testemunhas da alegria do Evangelho. Assim, quem comunga recebe Cristo e torna-se sinal vivo da sua presença no mundo como testemunho vivo da fraternidade.

Para aprofundar esse caminho, continue sua leitura com estes conteúdos:

Serginho Valle — Agosto de 2026

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