28 de dez de 2016

Catequese litúrgica 2 = Liturgia e Epifania

Um tempo novo e um novo caminho se abre diante de nós no mês de Janeiro. Por isso, votos de feliz ano novo, abençoado e repleto das bênçãos divinas. Este é o primeiro sentimento que a Liturgia expressa quando celebra a Solenidade da Mãe de Deus, invocando na 1ª leitura a bênção divina para todo o povo, na certeza que somos necessitados desta bênção para iluminar nossos passos no decorrer de todo o novo ano.
A Palavra da Solenidade da Mãe de Deus, além da teologia e espiritualidade litúrgica da Maternidade Divina em Maria, considera também o contexto do Ano Novo, que se inicia com a intercessão pela paz no mundo inteiro. A bênção divina é a pessoa de Jesus Cristo presente na vida pessoal, na vida da comunidade e em toda a terra. O melhor modo de participar dessa bênção, diz São Paulo, é tornando-se filhos e filhas de Deus (2L da Solenidade da Mãe de Deus).

Tempo epifânico: adoração e conversão
Do ponto de vista da Teologia Litúrgica, as primeiras celebrações do Ano Litúrgico, depois do Advento, caracterizam-se como celebrações “epifânicas”. Isto em decorrência das celebrações natalinas, mas também presente no início da primeira parte do Tempo Comum.
A Epifania, do ponto de vista da Liturgia cristã, é a celebração da manifestação divina no mundo em Jesus Cristo. Deus que se manifesta em Jesus Cristo. — Para a Teologia Litúrgica Oriental, as celebrações litúrgicas são epifanias divinas, são manifestações da presença divina na terra em modo sacramental. — As celebrações que acontecem no início do Ano Litúrgico (que corresponde a dezembro e janeiro do mês civil) facilitam esta compreensão, porque nos ajudam a perceber como Deus se manifesta ao mundo, na pessoa de Jesus, o Verbo Encarnado, celebrado na Liturgia em sua dupla dimensão: memorial e compromisso de vida.
O primeiro momento (no mês de janeiro) encontra-se na Solenidade da Mãe de Jesus, quando a Sagrada Família manifesta (faz epifania) da glória divina deitada numa manjedoura aos pastores. Tal manifestação continua na Solenidade da Epifania propriamente dita, com a profissão de fé dos Reis Magos: “Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo!” Deus se manifesta como recém-nascido pobre e como luz que atrai todos os povos à adoração. Neste sentido, a Epifania não apenas vê, contempla, mas tem o compromisso de convidar a adorar o Deus único e verdadeiro. Consequentemente, o inverso disso consiste na necessidade de abandonar os ídolos e toda forma de idolatria antiga e atual. É a conversão existencial, representada nos Reis Magos que voltam por um caminho diferente depois de terem adorado o Menino Deus (Mt 2,12).

Vida iluminada pela luz divina: atraídos para Jesus
A Liturgia relacionada à Epifania divina demonstra que toda a humanidade pode ser iluminada com a luz divina, porque Jesus, o Filho de Deus, é a luz que veio para iluminar o mundo (Jo 1,8-13). Isto vem do simbolismo da “estrela guia” que conduziu os Magos até o presépio. Por isso, a Liturgia é Epifania enquanto conduz e acende a luz divina entre os celebrantes e os atrai para o encontro com Jesus. Esta é a definição da nova evangelização: evangelizar não é tanto explicar o Evangelho, mas promover o encontro com Jesus para fazer discípulos. Assim a Epifania é movimento evangelizador por atrair os celebrantes ao encontro com Jesus. Os Magos são o exemplo evangélico, neste sentido.
Também a celebração da Festa do Batismo do Senhor entra no contexto da Epifania, pela apresentação de Jesus, não feita pela sua família, como no presépio, mas feita pelo próprio Pai: “Eis meu Filho muito amado, escutai-o todos vós!” Jesus é manifestado (epifania) pelo Pai como seu Filho e como seu Servo.
A referência ao “Servo de Javé”, o escolhido especialmente por Deus para uma missão que o próprio Deus deveria realizar na terra, é Jesus. No contexto da Teologia da Epifania, a Liturgia não o apresenta somente como Filho de Deus, mas como “Servo de Deus”, o servidor de Deus, aquele que está entre nós para prestar um serviço a Deus em favor da humanidade. O Servo de Javé e sua missão, descritos por Isaias (Is 52,13-53,12), realiza-se plenamente em Jesus. O tema do “Servo de Javé” é celebrado pela Liturgia na Paixão do Senhor, de onde a Epifania ter uma ligação direta com o momento máximo do serviço que Jesus presta ao Pai em favor da humanidade.
Quanto aos celebrantes do Batismo epifânico de Jesus, estes recebem da celebração o compromisso concreto de viverem como filhos e filhas de Deus, como também, a exemplo de Jesus Cristo, o compromisso relacionado ao serviço. Em resumo, configurados a Jesus, no e pelo Batismo, o cristão assume a mesma dinâmica e a mesma proposta existencial do Mestre que veio não para ser servido, mas para servir (Mt 20,28).  


Epifania no início do Tempo Comum - A
A manifestação (epifania) de Jesus continua no início do Tempo Comum, no 2º Domingo do Tempo Comum – A (2DTC-A), mais precisamente, com a apresentação de Jesus pelo maior de todos os profetas, João Batista, que o manifesta (faz epifania) como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!
João é o terceiro personagem que “manifesta”, faz epifania da presença divina no mundo, na pessoa de Jesus. Primeiro foram José e Maria, depois o próprio Deus Pai e, agora, João Batista. Como de cada epifania se percebe uma atividade messiânica de Jesus, o mesmo acontece na epifania feita por João Batista, no início deste Tempo Comum: introduz Jesus na missão profética do Servo de Javé, aquele que tem a vocação de, pelo sacrifício, se tornar “cordeiro”, isto é, oferecer a própria vida como oferta pascal. A vocação profética do "Servo de Javé" realiza-se plenamente em Jesus Cristo, que trouxe para a terra e para toda a humanidade o projeto divino: o Reino de Deus. Um projeto a ser seguido por quem deseja morar com Jesus, isto é, tornar-se discípulo e discípula de Jesus (Evangelho do 2DTC-A). A consequência concreta, portanto, não é apenas conhecer Jesus como “Cordeiro de Deus”, mas entrar no discipulado.
A conclusão de todas estas celebrações epifânicas, realizadas no final do Tempo Natalino e início do Tempo Comum - A, retomam o tema da luz, que pode ser resumido na seguinte passagem Bíblica: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz!” (1L do 3DTC-A). É a profecia de Isaias que se realiza em Jesus, porque ele é a luz do mundo e trouxe o seu Evangelho para iluminar a terra com a luz divina. Novamente, o compromisso concreto do discipulado para não se viver nas trevas do mundo.
Do ponto de vista celebrativo, entende-se que todos que se fazem discípulos e discípulas de Jesus tornam-se iluminados e também iluminadores da luz divina, trazida por Jesus e seu Evangelho. É a dinâmica da evangelização: iluminar a terra com a luz do Evangelho. É pela evangelização, que o grande sonho humano coincide com o sonho divino de acender a luz do Evangelho para iluminar os corações de homens e mulheres tornando-os discípulos e discípulas. Isto tem seu início pela vivência das Bem-aventuranças, o coração do Evangelho, que é proclamada na última celebração Dominical de Janeiro (4DTC-A). Assim, depois da Epifania, depois de apresentar quem é Jesus, a Liturgia, pedagogicamente, inicia a formação dos celebrantes no discipulado.
Serginho Valle
2016


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