5 de mar. de 2016

Liturgia, escola da oração cristã

A busca da paz interior enche consultórios de psicólogos em todas as partes do mundo. O caminho para o encontro com esta paz, tão desejada e procurada, começa pelo silenciamento, pelo aprendizado do silêncio, que é a porta para se entrar na casa da oração e da meditação orante. Por isso, podemos sim ir ao psicólogo e pedir que nos ensine a encontrar a paz interior, mas podemos também seguir o exemplo do Mestre, que buscava locais silenciosos para se encontrar com o Pai e passar a noite em oração (Lc 6,12).
            A escola orante da Liturgia escolheu este segundo caminho: transformar nossas celebrações e os espaços celebrativos em locais silenciosos, onde é possível ouvir a Palavra do Pai (Liturgia da Palavra) e se alimentar da vida divina partilhada como alimento, na Comunhão Eucarística. É com este princípio que as celebrações litúrgicas se apresentam como possibilidade pedagógica para a oração pessoal e comunitária. Um modo de conceber as celebrações litúrgicas como escola da oração cristã.
            Não é tarefa fácil, numa cultura com uma dificuldade imensa para silenciar, até mesmo quando, no caso cristão, sabe e reconhece que o silêncio é um ensinamento testemunhal do Mestre. Dificuldade também porque existe uma forte tendência transferir a linguagem de auditórios para as celebrações. Aquela do auditório é uma linguagem mais fácil e com um feedback, com um retorno, imediato, do ponto de vista participativo, além de o aprendizado acontecer diariamente, na sala da casa, diante da televisão.
            À medida que isso vai se tornando costume, corre-se o risco de cultivar uma religião com fundamentos emocionais, fundamentada numa fé como auto-ajuda, diminuindo força da fé que se alimenta da oração silenciosa de quem ouve e louva o Senhor, reconhecendo que para Deus até o silêncio é louvor (Sl 65,1). A biografia de santos está repleta de exemplos de homens e mulheres que aprenderam a silenciar diante de Deus, especialmente no silêncio celebrativo da Liturgia.
            Ora, é importante que se diga: isto não significa celebrar com sisudez, de modo seco. As palmas e até a dança celebrativa podem acontecer na celebração, mas dentro de limites quanto a momentos celebrativos, tempos litúrgicos e duração intra-celebrativa. Do ponto de vista da pedagogia orante, Liturgia não é atração musical, é escola de oração inspirada na oração silenciosa do Mestre.
Reconheço que se trata de um caminho árduo, que exige muito esforço da parte de padres e da Pastoral Litúrgica. Mas, tenho experiência de muitas comunidades, especialmente entre os jovens que, depois de experimentar celebrações silenciosamente orantes — com canções orantes, com orações silenciadas, por exemplo — buscam mais intensamente estes momentos. Não precisamos de músicas modernas (ou modernosas) para atrair os jovens, crianças e adultos para as Missas. Precisamos sim daquilo que temos e recebemos da Igreja: celebrar Liturgias orantes, para que as pessoas se encontrem com Deus e com o Senhor. Quanto menos barulho em nossas celebrações, melhor!
Serginho Valle


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