Pastoral da Liturgia
A Liturgia evangeliza?
Quando a celebração conduz a caminhar na estrada de Jesus
Se existe uma constatação que precisamos fazer com
coragem em nossas comunidades paroquiais é se a maneira como celebramos a
Liturgia está evangelizando. Dizendo diferente: se o modo como celebramos todos
os Sacramentos está evangelizando.
A pergunta é importante porque a Liturgia não é
simplesmente um momento em que se fala sobre o Evangelho. A Liturgia celebra o
Evangelho. Nela, o Mistério de Cristo é proclamado, celebrado, acolhido e
vivido pela assembleia. Por isso, tudo aquilo que acontece na celebração
participa da comunicação do Evangelho: a Palavra proclamada, o canto, o
silêncio, os gestos, os símbolos, o espaço, os ministérios, as orações e a
participação da assembleia. A questão, portanto, não é como colocar a
evangelização dentro da Liturgia, como se fosse uma atividade acrescentada à
atividade litúrgica. O desafio da Pastoral da Liturgia é fazer com que a
própria celebração manifeste sua força evangelizadora.
Evangelizar significa favorecer o encontro da vida com o
Evangelho, de modo que a pessoa possa reconhecer em Jesus Cristo um caminho (o
único caminho) para sua existência. É nesse sentido que a Liturgia possui uma
força evangelizadora própria: ela não apenas fala de Cristo; ela introduz os
celebrantes sacramentalmente no Mistério salvador de Jesus Cristo. E isso
acontece através do discipulado. Ingressar na Salvação é caminhar na “estrada
de Jesus”, no caminho do discipulado. Isso deve ser alimentado e orientado
mistagogicamente em cada celebração.
Essa reflexão ganha especial importância neste momento da
Igreja no Brasil. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no
Brasil – DGAE 2026-2032, Documento 114 da CNBB, colocam a missão evangelizadora
no centro da caminhada pastoral da Igreja para os próximos seis anos. Isso nos
leva inevitavelmente a perguntar: se a Igreja existe para evangelizar, como
nossas celebrações participam dessa missão? Sobre a Liturgia na DGAE 2026-2032,
voltarei a refletir em breve.
A Liturgia evangeliza com outra dinâmica
Quando se pensa em evangelização, normalmente, um grande
número de católicos considera uma ação na qual alguém anuncia, explica, prega,
e outras pessoas escutam a mensagem do Evangelho. Essa é uma forma legítima de
evangelizar; a mais comum. A Liturgia evangeliza com outra dinâmica. Nela, o
Evangelho é comunicado não somente por palavras, mas pela totalidade da ação
celebrativa, com todas as linguagens da comunicação litúrgica.
A Palavra é proclamada, escutada e refletida. A
assembleia responde. O canto interpreta e interioriza aquilo que é celebrado. O
silêncio cria espaço para a escuta e a reflexão da Palavra proclamada. Os
símbolos nos aproximam daquilo que não podemos ver. Os gestos envolvem o corpo
na oração. Os ministros exercem seus ministérios em modo evangelizador. O
espaço litúrgico manifesta que estamos diante de uma realidade que sai do
cotidiano. Tudo isso constitui uma forte atividade evangelizadora. A Liturgia
evangeliza por aquilo que celebra e pela maneira como celebra.
Por isso, celebrar jamais se limita a executar uma série
de ritos e ritualidades. Muito menos é explicação. Aliás, a bem da verdade, a
comunicação litúrgica, sendo predominantemente linguagem celebrativa, tem pouco
espaço para explicações e muito espaço para silenciar e fazer experiência do
sagrado. A equação, neste caso, é entendida dessa forma: a catequese explica, a
formação ensina, a pregação anuncia (kerigma). A reflexão teológica aprofunda.
A Liturgia tem a prerrogativa de celebrar; celebrar em modo memorial o Mistério
da Salvação.
Batismo de uma criança na igreja católica
São João XXIII, em Fort Collins (EUA): não se explica o que é nascer para uma
vida nova, celebra-se essa vida nova.
Quando celebramos o Batismo, por exemplo, não estamos
explicando o que significa nascer para uma vida nova. Celebramos
sacramentalmente essa vida nova nascendo em quem é batizado. Quando celebramos
a Eucaristia, não estamos ensinando que Jesus Cristo morreu e ressuscitou.
Celebramos sacramentalmente seu Mistério Pascal, cujo centro encontra-se na sua
Morte e Ressurreição, e somos envolvidos nele; quer dizer, comungamos e
participamos neste Mistério.
É por isso que a Constituição Sacrosanctum Concilium
afirma que a Liturgia é, ao mesmo tempo, o cume para o qual tende a ação da
Igreja e a fonte de onde brota sua força (SC 10). É o cume da evangelização
porque cristãos e cristãs evangelizados precisam da Liturgia para celebrar o
Evangelho em suas vidas e, como fonte, a Liturgia os envia como evangelizados e
evangelizadores. A celebração não é um intervalo na missão evangelizadora. Ela
pertence ao próprio dinamismo da vida cristã, que acolhe os evangelizados e os
envia como evangelizadores.
Uma Liturgia verdadeiramente evangelizadora não
transforma a Missa em palestra, em catequese e, menos ainda, em espetáculo
religioso com predomínio emocional. Uma Liturgia bem celebrada é aquela capaz
de colocar a vida concreta de cada celebrante em contato com a proposta do
Evangelho.
O canto, o silêncio e os símbolos
Pensemos no canto. Não é a mesma coisa cantar uma música
religiosa e cantar uma canção litúrgica. Quando o canto nasce da Palavra,
afinado com o Tempo Litúrgico, adequado ao rito próprio de cada momento, ele
jamais será apenas uma trilha sonora. A assembleia canta sua fé, sua súplica,
sua esperança e sua ação de graças. O canto ajuda a fazer a Palavra permanecer
no coração depois que a celebração termina. Como é bom, no decorrer da semana,
ter na mente a canção cantada na Missa dominical. O canto continua cantando,
rezando, evangelizando.
O mesmo acontece com o silêncio. Em uma cultura marcada
pelo excesso de palavras, imagens e informações, o silêncio litúrgico é
profundamente evangelizador. Não como um intervalo vazio, mas como espaço para
acolher aquilo que foi proclamado e celebrado. É sabidamente comprovado que o
Evangelho penetra mais profundamente quando deixamos de acrescentar palavras e
silenciamos. Por isso, a importância do silêncio da boca e dos olhos: silenciar
não falando e silenciar não lendo as leituras (pior ainda no celular), mas
silenciar os olhos para ouvir a Palavra proclamada.
Também os símbolos possuem uma força evangelizadora, e
pouco aproveitada, diga-se de passagem. A água, o óleo, a luz, o incenso, a
cruz, o pão, o vinho, o altar, o ambão, as vestes, as procissões e os gestos
não estão na celebração simplesmente porque sempre estiveram. Eles possuem uma
linguagem própria, a linguagem que transforma o Evangelho em comunicação
simbólica. Para isso, o símbolo precisa ser celebrado, e não simplesmente
exibido.
Noivos diante do altar, na celebração do
Matrimônio: os gestos, os símbolos e o espaço também comunicam o Evangelho.
A Liturgia possui, portanto, uma verdadeira pedagogia do
Evangelho. Ela envolve a pessoa inteira: inteligência, memória, afetividade,
corpo, espiritualidade e relações. Por isso, uma celebração evangelizada e
evangelizadora não é aquela que provoca mais emoções, utiliza mais recursos de
ensinamentos ou oferece mais estímulos. É aquela que permite que a própria
comunicação litúrgica, com todas as suas linguagens, comunique a verdade do
Evangelho com beleza e com sobriedade para tocar a vida pessoal de cada
celebrante e, igualmente, de toda a comunidade.
Uma celebração evangelizada
Aqui
aparece uma questão fundamental: para que uma celebração seja evangelizadora,
ela precisa ser uma celebração evangelizada.
Isso significa que aqueles que preparam, presidem,
proclamam, cantam, servem — que são os membros das Equipes de Celebrações —
precisam estar permanentemente em processo de formação e crescimento
espiritual. Uma Equipe de Celebração pode conhecer muito bem as normas, as
rubricas e, ainda assim, não compreender suficientemente o Mistério que
celebra. Uma pessoa em seu ministério pode executar corretamente sua função sem
perceber aquilo que seu ministério comunica; é um executor da função sem
entender o que está comunicando. Um leitor pode pronunciar corretamente as
palavras sem realmente proclamar a Palavra. Um músico pode escolher cantos
conhecidos sem necessariamente ajudar a assembleia a rezar cantando. Por isso,
não basta perguntar se “está tudo certo ritualmente”. É preciso perguntar
também: “O que estamos realizando ritualmente está comunicando?” E, nesta
reflexão: está plantando sementes do Evangelho na vida dos celebrantes?
É justamente aqui que a Pastoral DA Liturgia encontra sua
grande responsabilidade. Formar para a Liturgia não significa apenas ensinar o
que fazer e como fazer. Significa ajudar a compreender o que celebramos, por
que celebramos e como aquilo que fazemos comunica liturgicamente o Evangelho.
Essa formação — proposta no curso Pastoral DA Liturgia —
abrange Teologia litúrgica, espiritualidade e comunicação litúrgica. Veja que
não estou dizendo Pastoral Litúrgica, mas Pastoral DA Liturgia. Formação não
para produzir especialistas em rubricas, mas celebrantes capazes de celebrar
com consciência, fé e responsabilidade pastoral.
As novas DGAE 2026-2032 oferecem uma oportunidade para
aprofundarmos essa reflexão. Uma Igreja que deseja ser missionária precisa
também perguntar: como celebramos a missão? Como nossas celebrações formam
discípulos? Como nossos sacramentos comunicam a Boa-Nova? Como a Liturgia envia
a comunidade para a vida?
A resposta não está em tornar a celebração simplesmente
mais “atrativa”, embora isso aconteça naturalmente com celebrações
evangelizadas e evangelizadoras. Também não está em acrescentar técnicas de
comunicação ou transformar a Missa em encontro catequético ou numa espécie de
show religioso que fala do Evangelho. A resposta está em permitir que a própria
Liturgia comunique evangelizadoramente aquilo que celebra.
É nesse contexto que se situa o curso PASTORAL DA
LITURGIA. A proposta é ajudar comunidades, ministros, equipes de Liturgia,
agentes pastorais, diáconos, religiosos, religiosas e leigos a compreenderem a
celebração como verdadeira ação pastoral da Igreja, compreendendo que toda
atividade pastoral da Igreja é atividade evangelizadora.
Uma Pastoral DA Liturgia evangelizadora precisa passar da
simples execução do rito para a compreensão da celebração; da excessiva
preocupação com a “cerimônia ritual” para a experiência do Mistério; da
organização da Liturgia para uma verdadeira Pastoral DA Liturgia, que produz
celebrações evangelizadas e evangelizadoras.
Silenciar a boca e os olhos para ouvir e
acolher a Palavra
No fundo, talvez a pergunta “A Liturgia evangeliza?”
precise ser completada: Como estamos celebrando o Evangelho? Porque, na
verdade, a Igreja não precisa inventar uma nova Liturgia para evangelizar.
Precisa celebrar profundamente a Liturgia que recebeu, porque esta é conduzida
pelo Espírito Santo, e tudo que é conduzido pelo Espírito de Deus, como é a
Liturgia, orienta como caminhar na estrada de Jesus.
Talvez este seja um dos grandes desafios pastorais dos
próximos anos: formar comunidades capazes de celebrar o Evangelho e não se
preocupar tanto com atrativos para atrair e encher igrejas.
Serginho Valle
Novembro de 2026
Para continuar a reflexão
👉 Curso Pastoral da Liturgia: conheça a formação
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