10 de fev de 2016

No DNA da Liturgia está o serviço (3): Serviço eclesial

Esta é a nossa terceira reflexão sobre a Liturgia, considerando-a no enfoque do serviço. Nesta reflexão, vamos considerar a Liturgia enquanto atividade eclesial do serviço da Igreja em favor do povo. Uma dimensão da Liturgia que ajuda a compreender, de modo claro e cristalino, uma das primeiras e principais finalidades da ação litúrgica da Igreja: colocar-se a serviço do projeto divino e colocar-se a serviço do povo.
            No primeiro aspecto, este de colocar-se a serviço do projeto divino, a Igreja compreende que quem determina o contexto celebrativo e o “modus celebrandi” é o Mistério da Salvação e não outras finalidades, como por exemplo, usar o momento litúrgico para fazer campanhas ou algum tipo de promoção. Liturgia não é programa de auditório, é celebração memorial, atualização do Mistério Pascal no nosso hoje. Um conceito que não é meramente teórico, mas substancialmente fontal (fonte), no sentido que a Igreja é chamada a ser servidora do projeto divino no mundo e isto acontece especialmente através da Liturgia, “ação sagrada por excelência, cuja eficácia nenhuma outra ação da Igreja iguala, sob o mesmo título e grau” (SC 7).
            O segundo aspecto é a função servidora da Igreja, colocando-se a serviço do povo através da Liturgia. Durante um tempo da história, principalmente da Idade Média, a Liturgia transformou-se em plataforma de expressões artísticas para a música, pela qual promovia grandes compositores, da arte visual, como a arquitetura, da pintura, da escultura, do mobiliário e do vestuário. Acrescente-se a isso a arte cênica, com a introdução de ritos intermináveis, que desviavam a atenção do essencial. Como dizem vários historiadores litúrgicos, uma Liturgia para se ver, para ser assistida e se emocionar, mas pouco orante e provocadora de conversão. Na reforma litúrgica do Vaticano II, com a Sacrosanctum Concilium (1964), a Igreja eliminou aquilo que considerava excessos para propor uma Liturgia mais simplificada em vista de facilitar a participação celebrativa em dois aspectos.
            No primeiro aspecto, a participação tem a ver com aquilo que expressa bem o vocábulo latino “partem caepere”: tomar parte, entrar dentro do processo celebrativo. Mesmo que o “assistir” seja uma forma de participação ativa, a Igreja entende que seu serviço não pode se limitar ao assistir com conotações passivas, e propõe que os celebrantes sejam atuantes na celebração. Destaco três atitudes desta compreensão de participação: rezando, cantando e silenciando. Facilitar e introduzir os celebrantes nesta dinâmica é um modo de serviço, colocando-os dentro do movimento orante, laudativo e reflexivo, presentes em toda celebração litúrgica. Transformar a celebração numa cantoria, com gritos de ordem, por exemplo, é um deserviço ao povo.
            O segundo aspecto do serviço que a Igreja presta na Liturgia, no contexto da participação, é de ordem espiritual e pode ser considerado em duas dinâmicas. Numa delas, a Igreja serve seus celebrantes tornando-os participantes do Mistério Pascal de Cristo, quer dizer, colocando-os dentro do Mistério Pascal de Cristo. Trata-se da dinâmica participativa mais importante, esta de ajudar os celebrantes o tomarem parte dos méritos salvíficos que Deus oferece na ação litúrgica. É o mais importante, porque este Mistério Pascal é atualizado na celebração litúrgica.
Na outra dinâmica participativa, está o processo evangelizador, pelo qual a Igreja se torna servidora do Evangelho e sempre propositora do caminho do discipulado aos celebrantes. É aqui que compreendemos a importância de homilias bem feitas, pelas quais, pouco a pouco, mas ininterruptamente, a Igreja é chamada a pedagogicamente conduzir seus celebrantes no processo do discipulado. A homilia, neste sentido, não é um momento doutrinal ou teológico ou moralista com pregações infindáveis, mas uma proposta existencial de quem vive aquilo que prega. Um serviço que evangeliza não apenas com conceitos e conhecimentos da Palavra, mas com o modo de viver a Palavra.

Serginho Valle
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