17 de nov. de 2017
10 de nov. de 2017
Motivos para organizar a Pastoral Litúrgica Paroquial
novembro 10, 2017 Serginho Valle
Num
texto anterior, trabalhamos as dificuldades que podem surgir dentro da própria
comunidade quanto a organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). Mas,
como nenhuma comunidade pode estacionar no tempo, dando ouvidos a quem se
contenta com a mesmice de sempre, é interessante considerar os motivos para se
ter uma PLP organizada.
Num
texto anterior, trabalhamos as dificuldades que podem surgir dentro da própria
comunidade quanto a organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). Mas,
como nenhuma comunidade pode estacionar no tempo, dando ouvidos a quem se
contenta com a mesmice de sempre, é interessante considerar os motivos para se
ter uma PLP organizada.
Estruturação e organização da Pastoral
Litúrgica na Igreja
A organização da Pastoral Litúrgica
nas comunidades, a PLP, em sentido amplo, é parte de uma organização maior. O
que temos nas comunidades é uma organização de base, e na base, por assim
dizer.
O primeiro estágio dessa organização
encontra-se em Roma, na Santa Sé, com a Sagrada Congregação para o Culto
Divino. Depois, em nível de América Latina, o CELAM tem um departamento que se
ocupa de Liturgia. No Brasil, existe a Dimensão Litúrgica da CNBB.
Aproximando-nos um pouco mais das comunidades, cada Diocese deverá ter sua
Equipe Litúrgica Diocesana e, em nível de Paróquia, cada comunidade paroquial
terá uma Equipe Litúrgica Paroquial.
Naquilo que atinge mais de perto as
comunidades, a Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium sugere que a
Equipe Litúrgica Diocesana seja dividida em três setores: a Liturgia enquanto
comporta a formação e as orientações celebrativas; a Equipe Litúrgica Diocesana
de Música, encarregada de tudo aquilo que se refere à arte musical da Diocese e
a Equipe Litúrgica Diocesana da Arte Sacra que, mesmo podendo ser independente
daquela, zela sobre as obras artísticas da Diocese, além de atuar como
consultores, no momento da construção de igrejas e locais destinados ao culto
divino. (Cf. SC 43-46). Dito isto, vamos considerar alguns motivos para a organização
da PLP.
1
– A Liturgia é o cume das ações da Igreja
O primeiro motivo diz respeito à
importância da Liturgia para a Igreja. A este propósito, diz a Sacrosanctum
Concilium: “Toda celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de seu
corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no
mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja” (SC 7).
Sendo assim, supõe-se que não se pode tratar a Liturgia
como uma atividade dentre outras, na comunidade, mas como aquilo que é: “a mais
importante dentre todas as ações da Igreja”. Não se trata de transformar tudo
em liturgia, alertado pela SC 9, mas dar, sim, o devido valor como atividade primordial
e fontal na vida da Igreja. Não se pode tratar a Liturgia de qualquer modo, uma
vez que celebrar a Liturgia é sempre ato memorial, isto é, atualização da Salvação
divina em nosso hoje.
2
– Presença de Cristo
Outro motivo é a presença e a ação
de Jesus Cristo nas ações litúrgicas. Jesus Cristo está presente nas atividades
missionárias, catequéticas, caridosas que são realizadas em nossas comunidades,
contudo, na Liturgia, Jesus Cristo age “in persona”; é ele quem anuncia o Evangelho,
quem batiza, crisma, reparte a Eucaristia, reza e oferece o culto espiritual ao
Pai (Cf. SC 7). Sendo assim, não se pode admitir que a Liturgia seja celebrada
de qualquer jeito. Um motivo importantíssimo para que façamos bem e preparemos
bem todas as ações litúrgicas da comunidade.
3
–Afluência do povo
As celebrações litúrgicas, do ponto
de vista pastoral, é um momento no qual o padre ou o responsável da comunidade
(onde não há padre) tem o maior contato com o seu povo. Muitos dos celebrantes
têm contato com o padre de vez em quando. Contudo, no momento da celebração, o
padre tem um contato privilegiado com a maior parte do povo que lhe foi
confiado. É importante e, diria mais, necessário, que o padre exerça com
dignidade, com respeito e com competência as presidências litúrgicas a fim de
ter um contato qualificado com seu povo.
Junto a isso, considero aqueles
“cristãos de ocasião”, que aparecem para algum ato especial na igreja e na
comunidade: casamento, batizado, Missa de 7o dia... É a oportunidade
do padre para conversar com essa gente e propor-lhes o caminho do discipulado
nas estradas do Evangelho.
Você concorda comigo que em tais circunstâncias
não se pode fazer qualquer coisa e de qualquer modo. É preciso que seja feito
bem feito, sem a sensação da improvisação de quem faz para descumprir-se de
alguma tarefa da qual foi incubido. Para tal fim, a organização da PLP é
imprescindível.
4
– Linguagem da celebração litúrgica
Trago a linguagem litúrgica como
quinto motivo para se organizar bem a Pastoral Litúrgica na comunidade. A razão
é que nossa Liturgia é sóbria e breve, e para realizá-la assim, breve e
sobriamente, é preciso preparação e, mais que simples distribuição de tarefas,
necessita uma boa e acurada preparação. Em assim não se fazendo, entende-se que
celebrações mal preparadas, ou não preparadas, tornam-se prolixas, transformadas
em falação e cantorias.
Como se vê, quanto mais simples for
um processo comunicativo e, quanto mais conhecido é este processo de
comunicação, como é o caso da Missa, mais necessária se faz uma boa preparação.
Não se trata de arranjar uma novidade para cada Missa, ou para celebrações
sacramentais, mas ter uma linha condutora que ajude os celebrantes a celebrar
bem, de modo breve e sóbrio com a linguagem litúrgica.
5
– Improvisação é sinal de desleixo
Como já escrevi no meu livro sobre a
Pastoral Litúrgica, quando se percebe em uma celebração que ninguém sabe ao
certo o que fazer, como fazer... a celebração já começa com rumores e, fácil
deduzir, começa mal.
Alguns padres têm a estranha ideia
que tudo deve ser feito no improviso e que o Espírito Santo é que vai
“soprando” as inspirações para cada momento. Eles esquecem que Deus é
organizado e preparou por milhares de anos a vinda de Jesus ao mundo. Jesus
mesmo preparou todo o processo do discipulado, até que veio o Espírito Santo
para fazer a Igreja caminhar, no dia de Pentecostes. Ora, se isso é observável
na História da Salvação, que celebramos na Liturgia, a improvisação é um
contratestemunho que precisa ser evitado a todo custo. Celebração não se
improvisa.
Cinco
motivos para se favorecer e incentivar a criação de uma Pastoral Litúrgica
Paroquial atuante e eficaz.
Serginho Valle
Novembro de 2017
4 de nov. de 2017
Catequese litúrgica: Liturgia e fim dos tempos
novembro 04, 2017 Serginho Valle
A Liturgia reserva as últimas celebrações do Ano
Litúrgico para celebrar e refletir sobre o final dos tempos. Mesmo que a
Palavra fala de momentos catastróficos, a linguagem é apocalíptica, e isso tem
causado incompreensões e até mesmo temor. Uma aproximação equivocada, do senso
comum, por relacionar a linguagem apocalíptica a acontecimentos trágicos,
extremamente catastróficos e, por isso, destruidores.
Apocalipse é uma palavra de origem grega que
significa “revelação”. Disso se conclui que a linguagem apocalíptica é uma
linguagem reveladora, não no sentido de anunciar o futuro, mas de chamar
atenção à vigilância de cada um para não perder a fé, a esperança e a alegria
no momento que as seguranças da terra começarem a desaparecer. A Liturgia,
portanto, em suas celebrações não anuncia o terror da destruição, mas celebra a
força da esperança, apoiada na virtude da vigilância. Em nenhum momento, a
Liturgia profetiza catástrofes, nas celebrações de fim de ano. Ao contrário,
continua sendo profeta e promotora da esperança em Deus.
Mas, vamos colocar uma questão: — esta esperança
pode diminuir ou até mesmo desaparecer devido à desconfiança pessoal? Sim!
Disso se entende o empenho da Liturgia em manter a esperança através da
vigilância. Vamos considerar como isso acontece a partir de algumas considerações
de celebrações do Ano A.
A santidade como realização da vida
A santidade divina é a primeira proposta
apocalíptica celebrada na Liturgia. É a celebração de uma revelação (um
apocalipse) festiva e repleta de esperança: todo homem e mulher são chamados a
participar da santidade divina. É a comunhão de todos os santos, que
professamos no Credo da Igreja e celebrada na Solenidade de todos os santos e
santas, em dia 1º novembro. Por motivos pastorais, aqui no Brasil, é
transferida para o primeiro Domingo depois da data.
Minha reflexão considera a proposta pastoral
pedagógica original do Ano Litúrgico. Neste caso, antes de celebrar a morte
cristã, no dia seguinte (2 de novembro), a pedagogia litúrgica celebra o
destino da vida: viver e participar da santidade divina. Antes de refletir
sobre a morte, a Liturgia, pedagogicamente, mostra que somos destinados a ser
santos e santas. A morte não é o fim de tudo, não é o fim da vida, mas é uma
passagem para participar da vida plena que acontece na santidade divina, na
comunhão de todos os santos e santas.
Por isso, as duas celebrações — de Todos os Santos e
dos Fiéis Defuntos — do ponto de vista pedagógico, estão próximas porque
indicam duas realidades da vida humana: a realidade da morte e a realidade do
destino da vida humana. Entende-se que a
celebração do dia 2 de novembro celebra a fé e a esperança na "comunhão
dos santos", como professamos no Credo, sustentando-se na Palavra desta
celebração que promete e garante a vida eterna para quem viver em Jesus Cisto.
É um contexto celebrativo marcado essencialmente pela esperança e pela fé
na vida eterna.
Além
da fé e da esperança, existe também a já citada “comunhão dos santos”, pelo
qual nós, como Igreja que vive na terra, intercedemos à Igreja que vive no céu,
que acolha aqueles que partiram desta vida na esperança do repouso eterno.
Existe esta “comunhão dos santos” que, em outras palavras, pode ser denominada,
também, como “comunhão de batizados”, aqueles que foram lavados na água do
Batismo e, por receberem a filiação divina, tornam-se santos e santas. A
segunda dimensão é que os santos que vivem na terra (os batizados) intercedem
para que os falecidos participem da santidade plena da vida divina. Isso não é
feito somente no dia 2 de novembro, mas diariamente, em todas as Missas
celebradas na Igreja.
A
celebração dos santos e santas, para finalizar, não é, apenas, um convite para
refletir sobre a santidade, mas principalmente entender a santidade como
realização da vida humana, algo que nem a morte pode destruir, porque somos
redimidos no Sangue do Cordeiro vitorioso e revestidos com a veste dos eleitos.
Vamos
ao encontro do Senhor! Esperança e vigilância
No contexto apocalíptico que marca as celebrações da
conclusão do Ano Litúrgico — apocalíptico como revelação do destino do homem —
encontra-se também o convite da Liturgia para caminhar ao encontro do Senhor.
Este caminhar ao encontro do Senhor acontece em duas estradas importantíssimas,
do ponto de vista da espiritualidade cristã: a estrada da esperança, que é
alimentada pela fé, e a estrada da vigilância, alimentada pela caridade, pelo
amor. Isto se faz presente nas celebrações do 32DTC-A e 33DTC-A.
Dois
enfoques ajudam a contextualizar a celebração do 32DTC-A. O primeiro convida a
se deixar encontrar por Deus e acolher a Sabedoria divina na vida pessoal. Ao
se dizer que o enfoque celebrativo do 32DTC-A consiste em se de deixar
encontrar por Deus, a Liturgia está convidando a viver na vigilância, porque
Deus é quem nos procura, vem ao nosso encontro, presente na expressão: “O noivo
está chegando. Ide ao seu encontro”. Aqui está uma versão da linguagem
apocalíptica: a Liturgia revelando um tempo especial que consiste na vinda do
“noivo”, isto é, a 2ª vinda de Jesus Cristo. Por isso, não se pode ficar
dormindo, é preciso viver na vigilância.
O
segundo enfoque convida, justamente, a viver na vigilância com a alegria e com
a expectativa de participar de um banquete de amor com Deus, pois nele está a
fonte da vida plena. Vigilância, na proposta das celebrações de fim de Ano
Litúrgico, não significa viver aprisionado, bloqueado ou atemorizado com os
acontecimentos. Ao contrário disso, a proposta é viver como quem se prepara
para uma festa. Como se sabe, pela experiência da vida, a preparação para uma
festa, em si, gera uma expectativa de alegria. Vigilância cristã é um tempo
alegre de quem se prepara para celebrar a festa da santidade divina, celebrar
esta festa com o próprio Deus.
O
33DTC-A apresenta ainda outra
característica da vigilância cristã: a atividade cotidiana do trabalho.
Vigilância cristã não é inatividade, mas “viver a vida” cotidiana trabalhando
pelo pão diário para si e para os outros. A imagem simbólica dessa atitude
vigilante está na 1ª leitura do 33DTC-A: o elogio à mulher que trabalha e
administra sua casa para o bem de todos. Um modo de dizer que a vigilância
cristã é uma atitude sábia de quem teme a Deus e se dedica diligentemente ao
trabalho cotidiano.
É
pelo trabalho que os talentos são multiplicados, como diz o Evangelho do
33DTC-A. Talentos não no sentido do senso comum, de ter dotes especiais, mas
talento no sentido evangélico, que significa a vida. Vigilante é aquele que
produz mais talentos, isto é, produz mais vida. Não nascemos para enterrar a
vida, como fez o servo inútil, mas para multiplicar a vida. Quem assim vive,
vive vigilante e terá a recompensa final.
Honra
e glória a Cristo Rei do Universo
O
último elemento das celebrações de fim do Ano Litúrgico é a Solenidade de Jesus
Cristo Rei do Universo. É o coroamento final do discipulado. Quem caminhou com
Jesus e nas estradas do Evangelho, no decorrer de todo um período de tempo — o
Ano Litúrgico — no final se aproxima do trono divino para adorar, glorificar e
louvar. O motivo disso: o reconhecimento que Jesus é o Senhor, o nosso Deus,
aquele no qual vivemos, nos movemos e somos.
Voltamos,
assim, ao início da nossa reflexão: a meta da vida humana consiste em se deixar
encontrar por Deus. E, quando Deus nos encontra, propõe-nos o caminho de uma
vida que se traduz em adoração, em louvor e em discipulado. Quem segue este
caminho ouvirá, no encontro definitivo com o Senhor, Rei do Universo, o Pastor
eterno: “vinde, benditos do meu Pai, para tomar posse do lugar que vos foi
preparado”.
Serginho
Valle
Outubro
de 2017
27 de out. de 2017
Algumas dificuldades da Pastoral Litúrgica Paroquial
outubro 27, 2017 Serginho Valle
Anos
atrás, escrevi um livro chamado “Pastoral Litúrgica, uma proposta, um caminho”
(Loyola/Dehonianos - 1998) que, graças a Deus, continua sendo estudado, refletido
e debatido em muitas comunidades. Foram publicadas 4 edições e, recentemente,
publiquei o livro em formato ebook, que pode ser adquirido no site do SAL —
Serviço de Animação Litúrgica — www.liturgia.pro.br
Quando
lancei o livro, muitas pessoas ficaram surpresas com a possibilidade da
organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). De fato, como escutei várias
vezes, “nossa Pastoral Litúrgica resume-se a uma lista de funções, pendurada no
mural da sacristia”. Relato isso em meu livro. Hoje, em tempos tecnológicos, a
PLP de muitas paróquias acontece pela distribuição de serviços num grupo de
wattsup. Não faz sentido condenar alguém, porque, talvez, a falta de orientação
fez perder a riqueza da Pastoral Litúrgica em favor da comunidade e de cada
membro da comunidade. Mesmo, assim, gostaria de considerar, a título de
avaliação, algumas críticas que ouvi, no tempo que ministrava cursos nas
comunidades.
Pastoral do laço
Descrevo essa prática da “Pastoral
do laço” no meu livro com mais calma. Acontece naquelas comunidades que, faltando
10 a 15 minutos para começar a Missa, algumas pessoas da “Liturgia” entram na
igreja para “laçar” comentaristas e leitores e, em momentos de desespero, laçar
cantores.
Diante
da proposta de uma Pastoral Litúrgica organizada, que valoriza o ministério do
leitorato, os defensores da “pastoral do laço” reagem e rejeitam a PLP: “não é
preciso; afinal, alguma vez faltou leitor ou comentarista na Missa? Se não
faltou, para que mais um trabalho e mais reuniões na comunidade?”
“Prá que mudar se a missa começa e
termina”
Outra realidade que impede a
organização da PLP vem dos acomodados da “Liturgia”. Têm como lema: “Prá que
mudar?”. Prá que mudar se a missa começa e sempre chega ao final? Prá que mudar
se o padre sozinho faz os batizados e não incomoda ninguém? Prá que mudar se os
casamentos são tão cheios de flores e teatro emocionados e emocionantes?” Depois
de tais considerações, arrematam um veredicto fatal: “está bom assim; pra que
mudar!”
O conselho desse pessoal é: “olha,
não vamos procurar sarna para nos coçar; vamos continuar como está, pois está
bom assim”. E podem continuar 10, 20 ou mais anos neste “marca passo”, quais
eternos patinadores, sem sair do lugar.
“Tenho o lugar garantido”
Outro grupo são aqueles que tem
lugar garantido, cadeira cativa para fazer o comentário, as leituras, as preces
e cantar na Missa. Normalmente, chegam em cima da hora, e vão direto para o
microfone para fazer comentários e leituras e animar a música, sem preparação
alguma. É a “Pastoral da cadeira cativa”. “Na Missa das 10hs – dizem – a 1ª leitura
é sempre minha.”
Esse pessoal também dificulta e
impede criar a Pastoral Litúrgica na comunidade e argumentam: “isso de criar
equipes de celebrações para cada missa, dá muito trabalho; vai ter que fazer
reunião uma vez por mês; vai ter que preparar as celebrações... Do jeito que
estamos fazendo, está bom”. E, por 10, 20 ou mais anos são sempre os mesmos
leitores, o mesmo comentarista, os mesmos cantores cantando as mesmas canções. É
a Liturgia é celebrada na mesmice até que vire museu.
“Na hora a gente vê”
Muitas equipes de celebrações deixam
tudo para a última hora. Não se preocupam em preparar leituras, comentários ou
escolher as canções. Desculpam-se dizendo: “na hora a gente vê”. Quando é
proposta uma caminhada de Pastoral Litúrgica, os músicos aconselham
doutoralmente: “o povo gosta do jeito que nós cantamos na igreja e, se gostam,
para que mudar?”
Conheci com um grupo assim.
Começaram como grupo de jovens, casaram-se, alguns já são avós e continuam
cantando as mesmas músicas do seu tempo de grupo de jovens; continuam fazendo
as mesmas procissões de oferendas do tempo de grupo de jovens e continuam
achando que vivem há 25 anos atrás.
O folheto tem tudo
Os mais radicais defensores do
“deixa disso” apoiam-se nos folhetos como critério litúrgico para as
celebrações. Os ditos cujos interrogam: “para que preparar, se o folheto traz
tudo o que precisa ser feito?” Com estes é difícil argumentar. Julgam-se no
direito de serem liturgicamente corretos, enquanto “leitores de folhetos” e não
admitem que o folhetos podem servir para uma melhor preparação para as
celebrações.
Concluindo
Proponho alguns exemplos de
dificuldades; talvez hajam mais relevantes. São dificuldades de emperram o
caminho da comunidade porque a celebração Litúrgica, na comunidade, de
indivíduos e grupos que consideram a Liturgia e as celebrações como uma função
finalizada em si mesmas. Toda celebração tem um alcance maior que simplesmente
realizar ritos, fazer leituras e cantar canções. Têm uma finalidade evangelizadora,
por exemplo, tem uma finalidade pedagógica na formação do discipulado, tem uma
finalidade testemunhal, tem uma importância imprescindível na formação da
espiritualidade... Para se corresponder a tais finalidades, não se pode
celebrar de qualquer modo, não se pode ter sempre os mesmos leitores como se
fossem os únicos testemunhas da Palavra na comunidade; não se pode cantar as
mesmas canções, pois cada celebração é cantada de modo diferente e pede canções
diferentes.
Na maior parte das comunidades sem
uma PLP organizada percebe-se que as celebrações, especialmente (e
infelizmente) da Missa, são atividades rituais de um determinado horário da
comunidade. Isso é muito triste, porque reflete a imagem de comunidades
paradas, sem iniciativas, sem propostas. O conceito que a Liturgia é cume e
fonte de todas as atividades da Igreja (SC10) é verdadeiro e observável em comunidades
com PLP dinâmicas e criativas. Comunidades que celebram bem são ativas, vivas
e, principalmente criativas não só nas celebrações, mas em todas as atividades
da comunidade. A celebração é apenas o espelho da comunidade.
Serginho Valle
Outubro 2017
20 de out. de 2017
Pastoral Litúrgica e evangelização
outubro 20, 2017 Serginho Valle
Na
prática, fazer pastoral é dinamizar a comunidade com as características do Bom
Pastor (Jo 10). Características tais como: amar o povo, conhecer a comunidade,
mostrar o caminho seguro, ser uma porta para que as pessoas acessem o redil do
Evangelho e o transformem em fonte de vida. A finalidade de toda pastoral, em
última análise, consiste em assumir o mesmo projeto de Jesus Bom Pastor: “eu vim para que todos tenham vida e vida em
abundância” (Jo 10,10). Por isso, a Pastoral Litúrgica não tem, como
finalidade primeira e principal, criar belas e atrativas celebrações, mas ser e
propor em cada e em todas as celebrações o encontro com Jesus, a fonte da vida
plena. Assim, entende-se o valor evangelizador através da Liturgia na formação
de uma comunidade de discípulos e discípulas do Evangelho.
Uma
primeira dedução é não transformar a Equipe Litúrgica, que coordena a Pastoral
Litúrgica Paroquial em — apenas — uma equipe de criatividade celebrativa. Digo
“apenas”, porque a criatividade litúrgica é importante, e torna-se ainda mais
importante à medida que entende seu trabalho não para fazer o que “o povo
gosta”, mas, para conduzir a comunidade, qual Bom Pastor, nos caminhos do Reino
de Deus, que é o caminho do discipulado. O critério principal da pastoral, em
síntese, é favorecer o crescimento do discipulado e isso acontece numa
comunidade evangelizada.
Lembrando a Palavra da Igreja
Em
sua carta pastoral para o início de milênio, São João Paulo II, na “Novo
Millenio Ineunte”, ao traçar um plano de pastoral para a Igreja nesta nova
etapa da história, pede que toda atividade pastoral olhe para Jesus Cristo, para
o seu modo de agir, para o seu modo de ser, para o seu modo de tratar o povo,
para que nele se inspirem todas as atividades pastorais. Diz o Papa:
“Agora, já não é uma
meta imediata que se apresenta diante de nós, mas o horizonte mais vasto e
empenhativo da pastoral ordinária. No respeito das coordenadas universais e
irrenunciáveis, é necessário fazer com que o único programa do Evangelho
continue a penetrar, como sempre aconteceu, na história de cada realidade
eclesial.” (Novo millenio ineunte, n. 29).
Interessante
observar que o texto do Papa fala de “o
único programa do Evangelho”. Quer dizer, a fonte de toda Pastoral é o
Evangelho, ilumina-se no Evangelho e tem por finalidade evangelizar, isto é,
colocar o Evangelho na vida das pessoas e nos relacionamentos sociais.
Ora,
isso é extremamente significativo para a Pastoral Litúrgica. Em todas as
celebrações, a Igreja celebra o Evangelho, proclama o Evangelho, orienta
(homilia) como viver o Evangelho no cotidiano da vida, introduz no caminho do
Evangelho (Iniciação Cristã), perdoa quem se desvia do caminho do Evangelho
(Penitência) e assim por diante. Nisto se fundamenta a criatividade litúrgica:
em celebrar a presença de Jesus (SC 7), que é sempre presença evangelizadora. Ou
seja, a Pastoral Litúrgica não tem a preocupação de fazer bem e fazer bonito para
transformar as celebrações em espetáculos, mas em vista da evangelização.
Pastoral para o nosso tempo e nossa
comunidade
A
primeira parte do texto de São João Paulo II, na “Novo Millenio Ineunte” faz referência ao empenho que a Igreja é
chamada a fazer neste novo milênio. O ponto central do texto consiste em
mostrar que a Pastoral, nas suas mais diferentes manifestações, tem uma única
finalidade: fazer com que o Evangelho, os valores evangélicos, penetre cada
mais no relacionamento humano, penetre na sociedade, penetre na comunidade.
Para isso se orientam os programas e estratégias pastorais. Lembrando o texto: “é necessário fazer com que o único programa
do Evangelho continue a penetrar, como sempre aconteceu, na história de cada
realidade eclesial.”
O
programa pastoral, portanto, tem a mesma identidade do programa do Evangelho,
mas com um detalhe que necessita atenção: penetre “na história de cada realidade eclesial”. Isso significa que cada comunidade
anuncie, celebre e viva o Evangelho com os valores e com a linguagem própria da
comunidade. Do ponto de vista Litúrgico: anunciado e celebrado com os valores e
com a linguagem da comunidade.
Esta,
reconheçamos, é a tarefa mais exigente e mais árdua da Pastoral Litúrgica.
Estou falando de inculturação litúrgica, um desafio que nunca deixa sossegada
uma Pastoral Litúrgica autêntica e dinâmica. Neste contexto, entende-se que o plano
da Pastoral Litúrgica Paroquial precisa conhecer as ovelhas (“pelo nome”, diz
Jesus), isto significa que a exigência leva a conhecer as necessidades
espirituais, pessoais e sociais do povo da comunidade. Quando isso acontece,
então sim, se pode dizer que a comunidade celebra a vida do povo. Eis o desafio
da Pastoral Litúrgica. Um belo desafio, penso eu.
Serginho Valle
Outubro de 2017
13 de out. de 2017
Oração, ação e formação na Pastoral Litúrgica
outubro 13, 2017 Serginho Valle
O texto
de Ex 17,8-13 narra a luta do povo, comandada por Josué e sustentada pela
oração de Moisés. Enquanto Moisés rezava de braços estendidos, o povo vencia os
amalecitas; quando Moisés parava de rezar, o povo começava a ser derrotado. A
luta foi vencida pela oração e pela ação. Gosto deste texto para ilustrar o
trabalho da Pastoral Litúrgica na comunidade: oração e ação.
Isso
significa que a Pastoral Litúrgica não atua somente no contexto oracional e nem
somente no contexto ativo. Há a necessidade de que oração e ação sejam como
duas rodas que levem a comunidade a bom termo deste trabalho. Ou, dizendo
de outro modo, e de modo mais privilegiado, a necessidade que a atividade da
Pastoral Litúrgica seja sustentada pela oração. Uma apoiando a outro.
Este
apoio mútuo é facilmente identificado no nosso texto Bíblico. Tanto Moisés como
Josué foram convocados por Deus para servir o povo, mas missões diferentes:
rezar e lutar. Eis uma boa imagem dos membros da Pastoral Litúrgica: ser, ao
mesmo tempo, Moisés (orantes) e Josué (ativos). São duas rodas, como de uma
bicicleta, que equilibra a Pastoral e faz caminhar em frente.
A
experiência demonstra que uma Equipe litúrgica que concentra sua Pastoral
unicamente na oração e em celebrações, facilmente cai no comodismo e na produção
de celebrações sentimentalistas, para emocionar. Do outro lado, a Equipe
Litúrgica que se concentra só na atividade, cai no ativismo e, neste caso, para
mostrar trabalho enche as celebrações de pendulicários, transformando-as em
teatro, em procissões e apresentações de símbolos e sinais, recheadas de
canções e coreografias. Em ambos os casos, o desequilíbrio é notório. Por isso,
para se evitar o desequilíbrio existe um terceiro elemento.
Sabemos
que a graça da oração é garantida por Deus. Mas nosso empenho, nosso agir,
precisa de um fundamento para que seja frutuoso. Tal fundamento encontra-se no
estudo, na formação dos membros da Pastoral Litúrgica. Rezar para vencer a
luta, como fazia Moisés, mas agir com inteligência e fundamentados na Teologia
e na Espiritualidade Litúrgica. Sobre a Espiritualidade Litúrgica dedicarei um
estudo, oportunamente. Para o momento, vamos nos ater somente na Formação
Teológica.
Formação
teológica na Pastoral Litúrgica
Sobre a
formação dos membros da Equipe Litúrgica, aqueles que conduzem e coordenam a
Pastoral Litúrgica na comunidade, a Igreja fala da importância e da necessidade
da formação. Sobre isso, vários são os documentos que orientam sobre a formação
litúrgica a quem atua na Pastoral Litúrgica da comunidade. Vou ficar com o que
diz o Documento
da CNBB, 43, n. 195, que define a formação como ampla e profunda.
“Tenha-se presente que a grande meta
dessa formação ampla e profunda é preparar agentes para a aculturação e a
inculturação da Liturgia, porque homens e mulheres que vivem as duas
realidades, a sócio-cultural e a celebrativa, poderão facilitar a tarefa para
os responsáveis por este processo.”
As duas
palavras, “aculturação” e “inculturação”, merecem destaque. Ambas querem dizer,
basicamente, o seguinte: a necessidade de levar os elementos da cultura para
dentro da celebração e de levar os elementos da Liturgia (os valores do Reino
de Deus, o Mistério Pascal com sua força salvadora...), para dentro da cultura,
onde vive a comunidade. Na prática, isto significa o empenho para colocar a
vida social e cotidiana na celebração e, de outro lado, levar o que se celebra,
os valores do Reino de Deus com todas suas dimensões, para o meio da
vida.
Esta
tarefa, como se deduz, não é algo simples, exige conhecimento, formação do que
seja Liturgia, compreensão clara do que é celebração litúrgica, conhecimento da
linguagem litúrgica, da comunicação litúrgica e, igualmente, conhecimento da
comunidade. Não basta, portanto, o conhecimento teórico da Liturgia, para que
seja eficaz, do ponto de vista transformador; se faz necessário o conhecimento
do contexto cultural comunitário onde é celebrada a Liturgia. Este é um grande
trabalho e um trabalho multidisciplinar. Estudar a Liturgia e iluminá-la
com as luzes de outras ciências.
Pela carência
do conhecimento Litúrgico, por parte da Equipe Litúrgica, leva a correr o risco
de transformar a Liturgia em cerimônias e as celebrações em shows ou
teatrinhos. É a preocupação de “fazer bonito”, esquecendo que o mais importante
é promover o encontro com Deus, com seu projeto divino e com o irmão. Só mesmo
o estudo e a formação séria coloca a Equipe Litúrgica num caminho seguro e
frutuoso.
Conclusão
Considerando
tudo isso — mas tudo isso é apenas uma anotação em vista do que a Igreja propõe
em termos de formação litúrgica a quem atua na Pastoral Litúrgica —volto ao que
dizia em outra oportunidade: boa vontade ajuda, mas não favorece um empenho
satisfatório e frutuoso em termos de Pastoral Litúrgica. Deduz-se, portanto,
que é imprescindível que os membros da Pastoral Litúrgica, de modo especial a
Equipe Litúrgica da comunidade, esteja “imbuída do espírito litúrgico”; conheça,
de fato e com profundidade, o terreno onde é chamada a cultivar as sementes do
Reino. Numa palavra: ESTUDAR, REZAR E AGIR.
Serginho Valle
Outubro de 2017
Assinar:
Postagens (Atom)

