Quatro condições para comungar bem
O rito de preparação para a Comunhão da Eucaristia, realizado depois da Oração Eucarística e concluído com a Oração depois da Comunhão, propõe quatro condições que habilitam os celebrantes a participar da Mesa Eucarística.
Pastoral da Liturgia
Condições para Comungar a Eucaristia
Quatro atitudes que preparam o coração para se aproximar da Mesa Eucarística
O rito de preparação para a Comunhão da Eucaristia, realizado depois da Oração Eucarística e concluído com a Oração depois da Comunhão, propõe quatro condições que habilitam os celebrantes a participar da Mesa Eucarística. As quatro condições são: fraternidade, compromisso com a paz, louvor e adoração, alegria pelo convite. O rito é concluído com uma prece para que os comungantes da Eucaristia realizem na vida o que receberam (oração pos communio).
Fraternidade
Depois da doxologia conclusiva da Oração Eucarística, a Liturgia inicia a preparação dos celebrantes para se aproximar da Mesa Eucarística rezando o Pai Nosso. Esta é a primeira condição para se apresentar diante do altar e comungar a vida divina. Se todos somos filhos e filhas do mesmo Pai, todos somos irmãos e irmãs, unidos pela fraternidade. A primeira condição, portanto, é o relacionamento fraterno.
A mensagem é clara: antes de comungar, o celebrante reconhece que Deus é “Pai Nosso”, Pai de todos os homens e mulheres. Se Deus é Pai de todos, todos somos irmãos e irmãs uns dos outros. A condição para se aproximar da Mesa Sagrada é o compromisso fraterno, que antecede a celebração — vivendo fraternalmente com todos — e continua depois dela — vivendo fraternalmente com todos nos relacionamentos sociais. Depois de santificar o Nome do Pai e de se dispor a acolher o Reino fazendo a sua vontade, vem o compromisso fraterno.
O Pai Nosso propõe cinco atitudes fraternas: repartir o pão, perdoar de coração, não expor o outro às tentações que conduzam a caminhos do pecado e, fraternalmente, interceder para que o mal não nos atinja. A última petição continua em forma de embolismo: "livrai-nos de todos os males, ó Pai..."
O primeiro critério é a fraternidade. Fixar-se em ritos, como por exemplo comungar de pé, ajoelhado, com véu na cabeça, receber a Hóstia na mão ou na boca tem o seu valor e sua necessidade ritual desde que não perca de vista a condição importante: quem comunga a Eucaristia fica comprometido com a promoção da fraternidade.
Por isso, a monição introdutória ao Pai Nosso, na Missa, deveria ser inspirada no Evangelho do dia, deixando claro que a principal e mais importante condição para comungar encontra-se na vivência do Evangelho que propõe a fraternidade como condição para se fazer uma boa comunhão.
Compromisso com a Paz
A segunda condição para se aproximar da Mesa da Eucaristia é o compromisso com a paz. Compromisso decorrente da fraternidade. Quem é fraterno e promove a fraternidade é um construtor da paz, um filho e filha de Deus, de acordo com as Bem-aventuranças: “bem-aventurados os que promovem a paz porque serão chamados de filhos de Deus” (Mt 5,9). Um filho e filha de Deus é construtor da paz, aquele que promove a paz e, em assim sendo, é alguém digno de se aproximar da Mesa Eucarística.
Quando Jesus envia os discípulos dois a dois, envia-os como mensageiros e portadores da paz. E quando ressuscitado aparece no cenáculo, saúda-os com a paz. O rito da saudação da paz é, numa primeira compreensão, um momento de compromisso com a promoção da paz. Quem comunga a Eucaristia compromete-se a ser construtor da paz porque é isso que fazem os filhos e filhas de Deus (Mt 5,9) e dignos de comungar a Eucaristia.
É por isso que, na Liturgia Romana, o abraço da paz vem depois do Pai Nosso — manifestação de fraternidade — e antes da comunhão: porque só pode comungar quem é da paz e promove a paz. Quem provoca divisão e fomenta a desunião não pode comungar, pois não se compromete com a paz e, logicamente, demonstra não ser fraterno.
O elemento inspirador encontra-se em um princípio evangélico. Jesus mesmo ensina: “se tiveres alguma coisa contra o teu irmão, deixa a tua oferta diante do altar e, primeiro, vai reconciliar-te com ele e, depois, apresenta a tua oferta” (Mt 5,23-24). Aqui temos uma condição fundamental para se aproximar da comunhão Eucarística: a reconciliação fraterna. Volta novamente a fraternidade. Em outras liturgias, como a Ambrosiana, por exemplo, o rito da paz encontra-se antes da apresentação das oferendas. Na nossa Liturgia romana, encontra-se nesse momento para reforçar a necessidade de estar reconciliado com todos como condição para comungar.
O abraço da paz, por isso, não é um rito de amizade, mas de reconciliação fraterna. Este é o motivo principal pelo qual não se deve cantar canções nesse momento: o canto dispersa e tira o foco do que é essencial: a partilha da paz como gesto de reconciliação, olhando para o outro, com um rito que quase que obriga a dizer: se você é incapaz de olhar para o teu irmão e irmã, primeiro reconcilie-se com ele, depois comungue. “Só pode comungar quem é da paz e promove a paz.”
Em Resumo… os dois Ritos
Antes de passar ao terceiro e quarto elementos, convém compreender a localização dos dois ritos. A oração do Pai Nosso como início do rito preparatório da comunhão, na Liturgia Ocidental, segue uma tradição antiga, mencionada por Tertuliano e Agostinho. Segundo esses Santos Padres, o abraço da paz depois da Oração do Senhor confirma a fraternidade e prepara a comunhão no Corpo de Cristo. Comungar o acolhimento do outro como prática da vivência do Mandamento Novo é condição para comungar a Eucaristia.
O desconhecimento dessa tradição teológica faz com que esses ritos corram o risco de serem banalizados e transformados, como dizia um padre amigo meu, o abraço da paz é uma espécie de “recreio da celebração”. Não é isso, evidentemente. É, mais evidente ainda, muito mais que isso: é momento de reconciliação fraterna que prepara o celebrante para ser comungante da vida divina.
Louvor e Adoração
A terceira condição é o louvor e a adoração, expressos no rito do Cordeiro de Deus. O louvor acontece com o canto do Agnus Dei e a expressão orante encontra-se no rito da fração do pão.
O Agnus Dei foi introduzido na Missa pelo Papa São Sérgio I (687-701), inspirado na Liturgia Oriental, especialmente na Liturgia Siríaca. Séculos depois, foi acrescentada a oração Haec commixtio, oração recitada durante o gesto de repartir a hóstia e colocar uma partícula dela no cálice.
O canto do Cordeiro de Deus é invocação laudativa, reconhecendo Jesus como a Vítima Pascal que tira o pecado do mundo. Na fração do pão, a vítima pascal é repartida e partilhada como alimento de vida eterna. É um momento de louvor e de adoração diante da vida divina “repartida” para ser partilhada com os celebrantes, diante da qual a assembleia litúrgica intercede a piedade misericordiosa do Senhor. Interceder a piedade divina e o dom da paz é um rito cantado que expressa a adoração e o louvor adorante.
Infelizmente, muitas vezes esse rito é reduzido, por alguns padres, a um gesto prático de partir a hóstia grande e, tem-se a impressão, de se recitar automaticamente a oração prescrita no Missal. Outras vezes, é feito de modo apressado, durante o abraço da paz acumulando, assim, dois ritos: enquanto a assembleia ritualiza o gesto da reconciliação desejando a paz, o padre parte a Hóstia, com a impressão de ganhar tempo.
Em se tratando de um rito adorante, o ideal é que o rito seja ostensivo para que todos possam ver o padre repartindo o Pão consagrado. O canto do Cordeiro de Deus não é uma canção qualquer, é uma canção ritual de louvor e de adoração ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, diante do qual, adorante e humildemente, suplicamos a sua piedade.
Alegria pelo Convite
Depois dessas condições, o último rito é um convite para se aproximar alegremente da Mesa Eucarística. A Liturgia proclama: “Felizes os convidados para a Ceia do Senhor”. É a finalidade de todo o rito de preparação para comungar a vida divina presente na Eucaristia: participar com alegria da Ceia do Senhor. Participar como um convidado que se relaciona fraternalmente com todos, é promotor da paz e adora Jesus Cristo como Cordeiro imolado.
Lembro o desejo de Jesus Cristo quando expressa o seu desejo de sentar-se à mesa com seus discípulos e discípulas: “desiderio desideravi”. Jesus diz aos seus discípulos: “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer” (Lc 22,15). Esse desejo de Jesus, que continua sendo manifestado no decorrer da história, é transformado em convite para que os convidados se alegrem em poder participar da Ceia do Senhor.
Conclusão
A preparação para a comunhão não é um detalhe litúrgico composto quatro ritos, mas é uma escola de vida cristã proposta em modo mistagógico. Cada condição nos lembra que a Eucaristia é dom recebido e responsabilidade assumida. Fraternidade, paz, louvor adorante e alegria não são explicações de ritos, mas atitudes que acompanham a vida do cristão antes e depois da celebração Eucarística.
Sendo atitudes, a comunhão só faz sentido quando se traduz em gestos concretos no cotidiano. O altar nos envia para a vida com a missão de ser irmãos e irmãs reconciliadores, adoradores e testemunhas da alegria do Evangelho. Assim, quem comunga recebe Cristo e torna-se sinal vivo da sua presença no mundo como testemunho vivo da fraternidade.
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Serginho Valle — Agosto de 2026

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