29 de dez de 2017

Paróquia e vida espiritual

Existem momentos e dias que um padre olha para seu trabalho e é tentado a se perguntar: que sentido tem tanto trabalho debaixo do sol? (Ecl 2,22). É um questionamento justo porque, diferentemente do trabalho de uma empresa, cujos resultados são visíveis, por exemplo, a maior parte dos resultados espirituais nem sempre é visível. São resultados que acontecem nos corações e nas mentes das pessoas. E isso pode desanimar tanto o padre como os agentes de pastorais e nós que atuamos na Pastoral Litúrgica (PL).
            A primeira regra para quem atua na PL é não esperar elogio. Dependendo da comunidade, as críticas sempre superam os elogios; isso cansa e desanima. Não esperar elogio porque sempre haverá aquele ou aquela que colocará um defeito. São os críticos de plantão, que tampouco colocam a mão na massa. Vivem na zona de conforto das críticas. O que fazer, então?
Fazer o simples, o ordinário; adotar o movimento da semente, que vai produzindo vida escondendo-se no fundo da terra. Quem cultiva a espiritualidade da simplicidade é um bom candidato para trabalhar na PL. Quem entra na PL para aparecer, cedo ou tarde deixará o ministério por não ter sido reconhecido com “seus talentos, com seu esforço e bla bla bla”. Muitos agentes da PL são injustiçados; tenho certeza disso. Por isso, com maior razão, a necessidade do cultivo da espiritualidade da simplicidade, inspirando-se no ensinamento de Jesus: “fizemos o que precisava ser feito; somos servos inúteis” (Lc 17,10) Inúteis não no sentido de imprestáveis, mas no sentido que “útil”, no trabalho da PL, é a atividade realizada pelo Espírito Santo. Dito em duas palavras: a PL não é palco para aparecer na comunidade, é um serviço para favorecer a ação do Espírito Santo na comunidade.
Um primeiro passo, portanto, consiste em descobrir o valor da simplicidade e até mesmo da pobreza naquilo que é essencial para a PL. O essencial não é criar Missas animadíssimas, com cantos e gestos, com palavras de ordem e coisas do gênero. O essencial não é entupir a celebração de símbolos e sinais, de cantos e de coreografias. Isso pode existir, mas quando perde a simplicidade, então deixa de ser essencial. Inspiro-me no que diz a SC 34 ao caracterizar o ato celebrativo pela brevidade, simplicidade, clareza e solenidade.
A PL torna-se eficaz à medida que exerce um trabalho simples e persistente, não superior aos seus limites e às suas próprias forças (SL 131,1). A PL é uma das principais responsáveis pela vida espiritual da paróquia e de cada comunidade. Não tenho receio em afirmar que a espiritualidade paroquial não se inspira em algum movimento ou em alguma congregação ou ordem religiosa, mas na espiritualidade litúrgica. E, como reconhece aqueles padres e leigos que se dedicam ao trabalho espiritual, a espiritualidade é semeada com o mesmo critério da parábola do semeador (Mt 13,1-9). O processo de semear sempre, de não voltar para colher, porque a colheita não pertence a Paulo ou a Apolo; é o Espírito Santo que faz produzir os frutos e é Deus quem colhe (1Cor 3,6). Na PL nós trabalhamos com a pequena semente do Reino (Mc 4,26). Jesus fala de uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes (Mt 13,32), e não da semente do coco-do-mar, a maior semente do mundo, que pesa 22 quilos. É até bom que não seja essa semente; seria extenuante semeá-la todos os dias? Nosso trabalho de favorecer a espiritualidade paroquial consiste em semear a menor de todas as sementes em cada celebração.
O que caracteriza a PL na paróquia é a criatividade para cultivar as pequenas e ordinárias sementes de vida que aparece no cotidiano de cada paroquiano. Isso acontece dentro da celebração. Se as celebrações forem dispersivas, a semente será levada pelo vento da distração, das cantorias que embalam e de longas e cansativas pregações. Ou, poderá cair em terreno arenoso: cresce um pouco, mas sem consistência. Por isso, o grande, o maior desafio da PL, consiste em ser criativa para ajudar cada celebrante a viver o Evangelho na simplicidade do dia-dia e, para isso, serve celebrar a Liturgia em toda sua simplicidade orante, meditativa, cantante, adorante.
Serginho Valle

Dezembro de 2017
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