22 de dez de 2017

As “quatros Missas” do Natal... e a “Missa do Galo”?

Lembro que no meu tempo de criança e de adolescente, a família se reunia ao redor da árvore de Natal e do presépio, que o pai e a mãe montavam na sala. O rito iniciava-se com uma oração, que rezávamos em alta voz, de olho nos pacotes de presentes. Isso era por volta das 20hs. Depois, vinha a Ceia de Natal, um tempo para brincar com os novos brinquedos e a Missa do Galo.
            “Missa do Galo” é uma expressão que vem da Idade Média, quando os horários eram estabelecidos pelo canto do galo e pelo início da aurora. Hoje, a Liturgia conserva a “Missa da Aurora” e, popularmente, a chamada “Missa do Galo”. A expressão vem da indicação do horário, nos antigos “ordo liturgicus” que dizia: “ad gali cantum” – quando o galo cantar –. Isso servia não tanto para dizer que os galos da Idade Média cantavam à meia-noite, mas para indicar que essa deveria ser a primeira Missa do Natal, celebrada à meia-noite. A outra Missa seria na aurora e, depois dessa, a Missa do Dia. Tem ainda uma quarta “Missa do Natal”, celebrada antes da “Missa do Galo”, que se chama “Missa da Vigília”.
            Hoje, por motivos de segurança, especialmente nas grandes cidades, o galo parou de cantar a meia-noite; não se celebra a “Missa da Noite”, como hoje se chama, à meia-noite. Algumas comunidades chegam ao absurdo de celebrar a Missa do Natal as 18hs ou as 19hs para facilitar a Ceia de Natal. Pessoalmente, penso que deveria ser o contrário: a Ceia de Natal deveria se amoldar ao horário solene da Missa do Natal, já que o que realiza realmente o Natal é celebração da Missa; a Ceia do Natal é continuidade, é ágape da celebração Eucarística do Natal. Penso que deveria ser a Missa a determinar o horário da ceia e não o contrário.

Celebração alegre
A Missa da Noite de Natal, celebrada no dia 24, é uma das celebrações mais alegres e festivas que temos na Igreja. Trata-se de uma celebração marcada, de modo particular, pela poesia e pela emoção. Diante do presépio, todos voltamos a ser um pouco crianças e isto transparece, de certo modo, na celebração. É, portanto, uma celebração para ser realizada na alegria; em total alegria: cantos, espaço celebrativo formado pela árvore de Natal e pelo presépio. Os paramentos escolhidos pelo padre devem ser os melhores e os mais bonitos. Tudo para celebrar o Nascimento do Menino Deus, Jesus Cristo, o Emanuel, o Deus conosco.
O centro da celebração do Natal é o nascimento de Jesus Cristo. A Igreja exulta de alegria porque Deus cumpriu sua promessa e fez nascer um Menino que será luz das nações (1ª leitura da Missa da noite), será um Salvador para o povo (Evangelho e Salmo Responsorial da Missa da Noite). É a graça e a glória de Deus manifestadas visivelmente diante de nossos olhos; é a nossa Salvação (2ª leitura da Missa da Noite). Leituras que descrevem a Teologia do Natal em termos de Epifania: a manifestação da Salvação divina no Menino Deus que nasce da Virgem Mãe.  
Também as orações da Missa da Noite ressaltam o grande anúncio do Natal: o nascimento do Salvador e a manifestação da Salvação para a humanidade (antífona de entrada). É a presença da luz divina (da glória divina) em nosso meio, que um dia a veremos eternamente na casa do Pai (oração do dia e antífona da comunhão). É a realização do “divino comércio” que nos possibilita participar da divindade, pois pela Encarnação Deus assumiu a nossa humanidade, ou seja, recebemos a possibilidade de participar eternamente do convívio divino (oração sobre as oferendas). O Prefácio do Natal do Senhor I proclama solenemente que Jesus é a glória de Deus brilhando em nosso meio. Jesus é o modo escolhido por Deus para se mostrar a nós (Epifania) sem nos ofuscar com seu brilho e sua luz imensa.
Seja a Palavra como a eucologia, ambas se comportam em termos de Epifania, de manifestação da glória divina Encarnada no seio da Virgem Mãe, que nasce num presépio de Belém. É a glória de Deus nas alturas que encanta com a paz os corações de homens e mulheres de boa vontade.

Um pouco de história das Missas para concluir
A solenidade do Natal é celebrada com quatro missas diferentes. Trata-se de um costume muito antigo, que tem seu primeiro documento histórico no século VII. Uma homilia do Papa Gregório Magno fala de três missas. A quarta missa natalina, a “Missa da Aurora”, começou a ser celebrada por volta do século XI.
As quatro Missas têm uma função “mistagógica”, isto é, uma catequese aprofundada, sobre o Mistério (a realidade) do Natal que a Igreja celebra na Liturgia. Na quarta Missa — “Missa do Dia” — a Liturgia proclama a essência teológica do natal: “o Verbo se fez homem e veio habitar entre nós” (Jo 1). Na dimensão teológica do prólogo de João, entendemos a finalidade do Natal: Deus se fez homem em Jesus Cristo para que nós, humanos, pudéssemos receber a vida divina; pudéssemos ser divinizados. É o que a Liturgia suplica na “Missa da Aurora”, na sua primeira coleta: “... dai-nos participar da divindade de vosso Filho que se dignou assumir nossa humanidade”. Este é o “divino comércio”. Quem compreende isso, entende o sentido do Natal e a sua Liturgia.
Permita-me um desabafo: como é triste e até mesquinho, diante de tanta riqueza teológica e espiritual celebrada nas Missas Natalinas constatar que equipes de celebrações introduzem o Papai Noel para apagar a grande mensagem do Natal.
Serginho Valle
Dezembro de 2017  



← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário

Participe. Deixe seu comentário aqui.