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9 de set. de 2026

Liturgia e ecologia


Conversão ecológica: um louvor que nasce da Liturgia

Como a oração litúrgica nos ensina a cuidar da Casa Comum e celebrar o cântico de toda a criação.

Serginho Valle  ·  Setembro 2026  ·  Liturgia Paroquial  ·  Ecologia Integral

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Há momentos em que a voz da Igreja precisa ressoar qual eco da criação que gratuitamente recebemos de Deus como “casa comum” da humanidade. A consideração da criação como dom divino, como obra de Deus oferecida aos seus filhos e filhas, desperta a sensibilidade humana para a ação de graças e o consequente cuidado da criação através do que, hoje, se denomina consciência ecológica.

Já tive a oportunidade de refletir sobre o mesmo tema, em outro artigo, há dois anos (em 2024), de onde retomo algumas ideias e citações para a presente reflexão.

A Igreja é ecológica

A Igreja entende que esse cuidado, manifestado na defesa de rios, árvores, florestas, geleiras e mares, é um modo de evangelizar, direcionando nossos olhos para os “lírios do campo e as aves do céu” (Mt 6,28-30) e, mais efusivamente, para acolher o grande convite do salmista:

“Árvores e plantas glorifiquem o Senhor”  (Sl 148)

Papa Leão XIV, no dia 1º de outubro de 2025, convidou a Igreja a reconhecer que o cuidado da terra não é um modismo, mas parte da responsabilidade da fé: cuidar da “Casa Comum” é cooperar com a obra divina da criação e um gesto fraterno e solidário para com a vida humana e de todos os seres vivos. O fundamento bíblico remonta às primeiras páginas da Sagrada Escritura.

A reflexão do Papa Leão XIV, no dia 1º de outubro de 2025, foi realizada no Centro Mariápolis dos Focolares, em Castel Gandolfo (Itália), ao participar da conferência “Raising Hope on Climate Change”. Na ocasião, ele disse que o grito da terra não pode ser reduzido a uma moda passageira, nem a discursos efêmeros que se perdem com o tempo. A insistência do Papa é que a ecologia, quando vivida com fé, se torna caminho de conversão, exigindo mudança de estilos de vida e, para isso, a conversão de mentalidade e de coração (Rm 12,2).

A Igreja, desde a encíclica Laudato Si’ — escrita pelo Papa Francisco (2015) — e, em âmbito brasileiro, através das Campanhas da Fraternidade dedicadas à ecologia (8 campanhas ao todo), insiste num fato: cuidar da criação é viver o Evangelho no concreto da vida. É um modo de estar a serviço da vida humana, um modo de viver concretamente o Mandamento Novo, adorando a Deus através da criação e dela cuidando para que a vida não seja ameaçada. Acrescente-se também que se trata de responder ao desejo divino de que todos participem da beleza e da abundância da criação. É uma resposta adorante e fraterna traduzida em solidariedade pelo bem comum e pela dignidade para todos. Ter cuidado ecológico, a exemplo de São Francisco de Assis, é um modo de crescer espiritualmente na vida cristã.

A Liturgia como espaço do cântico cósmico

A Igreja, quando celebra a Liturgia das Horas, ao recitar os salmos, em vários tempos — especialmente no Dia do Senhor —, faz questão de convidar toda a criação a unir-se à oração da Igreja para louvar a Deus. É o que cantamos na celebração das Laudes do Domingo da 1ª semana.

“Louvai-o, sol e lua, louvai-o, todas as estrelas luzentes… Montes e colinas, árvores frutíferas e todos os cedros.”  (Sl 148)

A Liturgia torna-se um espaço no qual a voz da Igreja empresta sua voz a todas as obras da criação, em toda a sua beleza, para louvar a Deus. É a Igreja que, como acontece na Liturgia das Horas, assume a voz do salmista para proclamar:

“Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.”  (Sl 19,2)



Assim, o celebrante e a assembleia orante da Liturgia das Horas tornam-se a voz da criação inteira, emprestando suas palavras e sua fé para que o louvor de todas as criaturas se eleve ao Criador. A maravilhosa obra da criação divina é fonte inspiradora do louvor ao Criador. Facilmente se percebe que é uma oração e um louvor ecológicos.

Espiritualidade que se faz compromisso

Ao considerar a vida e o crescimento espiritual de muitos santos e santas — entre os quais São Francisco de Assis é o mais conhecido —, percebe-se que fizeram da natureza, considerando-a de modo ecológico, uma verdadeira escola de espiritualidade.

Muitos são os santos e santas que se santificaram através da criação: desde as provas da existência divina através da criação, escritas por São Tomás de Aquino (as conhecidas “5 vias”), até o uso da criação como fonte medicinal por Santa Hildegarda de Bingen. Acrescente-se ainda o trabalho na natureza, no cultivo da jardinagem e na preservação de florestas como modo de ascese em muitos mosteiros.

O maior poeta da natureza, São Francisco de Assis, como que resume todo o louvor na conhecida poesia orante:

“Laudato si’, mi Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa”

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa.” — São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas


O Pobre de Assis foi capaz de celebrar uma verdadeira Liturgia ecológica e santificar-se cuidando da natureza que, sendo criatura de Deus, era tratada fraternalmente por ele: irmã árvore, irmão lobo, irmão sol, irmã lua…

O cuidado da criação divina, de modo gratuito e não lucrativo, torna-se uma fonte da espiritualidade cristã que ensina a respeitar a terra, partilhar os bens produzidos nela, cultivar a justiça e a solidariedade para que os bens da criação sejam de todos. Pensemos na Eucaristia: ao nos colocar diante do pão e do vinho que — frutos da terra e do trabalho humano —, nos convida a cuidar do dom da criação como partilha para que todos possam viver. É a ecologia dentro da Liturgia.

Um dado que poucos conhecem, principalmente na cultura urbana, são as Missas de Quatro Têmporas, celebradas para marcar o início das quatro estações do ano, ligadas ao ciclo agrícola da preparação da terra, ao tempo da semeadura, à fertilidade das sementes e ao tempo da colheita. A Liturgia das Missas das Quatro Têmporas tem forte sentido de santificação do tempo e da criação, integrando a vida humana ao ritmo da natureza. Quer algo mais ecológico que isso dentro da Liturgia?

Louvar a Deus cuidando da criação

O cuidado da ecologia sempre foi celebrado pela Liturgia; aliás, é uma herança judaica. O Antigo Testamento sempre manteve celebrações do tempo da colheita, da entrega das primícias e do dízimo de tudo o que era criado. Jesus participava dessas celebrações como ação de graças pela bondade divina manifestada na natureza, que nos alimenta e possibilita viver.

A Igreja mantém a proposta de que, quando preservamos a natureza, quando defendemos os pobres atingidos pelas mudanças climáticas, quando renunciamos ao desperdício para não explorar agressivamente as reservas ambientais… estamos testemunhando, do ponto de vista cristão, que louvar a Deus e cuidar da criação são dimensões inseparáveis da vida cristã.

Conclusão

A oração se transforma em gesto, e o gesto se transforma em espiritualidade que conduz os celebrantes a contemplar a obra da criação e a serem seus guardiões. Cuidar da criação não é luxo nem ideologia: é fidelidade a Deus, que nos confiou o jardim da vida.

No altar e fora dele, somos chamados a unir nossa voz à da terra, para que o louvor de todas as criaturas se eleve como perfume agradável ao Senhor. Assim, a conversão ecológica se torna nossa Liturgia e nosso compromisso em favor da dignidade de todos pelo cuidado da casa comum.

Setembro 2026

Serginho Valle


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